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segunda-feira, março 18, 2024

Um novo dinossauro põe os pés no Jurássico Superior de Portugal

 

Investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA, da Universidade de Saragoça e da Universidade de Bona, apoiados pelo Museu da Lourinhã e pela Sociedade de História Natural de Torres Vedras, descobriram uma nova espécie de dinossauro: Hesperonyx martinhotomasorum. Este animal é um dinossauro herbívoro, bípede, relativamente pequeno, que percorria a zona da Lourinhã há 150 milhões de anos. Esta espécie acrescenta novas informações à nossa compreensão do Jurássico Português, e aumenta o valor do património natural promovido pelo aspiring Geoparque Oeste.

Durante uma das muitas escavações realizadas no verão de 2021, um grupo de paleontólogos da Faculdade de Ciências e Tecnologia da NOVA, em colaboração com o Museu da Lourinhã, prospetou um afloramento na Praia de Porto Dinheiro. Os afloramentos fazem parte da famosa Formação da Lourinhã, que produziu vários vestígios fósseis do Jurássico Superior com uma idade de aproximadamente 150 milhões de anos. Nesse dia, os generosos estratos da Formação da Lourinhã presentearam o olhar atento dos paleontólogos com uma descoberta surpreendente: um pé de dinossauro quase completo e semi-articulado.

 

Reconstruction of Hesperonyx martinhotomasorum, artwork by Victor Carvalho CC BY 4.0

 

O espécime foi preparado no Laboratório do Museu da Lourinhã e, no início, a anatomia deste espécime intrigou os cientistas. “Simplesmente não correspondia a nada que havíamos visto antes” – disse Lucrezia Ferrari, a estudante que preparou o espécime e o relatou na sua tese de mestrado e coautora do estudo. “Era algo familiar, mas tinha várias características que pareciam incomuns” – continuou Filippo Maria Rotatori, líder do estudo publicado. “Era uma espécie de dinossauro herbívoro bípede, mas tal animal nunca tinha sido registado em Portugal antes”. Após a primeira descrição, Filippo passou bastante tempo a viajar por outros países, para estudar animais semelhantes para comparações, e no final a resposta foi clara: “É uma espécie nova! Mais uma no ecossistema altamente diversificado do Jurássico Português” - concluiu Filippo. O novo dinossauro é um dinossauro iguanodonte de pequeno porte, bastante raro no Jurássico da Europa. A nova espécie chama-se Hesperonyx martinhotomasorum, em homenagem a Micael Martinho e Carla Tomás, os preparadores de fósseis do Museu da Lourinhã. O estudo, para além da NOVA e do Museu da Lourinhã, contou com a ajuda e conhecimento da Sociedade de História Natural de Torres Vedras (SHN). Bruno Camilo, responsável da SHN, afirmou “É sempre um prazer apoiar a investigação que valoriza o nosso extraordinário património geológico”.

Hesperonyx é bastante inesperado, indica-nos que o ecossistema da Formação da Lourinhã ainda tem muitas surpresas para oferecer, e que estamos apenas a abrir uma janela para um “Mundo Jurássico” muito complexo. Miguel Moreno-Azanza, orientador principal de Filippo, observou: “Esta é uma descoberta maravilhosa e também um grande exemplo de como as colaborações científicas em Paleontologia podem ajudar a alcançar grandes resultados. Esta investigação envolveu universidades muito conhecidas (Universidade NOVA de Lisboa, Universidade de Saragoça e Universidade de Bona), mas também museus e associações locais (Museu da Lourinhã e Sociedade de História Natural de Torres Vedras).” A boa sinergia entre estas entidades foi fundamental para alcançar tal resultado e descrever a nova espécie Hesperonyx martinhotomasorum. Esta descoberta vem juntar-se ao já muito rico património geológico e paleontológico do aspiring Geoparque Oeste, reforçando o estatuto da Lourinhã como ‘Capital dos Dinossauros’ e um verdadeiro tesouro natural de Portugal.

O exemplar pode ser admirado no Museu da Lourinhã, na exposição paleontológica permanente.

 

Artigo:
Rotatori FM, Ferrari L, Sequero C, Camilo B, Mateus O, Moreno-Azanza M. An unexpected early diverging iguanodontian dinosaur (Ornithischia, Ornithopoda) from the Upper Jurassic of Portugal.
Journal of Vertebrate Paleontology. https://doi.org/10.1080/02724634.2024.2310066

sexta-feira, fevereiro 25, 2022

Uma nova mão para uma antiga perna! - Draconyx redux



O concelho da Lourinhã é famoso pela sua importante diversidade de dinossauros do Jurássico Superior que têm vindo a ser desenterrados ao longo de 30 anos de trabalho de campo do Museu da Lourinhã. Museu este, que armazena a maior parte do material nas suas instalações ou na exposição do Dinoparque Lourinhã. A maioria destes dinossauros encontra-se na Lourinhã ou em zonas próximas o que faz deste património natural um grande interesse para cientistas de todo o mundo. Dentro desta grande variedade de descobertas, foi descrita em 2001, uma espécie enigmática de dinossauros bípedes herbívoros chamado Draconyx loureiroi, que intrigou os especialistas ao consistir principalmente num membro posterior com características muito particulares.


Draconyx loureiroi, no ambiente representado pela Formação Lourinhã.
Ilustração porVictor Carvalho, used under CC BY NC 4.

 
Após 20 anos, o explorador original do espécime, o Sr. Carlos Anunciação doou gentilmente o material adicional desta espécie ao Museu da Lourinhã. Filippo Maria Rotatori investigador do museu e da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa, e os seus orientadores Miguel Moreno-Azanza e Octávio Mateus, das mesmas instituições, perceberam de imediato a importância desta descoberta, pois estes novos ossos são da mão. “É provavelmente a mão mais completa deste tipo de animal do Jurássico na Europa” – diz Filippo, que atualmente pesquisa a sistemática e a história evolutiva dos dinossauros herbívoros na Europa. “Quando vi o material pela primeira vez, entendi imediatamente que precisávamos dar uma vista melhor no espécime de Draconyx, que não era estudada há 20 anos.

Graças ao “Programa de Incentivo à Investigação Científica Horácio Mateus” atribuído pelo Museu da Lourinhã, foi possível preparar os novos ossos e restaurar os antigos, e realizar a investigação que foi agora publicada no prestigiado Zoological Journal of the Linnean Society.

As novas descobertas levam os cientistas a concluir que a anatomia da mão, juntamente com o membro posterior, é a de um animal bípede e ágil, que usava as mãos para agarrar os alimentos que comia. Este fato foi uma surpresa, já que seus parentes mais próximos são animais de grande porte, que conseguiam andar sobre quatro patas graças a uma estrutura de mão modificada.

“Os resultados da nossa pesquisa indicam que ainda temos muito a descobrir sobre estes animais, e ainda agora começámos a perceber a sua diversidade aqui em Portugal”- comenta ainda Filippo. Essa descoberta também ressalva o papel fulcral de voluntários e colaboradores externos, como Carlos Anunciação, no apoio às instituições em atividades de pesquisa. Tal como o Draconyx loureiroi, outros exemplares importantes foram encontrados por Carlos e pessoas como ele, que numa sinergia virtuosa com instituições científicas ajudam a aumentar e proteger o património nacional. O holótipo de Draconyx loureiroi pode ser visitado no Dinoparque Lourinhã.

Filippo Maria Rotatori, Miguel Moreno-Azanza, Octávio Mateus, Reappraisal and new material of the holotype of Draconyx loureiroi (Ornithischia: Iguanodontia) provide insights on the tempo and modo of evolution of thumb-spiked dinosaurs, Zoological Journal of the Linnean Society, 2022; zlab113, DOI: https://doi.org/10.1093/zoolinnean/zlab113

Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a
Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto BIOGEOSAURIA PTDC/CTA-PAL/2217/2021