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segunda-feira, fevereiro 07, 2022

Abditosaurus, um novo titanosauro na Europa


Miguel Moreno-Azanza colaborou num trabalho sob a descoberta e descrição de um novo dinossauro do final do Cretácico. Deixamos aqui a nota de imprensa do trabalho.

O esqueleto semiarticulado com 70,5 milhões de anos é o espécime mais completo desse grupo herbívoro de dinossauros descoberto até agora na Europa. Além disso, Abditosaurus é a maior espécie de titanossauro encontrada na ilha Ibero-Armorica —uma região antiga que hoje compreende a Península Ibérica e o sul da França— representando um indivíduo senescente estimado em 17,5 metros de comprimento com massa corporal de 14 000 quilos.

O Abditosaurus é um dos dinossauros mais completos descobertos no Cretácico Superior da Europa

 

Para os investigadores, o tamanho do dinossauro é um dos factos mais surpreendentes a apontar: “Os titanossauros do Cretácico Superior da Europa tendem a ser pequenos ou médios devido à sua evolução em condições insulares", explicou Bernat Vila, paleontólogo do Institut Català de Paleontologia (ICP) que lidera a pesquisa. Durante o Cretácico Superior (entre 83 e 66 milhões de anos atrás), a Europa era um grande arquipélago formado por dezenas de ilhas. As espécies que ali evoluíram tendem a ser relativamente pequenas, ou mesmo anãs em comparação com os seus parentes que vivem em grandes massas de terra, devido principalmente à limitação de recursos alimentares nas ilhas. “É um fenómeno recorrente na história da vida na Terra, temos vários exemplos em todo o mundo no registo fóssil dessa tendência evolutiva, por isso ficamos surpresos com as grandes dimensões desse espécime”, acrescenta ainda o investigador.

O trabalho de campo realizado ao longo de várias décadas desenterrou 53 elementos esqueléticos do espécime. Estes incluem vários dentes, vértebras, costelas e ossos dos membros, cintura escapular e pélvica, bem como um fragmento semi articulado do pescoço formado por 12 vértebras cervicais.


Imagens de diferentes restos fósseis de Abdiosaurus kuehnei no sítio Orcau-1 (a), do
processo de escavação (b e c) e do pescoço já preparado (d)

No artigo publicado na Nature Ecology & Evolution, os investigadores concluem que o Abditosaurus pertence a um grupo de titanossauros saltassauros da América do Sul e África, diferente do resto dos titanossauros europeus que se caracterizam por um tamanho menor. Os autores levantam a hipótese de que a linhagem do Abditosaurus chegou à ilha ibero-armoricana aproveitando uma queda global do nível do mar que reativou antigas rotas de migração entre a África e a Europa.

A nova descoberta reflete assim um grande avanço na compreensão da evolução dos dinossauros saurópodes no final do Cretáceo e traz uma nova perspetiva para o quebra-cabeças filogenético e paleobiogeográfico dos saurópodes nos últimos 15 milhões de anos antes da sua extinção.

  Fotografía histórica do paleontologo alemão Walter Kühne, descobridor do Abditosaurus

O estudo é liderado por investigadores do Institut Català de Paleontologia Miquel Crusafont e do Museu Conca Dellà (Catalunha, Espanha), contando com o contributo da NOVA School of Science and Technology | FCT NOVA, Museu de Lourinhã, Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) e Universidade de Saragoça (UNIZAR).

A referência completa é: Vila, B., Sellés, A.G., Moreno-Azanza, M., Razzolini, N.L., Gil-Delgado, A., Canudo, J.I., Galobart, À. (2022). Um titanossauro saurópode com afinidades Gondwanas no último Cretáceo da Europa. Natureza Ecologia & Evolução. DOI: 10.1038/s41559-021-01651-5

Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a
Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto BIOGEOSAURIA PTDC/CTA-PAL/2217/2021

segunda-feira, junho 17, 2019

Lista de dinossauros de Portugal

Lista de dinossauros de Portugal


Ornithischia
Trimucrodon cuneatus Thulborn, 1973
Taveirosaurus costai Antunes & Sigogneau-Russell, 1991
Miragaia longicollum Mateus et al., 2009
?Dacentrurus armatus Owen, 1875
Stegosaurus sp.
Dracopelta zbyszewskii Galton, 1980
Lusitanosaurus liasicus Lapparent & Zbyszewski, 1957
Alocodon kuehnei Thulborn, 1973
Phyllodon henkeli Thulborn, 1973
Eousdryosaurus nanohallucis Escaso et al., 2014
Draconyx loureiroi Mateus & Antunes, 2001
cf. Iguanodon sp.

Sauropoda
Zby atlanticus Mateus et al., 2014
Dinheirosaurus lourinhanensis Bonaparte & Mateus, 1999
Lourinhasaurus alenquerensis (Lapparent & Zbyszewski, 1957)
Lusotitan atalaiensis (Lapparent & Zbyszewski, 1957)
Oceanotitan dantasi Mocho et al. 2019

Theropoda
Abelisauridae ind.
Ceratosaurus nasicornis Marsh, 1884
Torvosaurus gurneyi Hendrickx and Mateus, 2014
Baryonyx walkeri Charig & Milner, 1986
Carcharodontosauria indet.
Allosaurus europaeus Mateus et al., 2006
?Allosaurus fragilis Marsh, 1877
Lourinhanosaurus antunesi Mateus, 1997
Aviatyrannis jurassica Rauhut, 2003
cf. Compsognathus sp.
cf. Paronychodon sp.
cf. Dromaeosaurus sp.
Richardostesia cf. gilmorei Currie, 1990
Euronychodon portucalensis Antunes & Sigogneau-Russell, 1991

Parada dos dinossauros terópodes (por Pedro Andrade).

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sexta-feira, maio 24, 2019

Oceanotitan, o novo saurópode da Lourinhã

Seja bem vindo o novo dinossauro saurópode de Portugal, Oceanotitan dantasi, descoberto em Valmitão, na Lourinhã. Replicamos aqui o artigo do Jornal Público sobre este achado.


Novo dinossauro português era um gigante à beira-mar

Nome de novo saurópode remete para o local na costa atlântica onde se encontraram os seus ossos, mas também para a cantora islandesa Björk e o paleontólogo português Pedro Dantas. Apresentemos o Oceanotitan dantasi.

Camarasaurus
Foto
Ilustração do dinossauro Oceanotitan dantasi CARLOS DE MIGUEL CHAVES
Acabámos de saber que o Jurássico Superior português era habitado há cerca de 150 milhões de anos por mais um dinossauro gigante, que tinha como casa a Bacia Lusitaniana​ – uma zona jurássica de águas pouco profundas na faixa Oeste da Península Ibérica, entre o (agora) norte de Aveiro e a península de Setúbal. O dinossauro agora identificado como novo para a ciência por uma equipa luso-espanhola pertencia ao grupo dos saurópodes, dinossauros herbívoros que se distinguem pelas caudas e pelos pescoços muito compridos.
Mas os ossos do Oceanotitan dantasi já foram descobertos há mais de 20 anos, em 1996, nas rochas que afloram na Praia de Valmitão, na vila de Ribamar, concelho da Lourinhã. E quem os descobriu foi José Joaquim dos Santos, um carpinteiro e paleontólogo amador que já encontrou muitos fósseis na região Oeste do país, conhecida pela sua riqueza em fósseis de dinossauro do Jurássico Superior, segundo se explica num comunicado sobre o trabalho.Trata-se não só de uma espécie nova para a ciência, como igualmente de um género novo, segundo o artigo em que é descrito na revista Journal of Vertebrate Paleontology. Eis o Oceanotitan dantasi, o nome científico atribuído ao dinossauro pelos paleontólogos Pedro Mocho (do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências de Lisboa e da Sociedade de História Natural de Torres Vedras), Rafael Royo-Torres (do Dinópolis – Museu Aragonês de Paleontologia, em Espanha) e Francisco Ortega (do Grupo de Biologia Evolutiva da Faculdade de Ciências da Universidade Nacional de Educação à Distância, em Espanha).
Ao longo de mais de 30 anos, José Joaquim dos Santos foi reunindo uma enorme colecção paleontológica composta por milhares de exemplares de fósseis de vertebrados e invertebrados e que estão depositados na colecção paleontológica da Sociedade de História Natural, em Torres Vedras. “O acervo existente representa agora uma das maiores colecções de vertebrados fósseis do mesozóico português [era geológica ocorrida há 251 milhões a 65 milhões de anos]”, sublinha o comunicado.
PÚBLICO -
Foto
Esqueleto do Oceanotitan dantasi (a vermelho, os ossos encontrados) com a cantora Björk a servir de escala
Ainda que o novo dinossauro seja um saurópode, ele não era tão grande como muitos dos seus congéneres, que podiam atingir dimensões colossais. “Teria aproximadamente dez a 13 metros de comprimento. Era um saurópode de médio tamanho, relativamente mais pequeno do que outras espécies de saurópodes já conhecidas no Jurássico Superior de Portugal, como o Lourinhasaurus, o Lusotitan e o Dinheirosaurus”, diz-nos o paleontólogo Pedro Mocho.

Um museu na Praia de Santa Cruz

Oceanotitan dantasi habitou a Bacia Lusitaniana há 145 a 150 milhões de anos, no Jurássico Superior. Esta bacia formou-se há aproximadamente 150 milhões de anos, quando as massas continentais da Europa e da América do Norte começaram a afastar-se e, no meio, ia nascendo o Atlântico Norte. A Bacia Lusitaniana surgiu então na faixa Oeste da Península Ibérica, numa zona compreendida entre o norte de Aveiro até à península de Setúbal. Eram águas pouco profundas, um ambiente também pantanoso, fluvial e lagunar. Era um ecossistema subtropical, com vegetação exuberante. Havia coníferas, cicas, fetos. “A zona da Lourinhã e de Torres Vedras estava emersa. Tínhamos vegetação, um rio, uma planície, onde o dinossauro podia viver e caminhar. O dinossauro viveu num ambiente terrestre fluvial”, explica Pedro Mocho.
Ora os vestígios desses tempos da Bacia Lusitaniana chegam-nos hoje através de fósseis. O Oceanotitan, que fico aí preservado, significa precisamente, “gigante dos oceanos”.
“Além de fazer alusão ao facto de este exemplar ter sido encontrado em plena costa atlântica, [o nome genérico] pretende ainda fazer uma referência à cantora islandesa Björk e à sua música Oceania que inspirou os autores na atribuição de este nome”, explica o comunicado.
“O [nome] específico dantasi é uma homenagem ao paleontólogo português Pedro Dantas, um dos responsáveis pelo renascimento da paleontologia de vertebrados em Portugal nos anos 90, então paleontólogo do Museu Nacional de História Natural e da Ciência em Lisboa e envolvido na escavação de dinossauros como o Dinheirosaurus lourinhanensis.” Hoje, Pedro Dantas é professor numa escola secundária no concelho da Lourinhã, além de colaborar com a Sociedade de História Natural de Torres Vedras.
PÚBLICO -
Foto
Os paleontólogos Pedro Mocho (à esquerda) e Francisco Ortega
Para a equipa que descreve o novo dinossauro, o Oceanotitan dantasi confirma a grande diversidade de saurópodes no Jurássico Superior de Portugal, “rivalizando com a diversidade já reconhecida nas faunas do Jurássico Superior da América do Norte e de África”.
A Sociedade de História Natural de Torres Vedras tem um projecto, em colaboração com a câmara municipal, para abrir um museu paleontológico na Praia de Santa Cruz. Para já, o núcleo provisório deste futuro museu tem a abertura prevista para o Verão. Além de dinossauros, poderão ver-se aí expostos muitos outros fósseis de animais que habitaram a faixa costeira entre Aveiro e o Cabo Espichel. Vamos poder cruzar-nos lá com o Oceanotitan dantasi.

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quinta-feira, fevereiro 22, 2018

Os dinossauros saurópodes

Cabeça de dinossauro saurópode Europasaurus holgeri, por Thomas Laven.


Estes dinossauros evoluíram a partir de dinossauros bípedes do Triásico superior, há mais de 200 milhões de anos, de um ou dois metros de comprimento que vão gradualmente aumentando de dimensão, adaptando-se a uma regime alimentar exclusivamente herbívoro, com um aumento do comprimento do pescoço.
Os dinossauros saurópodes foram os maiores animais que alguma vez caminharam sobre a Terra. Apesar de algumas espécies chegarem a atingir quase 40 metros de comprimentos, e mais de 80 toneladas de peso, nem todos eram assim tão grandes e alguns eram considerados anões, como o Europasaurus, com seis metros de comprimentos. Algumas baleias actuais, como a baleia-azul com 172 toneladas superam os maiores dinossauros em massa corporal.
Algumas estimativas dizem-nos que, para conseguir bombear o sangue até à cabeça, o coração de algum dos maiores dinossauros saurópodes tinha de ter quase meia tonelada. Todos os saurópodes eram quadrúpedes, isto é, caminhavam sobre as quatro patas. Apesar das limitações corporais, é provável que fossem suficientemente ágeis para se levantarem sobre as patas traseiras em situações de perigo ou para se alimentarem de ramos mais altos.
O corpo evoluiu para se adaptar ao grande peso, pelo que as vértebras começaram a ganhar espaços ocos com sacos de ar, ficando mais leves, enquanto que os membros eram compactos e resistentes. Os dedos perderam gradualmente algumas falanges e as patas ficaram mais simples e resistentes.
Os dinossauros saurópodes eram todos herbívoros, mas a sua estratégia de alimentação variava conforme a espécie. Os braquiossauros alimentavam-se da copa das árvores enquanto os diplodocídeos da vegetação rasteira. Os camarassauros cortavam a vegetação com os dentes, enquanto que os titanossauros ripavam-na. Nenhum saurópode conseguir mastigar a vegetação por não ter molares nem nenhuma outra estrutura bocal de mastigação. Em contrapartida, moíam os alimentos com auxílio de seixos que engoliam, os gastrólitos.
Durante o Cretácico os saurópodes entraram em declínio quando confrontado com os hadrossauros, mais adaptados à mastigação, extinguido-se por completo há 66 milhões de anos.
Em Portugal existiam, entre outros, os seguintes dinossauros saurópodes do Jurássico tardio: Lusotitan, Zby, Supersaurus (=Dinheirosaurus) e Lourinhasaurus.