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segunda-feira, junho 15, 2009

Darwin, Sexo e Dinossauros


Sendo 2009 o ano Darwin muito já se tem dito sobre o que o próprio escreveu acerca de imensa coisa, mas sobre dinossauros é muito escaço o material existente.
Aqui vos deixamos uma passagem do livro The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex publicado em 1971. Esta obra teve felizmente uma novissima edição em Português que foi traduzida pela nossa colega Susana Varela. É um excelente livro histórico que vale a pena conhecer. Foi precisamente em 1971 que Darwin apresentou uma outra ideia absolutamente revolucionária: a Selecção Sexual. Pensar-se que as escolhas sexuais dos seres vivos poderiam desempenhar um papel fulcral na evolução de estruturas complexas ou extremamente bizarras era, sem sombra de dúvidas, algum de novo e mais uma vez foi um um choque tremendo. Lembem-se que o sexo foi (quase) sempre um tema tabu nas nossas sociedades ocidentais. A Inglaterra victoriana não era excepção, e vir dizer que quem tem o papel mais importante na escolha sexual é a fêmea... era, no mínimo, complicado. Charles Darwin sempre foi um homem do seu tempo nos costumes, mas quanto às suas ideias ciêntíficas esteve quase sempre à frente de todos os outros, é o melhor exemplo que conhecemos para provar que não é necessário ser-se excêntrico para se ser genial. E como qualquer cientista do seu tempo tambem se interessou por dinossauros, reparem então no que ele escreveu:

« Sabe-se que existiram, ou que ainda existem, grupos de animais que servem para ligar, com maior ou menor intensidade, várias das grandes classes de vertebrados. Vimos, por exemplo, que o ornitorrinco passa gradualmente para o lado dos répteis; e o Professor Huxley descobriu que os dinossauros estão, em muitas características importantes, numa posição intermédia entre certos répteis e certas aves – facto que foi confirmado pelo Sr. Cope e outros –, as quais pertencem à tribo das avestruzes (que evidentemente também são o último vestígio amplamente difundido de um grupo outrora mais vasto) e ao arqueoptérix, estranha ave secundária, com uma longa cauda semelhante à de um lagarto. Além disso, e de acordo com o Professor Owen, os ictiossauros – grandes répteis marinhos providos de barbatanas – apresentavam várias afinidades com os peixes, ou melhor, segundo Huxley, com os anfíbios; que são uma classe que, por incluir na sua divisão mais avançada as rãs e os sapos, é manifestamente aparentada com os peixes ganóides. Estes últimos abundavam durante os primeiros períodos geológicos, e eram formados segundo aquilo a que chamamos modelo generalizado, isto é, apresentavam diversas afinidades com outros grupos de organismos. O Lepidosiren, por exemplo, está tão intimamente ligado aos anfíbios e aos peixes que os naturalistas debateram longamente para decidir em qual destas classes o colocar; tanto ele como alguns peixes ganóides foram preservados de uma completa extinção por habitarem em rios que funcionam como pequenos portos de refúgio, visto que estão ligados às grandes águas dos oceanos da mesma maneira que as ilhas estão ligadas aos continentes. » Citação do livro "A Origem do Homem e a Selecção Sexual" de Charles Darwin, cap. 6, página 182.



É reconhecido todo o mérito aos paleontólogos Richard Owen e Edward D. Cope o facto de já se considerar a hipótese de que as aves e os dinossauros estavam mais realicionados do que à primeira vista se poderia pensar. A ideia não era de Darwin, mas é de facto muito engraçado pensarmos que tamanha beleza e complexidade nas formas possa ser tão semelhante na sua origem.

Charles Darwin aborda pouco a temática dos dinossauros, mas certamente estava consciente das descobertas feitas na paleontologia, sobretudo porque algumas eram realizadas por amigos, como Thomas Huxley, ou por colegas contemporâneos como Richard Owen, Othniel Marsh ou Edward Cope.

Em 1809, ano de nascimento de Charles Darwin, não havia sido descrita nenhuma espécie de dinossauro, mas esse cenário mudou bastante durante a sua vida. No ano da publicação da Origem das Espécies, 1859, já se conheciam 91 espécies, e em 1882, ano da morte de Darwin, já se tinham dado nome a 360 dinossauros!

Apesar de Darwin nunca ter lidado directamente com dinossauros, ele estava no local e ambiente certo para o fazer e certamente que tinha acesso às últimas notícias sobre o assunto



Obrigado à Susana Varela por nos ter alertado para esta passagem.

Rui Castanhinha e Octávio Mateus

sexta-feira, novembro 28, 2008

O que nos dizem os fósseis sobre evolução? O exemplo dos dinossauros

A paleontologia é a ciência que estuda os fósseis e os seres extintos. Os fósseis dão-nos um fabuloso manancial de informação sobre a evolução, e são das melhores evidências dos vários grupos de animais e plantas que têm habitado no nosso planeta desde há, pelos menos, 3000 milhões de anos.

Os fósseis contam a história de cada estádio evolutivo que os animais passaram até terem a forma que possuem hoje.

Por exemplo, como se deu a evolução das aves? Originaram a partir de que tipos de animais? Estudos e descobertas desde o tempo de Darwin mostram claramente que as aves evoluíram a partir de répteis, mais concretamente de dinossauros carnívoros, os terópodes. Este grupo de predadores inclui o Allosaurus, o Tyrannosaurus rex, e o Velociraptor. Era precisamente terópodes como este último que tinham uma série de características corporais que permitiram às aves levantar voo. Por exemplo, tinham o corpo coberto de pe

nas, ossos ocos e leves, músculos e ossos peitorais que permitiam força e mobilidade dos braços para movimentos precursores ao voo. Mas contrariamente à maioria das aves actuais, os Velociraptor e os seus “parentes” ainda possuíam dentes, cauda e garras nas mãos.


Fósseis como o Archaeopteryx, com 150 milhões de anos, mostram fases de morfologia intermédia entre dinossauros carnívoros, tipicamente reptilianos e as aves actuais, pois tinham asas bem desenvolvidas que permitiam voar, mas ainda possuíam cauda óssea, dentes e garras nas asas. Todas as aves modernas descenderam de dinossauros semelhantes ao Microraptor, e ao Archaeopteryx, por isso, em rigor podemos afirmar que os dinossauros nunca se extinguiram. Apenas evoluíram até ao que conhecemos hoje como aves. Portanto, do ponto de vista da classificação das espécies, todas as aves são dinossauros.

Existe, portanto uma transição entre o grupo dos dinossauros e as aves? Não! Tal como não podemos dizer que existe uma transição entre os canídeos e o cão, entre os mamíferos e os cetáceos, entre os primatas e o humano, porque comparamos um todo e a sua parte. As aves são dinossauros assim como os cães são canídeos, os cetáceos são mamíferos e nós somos primatas.

Por outro lado, em rigor, cada fóssil é uma forma de transição entre uma morfologia mais primitiva, seu ancestral, e outra mais derivada, seu descendente. Ou seja os fósseis de são formas de transição, mas não são grupos de transição.

O primeiro cientista a propor a origem das aves a partir dos dinossauros foi Thomas Huxley, um dedicado amigo de Charles Darwin e muitas vezes apelidado como o “Bulldog de Darwin” ao ter comparado um esqueleto de dois pequenos dinossauros muito semelhantes, o Compsognathus e Archaeopteryx. O segundo é uma ave… o outro ainda não. 

A mais emblemática das características é a presença de penas em, pelo menos, uma vintena de fósseis de dinossauros não-avianos e não voadores. As penas permitiam o controle de temperatura corporal mais eficaz.

A existência de dinossauros não-avianos com penas foi postulada muito antes do primeiro fóssil deste tipo ter sido descoberto, há cerca de 10 anos atrás. (Note-se que, inicialmente, o Archaeopteryx não era considerado um dinossauro, mas sim uma ave; esse, já descoberto no séc. XIX.) Tal previsão só foi possível à luz da evolução darwiniana, sendo actualmente suportada pelas fortes evidências fósseis. Esta e outras previsões (úteis para testar hipóteses na paleontologia) não podem ser explicadas por nenhuma teoria não evolucionista alternativa. Esta questão tem sido esquecida por criacionistas, seja de forma honesta, por ignorância, ou de forma estratégica e deliberada. A capacidade de previsão da ciência, e em particular da teoria da evolução, não só lhe dá força, como demonstra adequação ao mundo natural.

Os fósseis têm ainda um óptimo poder de fascínio entre jovens estudantes e são um eficaz instrumento para ensinar e aprender evolução. Os fósseis de dinossauros, por exemplo, cativam atenções e despoletam imaginações. Portugal é muito rico em vestígios de dinossauros. Apesar na sua área, o país está entre os que possuem mais géneros e espécies destes répteis mesozóicos.