Jazidas de Pegadas visitáveis em Portugal, com coordenadas GPS
![]() |
| Mapa de jazidas de dinossauros em Portugal (Antunes & Mateus, 2003) |
![]() |
| Mapa de jazidas de dinossauros em Portugal (Antunes & Mateus, 2003) |
As duas comunicações por poster que a nossa equipa apresentou no último congresso na Argentina consistiram em:
1) Evolution of the mandibles and teeth in ornithopod dinosaurs - Consiste numa aproximação filogenética, com base na anatomia, à evolução dos dentes e mandíbulas de um grupo particular de dinossauros: os ornitópodes. Eles foram, analogamente, os antílopes das nossas savanas actuais e desenvolveram processos de mastigação extremamente especializados à condição de se ser herbívoro. Foi isso que apresentámos! Existe uma série de implicações interessantes, corolários da nossa aproximação a estes resultados, por exemplo: (i) serão os dentes diagnósticos? I.e., consigo indentificar uma dada espécie com base nos seus dentes?; (ii) Existiram alguns padrões - ao nível morfológico - relativos à especialização destes dinossauros à condição de comer plantas? I.e. como é que a forma das mandíbulas e dentes evoluiu ao longo da história deste grupo de dinossauros?; (iii) Existirão características anatómicas nos dentes e mandíbulas que não sejam definidores de uma dada espécie? I.e., será que vale a pena ter em conta aspectos da anatomia que estejam relacionados com o crescimento ou com a posição de um dado dente na boca?
2) Reptile eggs from Lourinhã Formation, Portugal - Esta comunicação foi o primeiro resultado derivado da bolsa da Jurassic Foundation que obtivemos. Neste estudo caracterizámos as diferentes jazidas que contêm ovos e embriões de dinossauros, e descrevemos a morfologia das cascas de ovo. Cada grupo de dinossauros tem, no geral, características específicas nas cascas de ovo que vistas ao microscópio óptico ou electrónico se revelam. Contudo, existem também características externas como a ornamentação das cascas ou até mesmo a forma e orientação dos poros (sim, porque as cascas de ovo têm poros!).
Sempre que se relaciona as duas palavras ‘Marrocos’ e ‘Paleontologia’ há sempre uma sensação de desconforto nos paleontólogos. São por demais sabidas as grosserias que se cometem naquele país, desde a pilhagem de jazidas à forja de fósseis. Já todos ouvimos histórias mirabulantes em que os aldeões marroquinos destroem crânios completos para retirar os seus dentes, já todos ouvimos falar das trilobites mal amanhadas que eles decidem esculpir e pôr à venda. Contudo, Marrocos continua a estar na rota mundial da investigação em paleontologia e é, sem sombra de dúvidas, um local fértil para a investigação. Talvez a par da África do Sul e as suas intermináveis jazidas de répteis-mamalianos (ou, para ser mais correcto: os Synapsida, predecessores Permo-Triássicos, de nós próprios e de todos os mamíferos), Marrocos seja um dos locais em África que produza maior quantidade de material cientificamente importante naquele continente. Por ocasião de lá ter passado férias decidi fazer – à semelhança do Octávio – uma resenha dos achados de paleontologia de vertebrados que lá se têm feito (é bem provável que me tenha esquecido de algum):
Jurássico inferior do Alto Atlas: Tudo o que venha destas idades é quase de certeza novo, e foi isso mesmo que se passou… foram descobertos vestígios incluindo material craniano de saurópodes (herbívoros quadrúpedes de pescoço comprido), correspondendo – a par de outro material do Zimbabwe e China – os mais antigos vestígios deste grupo. O Tazoudasaurus – assim foi chamado – tem características primitivas, nada surpreendentes, como dentes com dentículos, facto que não se passa com dinossauros do mesmo grupo mais ‘avançados’ (ou como se costuma dizer: mais ‘derivados’).
Kem Kem Beds (Cretácico inferior): Esta formação cujas rochas são do início do Cretácico inferior têm sido extremamente productivas em dinossauros terópodes (bípedes carnívoros). Revelaram, até agora entre outros, os emblemáticos dinossauros espinossaurídeos que foram recentemente também reportados para Portugal por um paleontólogo francês com material muito fragmentário (há quase meio século encafuado nas gavetas do Museu Geológico em Lisboa). Actualmente existe uma equipa do University College Dublin que tem ido com regularidade com o propósito de recolher vestígios destes animais. Já agora, sem conseguir desviar-me do objectivo principal deste texto, os dinossauros espinossaurídeos têm sido considerados piscívoros… e existem provas bastantes para que assim sejam considerados, como conteúdos estomacais num dos géneros – o Baryonyx – com restos de peixes. O seu crânio faz verdadeiramente lembrar o de um crocodilo dada a sua forma alongada e o alinhamento sigmoidal da fileira de dentes; na verdade estes dinossauros mimetizavam a estrutura do seu crânio à dos seus cognatas distantes.
Cretácico inferior de Anoual: Esta região é essencialmente conhecida pela existência de jazidas de mamíferos primitivos, tendo também pterossauros, outros arcossauros, anfíbios, etc. Para mamíferos, tudo o que venha à rede para o Cretácico inferior, é peixe (passe-se a infelicidade desta expressão). De facto, existem muito poucas jazidas com material de micromamíferos desta idade, pelo que, todas as jazidas que contenham material, são de importância singular. Ao contrário do que geralmente se pensa, os mamíferos no Mesozóico era um grupo bastante diverso… não eram é muito grandes… Não obstante, a diversidade de famílias era, por exemplo, para o Jurássico superior da Formação de Morisson nos EUA, largamente superior ao número de famílias de dinossauros.
Cretácico superior de Goulmima: Marrocos também é terreno fértil para os mosassauros, os répteis marinhos que partilham um ancestral comum com as serpentes… muitos (se não todos) aqueles dentes de Globidens (com a forma característica de… um falo) vêm de Marrocos. E o que é verdade é que o material de lá recolhido é de importância irrefutável (aliás, como a grande maioria do material de mosassauros, dado que este grupo evoluiu muito rapidamente – em cerca de 30 milhões de anos – para uma condição adaptada à vida marinha, sendo os seus antepassados próximos terrestres). As camadas desta região para além de vestígios deste grupo produziram peixes, plesiossauros e tartarugas.
Sugestões de Leitura:
Allain et al.
Sigogneau-Russell et al. 1998. The Early Cretaceous microvertebrate locality of Anoual, Morocco : a glimpse at the small vertebrate assemblages of Africa.