
Há coisas transversais em toda a ciência, não é só o empirismo, a reproducibilidade, a universalidade e essas coisas... o cientista é também um ser territorial. Quem já não ouviu falar das disputas de autoria de certos teoremas matemáticos? Quem já não ouviu falar do espanto que Darwin sentiu quando recebeu a carta de Wallace, alegando que tinha tido uma ideia semelhante? Na paleontologia passa-se o mesmo... quem descreveu primeiro o espécime, quem teve primeiro uma dada ideia, tudo isso conta; e até certo ponto com uma certa razão de ser. No entanto, há alturas em que isto se torna absolutamente ridículo. Por exemplo, se formos às reservas do Natural History Museum em Londres e se fotografarmos os espécimes temos de previamente assinar uma declaração de forma e não usamos as fotografias para mais nada a não ser uso próprio para fins científicos... Ora, isto tem algum cabimento? Teria se os fósseis ainda não tivessem sido publicados, mas acontece que muitos deles não foram tocados desde quase do tempo de Darwin, ainda nem a Teoria da Relatividade tinha sido inventada, nem a bomba atómica, nem existia Internet, nem computadores sequer. O que acontece actualmente é que o acesso aos espécimes é actualmente extremamente difícil. E depois há outra questão, é que muitas vezes quando os paleontólogos não publicam (ou demoram a publicar - dizem eles) ficam como que detentores dos espécimes e não deixam que ninguém lhes toque... Existe um episódio
engraçado que nos foi contado pelo nosso colega Jesper Milàn: havia um qualquer paleontólogo na Dinamarca que tinha a seu cargo o estudo de uma colecção de peixes. Mas a colecção tardava a ser estudada e o tal senhor mantinha religiosamente guardados os seus peixinhos trancados num armário... ai de alguém que ousasse só pensar em olhar para o armário!! E bom, o tempo foi passando... e passando... até que o homem morreu e os peixinhos nunca viram a luz da ciência porque se mantiveram bem arrumadinhos e empacotadinhos no armário. Como é que isto é possível? Não sei até que ponto o direito ao estudo pode substituir o direito ao conhecimento universal!
Há solução para este problema? Claro que sim. Basta pensarmos um pouquinho para podermos encontrar várias soluções. E parece por demais óbvio, que não devia ser necessário fazer uma longa viagem à China com uma pessada máquina fotográfica e tripé às costas, para podermos ter acesso, a fotografias de qualidade de fósseis que estejam nos museus do Império do Meio. No século das novas tecnologias e da Internet todos nós partinhamos informação e imagens apenas através de um clique. São milhões e milhões os jovens que partilham imagens e textos sobre si mesmos descrevendo os mais ínfimos detalhes pessoais. Quem não conhece os Hi5, os Orkut e os Facebooks por aí fora...?
Naturalmente, surge uma questão, não podemos fazer a mesma coisa com espécimes de animais importantes? E a resposta é um rotundo sim! Não é preciso ser um génio para o fazer, mas a ideia é de facto genial e ao construirmos bancos de dados online com informação morfológica vamos poder trocar dados muito rapidamente e todos os especialistas terão a vida extremamente facilitada. Lembrem-se que quem faz anatomia comparada necessita de, como é óbvio... comparar! A ideia deve ter começado com o bancos de genes online. Ou seja quem mapeava uma parte do genoma de um organismo colocava essa informação (depois de devidamente publicada numa revista da especialidade) online, para todos saberem o que tinha sido descoberto e não perderem tempo a mapear as mesmas partes do genoma dos mesmos organismos... há outras vantagens como permitir que se estudem centenas de genes de centenas de organismos simultâneamente. Já pensaram no poder de análise que conseguimos se todos partinharem os seus resultados? É um pequeno passo para o homem... mas um enorme salto para a Ciência. Nasceu assim o genebank! Nunca, em toda a história do planeta, tivemos tantas mentes brilhantes a fazer ciência e simultâneamente! E ainda por cima com as melhores ferramentas informáticas e tecnológicas de sempre. O meios nunca foram tão poderosos e nunca tivemos tantos humanos a utilizar esses recursos para conhecermos o mundo.
Por isso, apoiamos com total firmeza iniciativas como o Morphbank ou o Morphobank (sic!). Explorem-nos, usem e abusem deles!
E que o conhecimento científico não permaneça arrumadinho em armários, mas sim livre a todos os que o queiram conhecer e estudar. Cresça floresça e caminhe esta nova ferramenta ao dispor dos sábios do nosso tão precioso mundo.
http://www.morphbank.net/
Autoria partilhada do post com: Rui Castanhinha
sexta-feira, março 20, 2009
Ode ao Morphbank
quinta-feira, março 05, 2009
Top 10 (+1) da Paleontologia de Vertebrados

Existem alguns centros de investigação à volta do mundo que são determinantes e extremamente influentes. Muitos deles estão nos Estados Unidos, se bem que também em Inglaterra e Alemanha se produz muita e boa informação científica. Nas economias emergentes, ao ritmo de crescimento económico, também existe um forte potencial de desenvolvimento científico. Nomeadamente a China, o Brasil e a África do Sul (um de cada continente) têm dado provas de qualidade com os seus investigadores publicando nas melhores revistas. Escolhi 10 universidades ou instituições que me parece que tenham desenvolvido trabalho influente nos anos recentes para as próximas décadas. Corro o risco, contudo, de omitir grandes instituições que também elas têm contribuído para o progresso da paleontologia de vertebrados.
University of Bristol (http://palaeo.gly.bris.ac.uk/). O seu departamento encabeçado por Mike Benton tem desenvolvido trabalho nas mais diversas áreas da paleontologia de vertebrados desde morfologia funcional e biomecânica, até grandes questões como eventos de extinção em massa e diversidade. Também têm um grupo que lidera a construção das chamadas 'supertrees', que estabelecem as relações de 'parentesco' entre grupos de animais requerendo vastos recursos informáticos dada a quantidade de informação processada.
The Natural History Museum (http://www.nhm.ac.uk/). As suas magníficas e lendárias instalações fazem jus à qualidade da ciência que lá se produz. São fomentores da revista Paleontologica Electronica que disponibiliza artigos científicos grátis na internet (http://palaeo-electronica.org/). Têm um projecto colossal de inventariação de todos os Tetrápodes fósseis usando tecnologia SIG (sistemas de informação geográfica).
Ohio State University (http://www.oucom.ohiou.edu/dbms-witmer/lab.htm). Em particular o Witmer's Lab tem desenvolvido um trabalho muito amplo de aplicações e de importância extrema, nomeadamente: a morfologia e anatomia dos cérebros dos arcossauros (que incluem crocodilos, dinossauros e pterossauros). Isto tem requerido tecnologia de ponta como tomografias de alta resolução. Isto permite ver nos fósseis coisas como as estruturas timpânicas, que tem sido o principal motivo de estudo deste grupo. Também têm promovido expedições a África principalmente em Madagáscar.
University of Chicago (http://geosci.uchicago.edu/research/paleo_evo.shtml). Para além do lendário David Jablonski que deu contributos fundamentais para a compreensão da macroevolução fazendo uso da paleontologia; no mesmo departamento Paul Sereno percorre o Níger, Marrocos e outros países para recolher dinossauros. Mas também é promovida investigação em tetrápodes primitivos tentando-se concomitantemente compreender a aquisição de caracteres morfológicos no decurso da evolução.
University of Alberta (http://www.biology.ualberta.ca/wilson.hp/UALVP.html). O trabalho de investigação desta instituição tem sido potenciada pelas inúmeras descobertas de vertebrados fósseis que se têm feito na região. Phil Currie é um dos nomes sonantes que já passou pelo Laboratory of Vertebrate Paleontology, que tem trabalhado principalmente com dinossauros terópodes (carnívoros bípedes). Michael Caldwell também tem desenvolvido um trabalho fundamental na compreensão da origem de certos grupos dos Squamata (tudo o que seja lagartos e serpentes), nomeadamente no surgimento e evolução das serpentes e dos mosassauros (répteis marinhos que existirão durante o período Cretácico). Os seus recursos são impressionantes com vários aparelhos de tomografia de alta resolução e microscópios electrónicos de ponta.
American Museum of Natural History (http://paleo.amnh.org/). O AMNH, como é geralmente comnhecido, é uma instituição com uma longa e vasta influência nos meandros da paleontologia de vertebrados, tendo sido a casa de um dos mais míticos caçadores de dinossauros Barnum Brown. O seu legado é hoje carregado aos ombros de também eles grandes paleontólogos como Mark Norrell, John Flynn e Michael Novaceck. Eles têm desenvolvido expedições em Madagáscar e Mongólia, por exemplo.
University of California, Berkeley (http://www.ucmp.berkeley.edu/people/padian/home.php). É aqui que Kevin Padian e o seu laboratório tem desvendado os segredos sobre a origem dos dinossauros, incidindo sobretudo numa época que se pensa ter sido fulcral: a fronteira entre o Triásico e o Jurássico. Mas Padian e os seus estudantes também estão preocupados com grandes problemas da evolução, como a origem do voo nas aves. Só sobre este tópico muita tinta tem corrido nas principais revistas científicas nos últimos tempos e o conhecimento produzido nesta área marcará, sem dúvida, as próximas gerações de paleontólogos.
Institute of Vertebrate Paleontology and Paleoanthropology (http://www.ivpp.ac.cn/cn/). Esta instituição científica deve, ao todo, ter mais paleontológos do que os que existem em toda a Ibéria multiplicada duas vezes. Só entre 1999 e 2005 foram publicados cerca de 45 artigos na Nature e Science, que são duas revistas científicas de elevadíssimo grau de exigência. A quantidade de material fossilífero de relevo produzido na China é proporcional à dimensão do estatuto do IVPP.
Montana State University e Museum of the Rockies (http://www.museumoftherockies.org/). No estado de Montana têm sido feitas inúmeras descobertas principalmente no Jurássico superior (e.g. Formação de Hell Creek) e Cretácico superior (e.g. Formação de Cloverly). E nestas formações geológicas não só veveram dinossauros mas também – à sua sombra – pequenos mamíferos, lagartos, anfíbios, etc.. Jack Horner, o mais preeminente paleontólogo daquele estado, dedica-se essencialmente à evolução e ecologia dos dinossauros. Mas os seus estudantes dedicam-se também a aspectos mais vastos como microvertebrados e histologia.
Universität Bonn (http://www.sauropod-dinosaurs.uni-bonn.de/). Este grupo de investigação interdisciplinar tem o propósito pouco ambicioso de: "saber tudo sobre saurópodes". Neste grupo se inclui por exemplo Martin Sander, especialista em histologia (estudo dos tecidos, que na paleontologia se resumem geralmente aos ossos).
Museu da Lourinhã (http://www.museulourinha.org/). É óbvio que ainda estamos longe de ter a excelência dos centros de investigação acima citados, mas, à nossa escala temos tido um impacto extremamente positivo no mundo da paleontologia… O nosso lugar feito por avaliadores independentes não estaria com certeza nos dez lugares mais cimeiros. Por enquanto não temos aparelhos de tomografia sofisticados nem laboratórios com equipas de dez preparadores, mas temos, isso sim, a ambição de um dia lá poder chegar!
Publicado também no Boletim do Museu da Lourinhã nº 13.
sábado, fevereiro 28, 2009
Estudar nos EUA: como fazer?

Se estás a pensar em estudar nos Estados Unidos, fazes bem! É, em muitas áreas, entre as quais a paleontologia, a Grécia dos tempos modernos. Contudo estudar do outro lado do Atlântico apresenta um desafio por si só! Alguns conselhos e processo normal:
1) Aumentas as possibilidades de seres colocado na Grad School (mestrados e doutoramentos) se já tiveres alguma forma de financiamento cá (e.g. Fulbright, FCT, etc.)
2) Convém começar todo o processo pelo menos um ano antes! E isto é a sério! A burocracia de que é preciso tratar é absolutamente avassaladora e como muitas Universidades Portuguesas ainda não estão habituadas à ideia de mobilidade isso pode desencadear obstruções graves.
3) Um ano antes deves ter um "personal statement" escrito (um texto de índole muito pessoal que explica as razões mais profundas que sustentam uma candidatura), um "studies objectives" escrito (ensaio de carácter mais académico que deve incidir na temática em causa, objecto de estudo e metodologias).
4) Deves fazer uma investigação pormenorizada sobre os programas a que te queres candidatar: se se adequam ao teu currículo, se são aquilo que queres, qual é o professor que queres que seja o teu orientador durante dois anos (mestrado) ou cinco anos (doutoramento), qual o currículo do professor, qual a taxa de empregabilidade dos ex-alunos desse professor.
5)Em Setembro/Outubro tens de ter o GRE (Graduate Register Examination) e o TOEFL feitos! Isto são dois exames rídiculos que se têm de fazer para entrar na Gradschool. O TOEFL testa o teu nível de proficiência de Inglês, o GRE avalia... não sei muito bem o quê... segundo eles avalia as valências adquiridas ao longo do teu percurso escolar e académico (ao contrário de um teste de QI que testa qualidades inatas). No final de contas, o meu estudo para o GRE resumiu-se a decorar o significado de mais de 5000 palavras eruditas e recambulescas em inglês e a a aprender a fazer contas de cabeça mais rápido... foi tudo... Se acreditam que até sabem falar inglês e tal, o GRE vai disprovar isso mesmo. Caso contrário digam-me de cabeça o que quer dizer: "lackadaisical" ou "plutocratic"!
6) Lá para Dezembro já devem ter submetido as vossas candidaturas às diferentes universidades (5 é o nº ideal de universidades a que se devem candidatar, podem assim manter um espectro amplo de tipos de universidades diferentes e não gastar muito dinheiro... porque cada candidatura são para aí uns 100$).
7) Depois é aguardar... de Fevereiro até Abril deverão saber o resultado das vossas candidaturas. Geralmente o ano académico começa de Julho a Setembro. Podem entretanto ir pedindo o Visto e as declarações médicas (sim, porque eles não querem gastar muito dinheiro contigo!).
Alguns sites para mais informação:
About.com
Admissions.com (Monster)
Gettingingradschool.com
GradSchools.com
Gradschooltips.com
Gradview.com (Hobsons)
Kaplan
Offtocollege.com
Petersons
PhDs.org
Princeton Review
Studenttools.com
Masterstudies.com
StudyPlaces.com
Bom trabalho!
Fotografia: Ricardo Araújo, dente de mastodonte.
sábado, outubro 11, 2008
Imagens (sábado)
E termino com um crânio de crocodilo com os ossos todos separados. Uma pequena maravilha para qualquer anatomista!
(clicar na foto para aumentar)
Publicado simultaneamente no Conjurado
segunda-feira, outubro 06, 2008
Imagens (segunda)
Cretácico Superior da Formação de Neuquén.
É perfeitamente visível a estratificação entrecruzada, sinal da presença de rios neste local no final do Cretácico.
Publicado simultaneamente no Conjurado