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quinta-feira, março 29, 2018

Globicetus hiberus: a bizarra baleia-de-bico com uma esfera na cabeça

Reconstrução do zifídeo fóssil Globicetus hiberus por Ceri Thomas – CC BY NC, disponível em http://alphynix.tumblr.com/image/159422852817
Globicetus hiberus é um cetáceo Ziphiidae  do Mioceno de Portugal e Espanha. O holótipo é um crânio recolhido ao largo das Berlengas.

Os zifídeos (Ziphiidae) são odontocetes com 21 espécies actuais o que faz a segunda família mais numerosa de cetáceos (a seguir aos delfinídeos), apesar de muito raros. Os zifídeo eram o grupo de odontocetes com maior diversidade durante o Miocénico. Possuem dimensões apreciáveis (de 4 a 12,8 metros para a baleia-bicuda-de-baird, para um peso de 1 a 10 toneladas). Podem também ser chamadas de baleias-de-bico ou zífios.

O mais extraordinário no Globicetus é a estrutura esférica, de osso sólido, no crânio que parece ser um órgão sexual secundário tal como a cauda de um pavão ou as hastes de um veado.

O holótipo de Globicetus hiberus está em exposição no Museu da Lourinhã, em Portugal.


Referências
 Bianucci G., Miján I, Lambert O., Post K. & Mateus O. 2013. Bizarre fossil beaked whales (Odontoceti, Ziphiidae) fished from the Atlantic Ocean floor off the Iberian Peninsula. Geodiversitas 35 (1): 105-153.
Muchagata, J., & Mateus O. (2016). Sexual display and rostral variation in extinct beaked whale, Globicetus hiberus. XIV EAVP Meeting. 136., Haarlem, The Netherlands: XIV EAVP Meeting, Programme and Abstract Book

quarta-feira, julho 13, 2016

Apresentações no Encontro de Paleontologia de Vertebrados em Haarlem


O EAVP (European Association of Vertebrate Paleontologists) é uma das maiores associações para paleontólogos de vertebrados da Europa e uma das mais importantes do mundo. O congresso do EAVP é um evento anual que nos permite transmitir a nossa investigação a um público de centenas de especialistas e aficionados. Este ano, realizou-se a XIV edição no Museu Teylers em Haarlem, nos Países Baixos, do dia 6 até ao dia 10 de Julho.
A representação portuguesa incluiu três membros da FCT-Universidade Nova de Lisboa + Museu da Lourinhã.

O Dr. Miguel Moreno-Azanza,  investigador da Universidade Nova de Lisboa, apresentou uma palestra sobre cascas de ovos de tartaruga do Eocénico de Espanha, com 41 milhões de anos. Estas cascas de ovos foram encontradas em uma antiga planície do delta dos Pirinéus Aragoneses, num local com ossos abundantes de sirénios antepassados dos manatins e tartarugas de água doce. Esta colaboração inclui outros investigadores, nomeadamente Ainara Badiola Kortabitarte (Universidad del Pais Vasco/Euskal Herriko Unibertsitatea - Espanha), e Ester Díaz Berenguer, Roi Silva e José Ignacio Canudo, da Universidad de Zaragoza (Espanha).

Por sua vez, o doutorando Marco Marzola, investigador da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade de Copenhaga (Dinamarca), apresentou um trabalho sobre anfíbios e répteis do Tardo Triásico da Gronelândia, com especial destaque para algumas das mais velhas tartarugas do mundo, com uma idade compreendida entre 208 e 209 milhões de anos. O trabalho foi em colaboração com o prof. Octávio Mateus (orientador,  Universidade Nova de Lisboa), o Dr. Oliver Wings (Landesmuseum, Hanôver - Alemanha), a Dra. Nicole Klein (Naturkundemuseum am Löwentor, Estugarda - Alemanha), o Dr. Jesper Milàn (Geomuseum Faxe - Dinamarca) e o prof. Lars B. Clemmensen (coorientador, Universidade de Copenhaga).

A terceira apresentação ficou a cargo do Mestre João Muchagata Duarte, investigador das Universidade Nova de Lisboa e Universidade de Évora, que apresentou um trabalho sobre estruturas sexuais secundárias reconhidas em crânios de baleias de bico extintas do Neogénico de Portugal, com idades compreendidas entre os 6 e os 20 milhões de anos.  O seu trabalho foi realizado com a colaboração e supervisão do prof. Octávio Mateus e prof.a Ausenda Balbino (Universidade de Évora).
A XV edição do congresso EAVP realizar-se-á em 2017, do dia 31 de Julho até ao dia 4 de Agosto, no Museu de Paleontologia de Munique na Alemanha.
João Muchagata, Marco Marzola e Miguel Moreno-Azanza no XIV EAVP Meeting


Marzola, M., Mateus O., Wings O., Klein N., Mìlan J., & L.B.Clemmensen (2016). The herpetofauna from the Late Triassic of the Jameson Land Basin (East Greenland): review and updates. XIV EAVP Meeting. 182., Haarlem, The Netherlands: XIV EAVP Meeting, Programme and Abstract Book

Muchagata, J., & Mateus O. (2016).  Sexual display and rostral variation in extinct beaked whale, Globicetus hiberus. XIV EAVP Meeting. 136., Haarlem, The Netherlands: XIV EAVP Meeting, Programme and Abstract Book

M. Moreno-Azanza, R. Silva, E.D. Berenguer, J.I. Canudo, and A. Badiola . 2016. HIGH CONCENTRATIONS OF TURTLE EGGSHELLS (TESTUDOOLITHIDAE) IN AN EOCENE DELTAIC PLAIN (SOBRARBE DELTAIC COMPLEX, NORTHERN SPAIN). XIV EAVP Meeting. 136., Haarlem, The Netherlands: XIV EAVP Meeting, Programme and Abstract Book

sexta-feira, maio 20, 2016

Baleias-de-bico em nova tese em paleontologia por João Muchagata


A estrutura bizarra no crânio da baleia-de-bico extinta Globicetus hiberus levou à tese por João Muchagata integrado no Mestrado em Paleontologia da FCT-Universidade Nova de Lisboa + Universidade de Évora. Parabéns ao João Muchagata que agora é Mestre com uma classificação de 18 valores.



Data: 18 de Maio de 2016
Mestrado em Paleontologia
Dissertação: "Função, dimorfismo sexual e variação intraespecífica das estruturas rostrais bizarras na baleia-de-bico extinta Globicetus hiberus"
Júri: Doutores Carlos Ribeiro (UÉ), Mário Estevens (CM Almada) e Octávio Mateus (FCT-UNL, orientador).

Defesa de tese de João Muchagata: candidato, júri e orientadores.


Resumo: Zifídeos são odontocetes ecolocalizadores capazes de efetuar mergulhos de grande profundidade. O recentemente nomeado Globicetus hiberus do Plioceno, exibe uma peculiar e grande esfera óssea no rostro, o processo mesorostral da pré-maxila ou MPP. A origem e função do MPP é misterioso, mas algumas hipóteses são abordadas: 1. malformação, doença ou deformidade; 2. lastro; 3. luta intraespecífica; 4. reflexão e orientação do feixe de som; 5. aumento da velocidade das ondas sonoras; 6. barreira sonora; e 7. órgão sexual. Algumas hipóteses são rejeitadas (1, 2, 6), outros podem desempenhar um papel secundário (3, 4, 5) e sugerimos o órgão sexual secundário (7) como a melhor hipótese. O MPP varia de tamanho nos seis espécimes estudados. Durante a vida, o MPP cresce alométricamente nos machos, mas não nas fêmeas, o que sugere que é um caso de dimorfismo sexual. Estas baleias seriam capazes de detetar ossos como imagens ecóicas distintas, portanto, o MPP poderia funcionar como um órgão sexual secundário, a chamado hipótese das “hastes internas”.

sexta-feira, fevereiro 26, 2016

Evolução dos golfinhos e baleias em palestra a 3 de Março

A evolução dos cetáceos, a partir de mamíferos de hábitos anfíbios pequenos e quadrúpedes até às baleias gigantes de hoje, é das histórias naturais mais fascinantes. Esse será o tema da palestra pelo paleontólogo Olivier Lambert na próxima quinta-feira, 3 de Março, pelas 15:00, na FCT-UNL (Auditório da Biblioteca).



Olivier Lambert
Olivier Lambert é paleontólogo do Instituto Real Belga de Ciências Naturais tendo trabalhado na evolução dos mamíferos marinhos, suas adaptações à vida aquática, diversidade e disparidade, e suas interações com organismos marinhos. A sua pesquisa foca-se em diferentes clados de odontocetes (baleias de dentes) do Oligocénico ao Pliocénico, nomeadamente ao lidar com a sistemática, filogenia, anatomia funcional, paleoecologia, e histologia óssea. Trabalha sobre baleias-de-bico (Ziphiidae), cachalotes (Physeteridae), golfinhos longirostros (Eurhinodelphinidae e Platanistoidea) semelhantes aos do rio Amazonas golfinho e La Plata, delfinóides arcaicos, e taxa extintos parentes da beluga e narval (Monodontidae). Também colabora com colegas para o estudo das baleias de barbas e sirénios (parentes do dugongo moderno e peixe-boi).

Baptizou três géneros de cetáceos fósseis de Portugal TagicetusImocetus, e Globicetus.

Fontes:
https://naturalsciences-be.academia.edu/OlivierLambert
https://www.naturalsciences.be/en/science/do/545/staff/member/328





sexta-feira, abril 05, 2013

Descrição de bizarras baleias-de-bico (Odontoceti, Ziphiidae)

Descrição de fósseis de bizarras baleias-de-bico (Odontoceti, Ziphiidae) pescado do fundo do Oceano Atlântico ao largo da Península Ibérica.

Referência:
Bianucci, G., Miján I., Lambert O., Post K., & Mateus O. (2013).  Bizarre fossil beaked whales (Odontoceti, Ziphiidae) fished from the Atlantic Ocean floor off the Iberian Peninsula. Geodiversitas. 35(1), 105-153.LINK


Abstract: 
Forty partial fossil skulls belonging to beaked whales (Cetacea, Odontoceti, Ziphiidae) were collected by trawling and long-line fishing on Neogene (probably Late Early to Middle Miocene) layers of the Atlantic floor off the coasts of Portugal and Spain (Asturias and Galicia). e systematic study of the most diagnostic Iberian specimens, those preserving the rostrum and the dorsal part of the cranium, led to the recognition of two new genera (Globicetus n. gen. and Imocetus n. gen.) and four new species (Choneziphius leidyi n. sp., G. hiberus n. gen., n. sp., I. piscatus n. gen., n. sp., and Tusciziphius atlanticus n. sp.).

Based on the matrix of a previous work, the phylogenetic analysis places all the new taxa in the subfamily Ziphiinae Gray, 1850. More fragmentary specimens are tentatively referred to the genera Caviziphius Bianucci & Post, 2005 and Ziphirostrum du Bus, 1868. Among these new ziphiids, extremely bizarre skull morphologies are observed. In G. hiberus n. gen., n. sp. the proximal portion of the rostrum bears a voluminous premaxillary spheroid. In T. atlanticus n. sp. a medial premaxillary bulge is present on the rostrum; together with asymmetric
rostral maxillary eminences at the rostrum base, this bulge displays various degrees of elevation in different specimens, which may be interpreted as sexual dimorphism. Specimens of I. piscatus n. gen., n. sp. bear two sets of even crests: spur-like rostral maxillary crests and longitudinal maxillary crests laterally bordering a wide and long facial basin. A preliminary macroscopic observation of these elements indicates very dense bones, with a compactness comparable with that of cetacean ear bones. Questioning their function, the high medial rostral elements (the premaxillary spheroid of G. hiberus n. gen., n. sp. and the medial bulge of T. atlanticus n. sp.) remind the huge rostral maxillary crests of adult males of the extant Hyperoodon ampullatus (Forster, 1770). In the latter, the crests are very likely related to head-butting. However, they are made of much more spongy bone than in the fossil taxa studied here, and therefore possibly better mechanically suited for facing impacts. Other interpretations of these unusual bone specializations, related to deep-diving (ballast) and echolocation (sound reflection), fail to explain the diversity of shapes and the hypothetical sexual dimorphism observed in at least part of the taxa. e spur-like rostral maxillary crests and long maxillary crests limiting the large facial basin in I. piscatus n. gen., n. sp. and the excrescences on the maxilla at the rostrum base in Choneziphius spp. are instead interpreted as areas of origin for rostral and facial muscles, acting on the nasal passages, blowhole, and melon. From a palaeobiogeographic point of view, the newly described taxa further emphasize the differences in the North Atlantic (including Iberian Peninsula) and South African Neogene ziphiid faunal lists. Even if the stratigraphic context is poorly understood, leaving open the question of the geological age for most of the dredged specimens, these differences in the composition of cold to temperate northern and southern hemisphere fossil ziphiid faunas may be explained by a warm-water equatorial barrier.

Crânio de Globicetus hiberus

quinta-feira, abril 04, 2013

Quatro novas espécies fósseis de baleias-de-bico descobertas no Atlântico



Uma equipa internacional de investigadores, constituída por Giovanni Bianucci (Università di Pisa, Itália), Miján Ismael (Sociedade Galega de Historia Natural, Espanha), Olivier Lambert (Institut Royal des Sciences
Naturelles, Bélgica), Post Klaas (Natuurhistorisch Museum Rotterdam, Holanda) e Octávio Mateus (Museu da Lourinhã, Portugal), acaba de publicar importantes achados na Geodiversitas, revista científica
especializada em Paleontologia. Durante os últimos cinco anos, a equipa estudou fósseis de cetáceos
recuperados, durante a pesca por arrasto, a profundidades que variam entre 500 e 1500 metros, e descreveu quatro novas espécies de baleias-de-bico que viveram em águas atlânticas próximas da Península
Ibérica, provavelmente, entre 20 e 14 milhões de anos atrás, durante o Miocénico.
Pescadores doaram aqueles exemplares ao Museu da Sociedade Galega de História Natural (SGHN) e ao Museu da Lourinhã, para que o seu estudo pudesse ser realizado.



Esta descoberta é uma das mais importantes, a nível mundial, dada a sua repercussão no conhecimento da
biologia evolutiva dos cetáceos, à qual se têm dedicado vários cientistas, tal é a relevância deste tema na
Paleontologia. Em 2007, Ismael Miján publicou um relatório preliminar sobre dois crânios doados à SGHN que foram o ponto de partida para a investigação. Durante os últimos cinco anos, a equipa conseguiu examinar mais de 40 crânios pertencentes a coleções oficiais (guardados e, em muitos casos, esquecidos, a maioria deles estão na SGHN e na Lourinhã, cujas coleções de fósseis de baleias-de-bico estão entre as mais importantes do mundo), assim como cerca de uma centena de espécimes de coleções não oficiais, muitas delas correspondentes a espécies desconhecidas para a ciência.
As quatro espécies foram agora designadas como Choneziphius leidyi, Tusciziphius atlanticus, Imocetus
piscatus e Globicetus hiberus. Têm características anatómicas únicas, nunca antes encontradas noutras
espécies de cetáceos, e apresentam claro dimorfismo sexual (diferenças entre machos e fêmeas) nas estruturas ósseas. O Globicetus hiberus, por exemplo, tem na parte frontal do crânio uma grande esfera de muito elevada densidade óssea e de grandes proporções que serviria de proteção contra golpes de cabeça infligidos durante os combates entre machos e, além disso, poderia desempenhar um papel peculiar no seu sistema bioacústico (sonar natural) desconhecido até ao momento.
Dois destes géneros tinham sido já encontrados em costas europeias e na costa leste dos Estados Unidos,
evidenciando que as baleias-de-bico estiveram amplamente distribuídas no Atlântico Norte durante o
Neogénico. Mas, surpreendentemente, nenhum destes zifídeos ibéricos foi encontrado na África do Sul (onde alguns dos investigadores da equipa estudaram uma grande coleção de fósseis de baleias-de-bico) e isso poderia sugerir que as águas quentes equatoriais terão funcionado como barreira natural, separando as duas populações de baleias-de-bico, as de águas frias e as de águas temperadas.
As instituições envolvidas na pesquisa, e especialmente a SGHN e o GEAL – Museu da Lourinhã, valorizam a colaboração dos pescadores que doaram os espécimes, uma atitude generosa e indispensável para a realização do estudo.



quinta-feira, fevereiro 21, 2013

O caso da misteriosa Baleia-franca-pigméia


A única espécie viva da família de baleias Neobalaenidae é a Baleia-franca-pigméia (Caperea marginata) e também os fósseis são raríssimos. A sua origem continua envolta em mistério.


Caperea marginata (source: Wikipedia)

Através do trabalho de campo em  Angola, sob os auspícios do Projecto PaleoAngola, recolheram-se cetáceos fósseis em depósitos do Miocénico, oferecendo novos perspectivas sobre a diversificação inicial dos cetáceos ao longo da costa oeste africana.
Entres eles, dois novos taxa de baleias misticetes (baleias de barba): um dos exemplares (PA 165) compreende um crânio incompleto e vértebras, enquanto que o outro exemplar (PA 166) compreende um crânio parcial articulado incluindo a região posterior e incluindo as nasais. 
Ambos os espécimes foram recuperados a partir de aquilo que parece ser a formação Luanda, um arenito calcário de idade Miocénico. A análise filogenética indica que estes fósseis representam dois novos taxa aninhados com Caperea marginata, a baleia-franca pigméia, na família Neobalaenidae, uma família restrita a uma espécie actual que habita águas frias temperaturas do hemisfério sul. 
Neobalaenidae é um grupo irmão Eschrichtiidae e Alaenopteridae. Estes novos taxa são os únicos representantes conhecidos fósseis da família, que triplica a diversidade conhecida, e alarga a cronologia para o Miocénico de Benguela.


Fonte:
  • Graf J, Jacobs L, Polcyn M, Mateus O, Schulp A (2011) New fossil whales from Angola. J Vert Paleontol Abstracts 2011:119  LINK
Ver também:
  • Fordyce, R. E., & Marx, F. G. (2013). The pygmy right whale Caperea marginata: the last of the cetotheres. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 280(1753).
  • Marx, F. G., Buono, M. R., Fordyce, R. E., & Boessenecker, R. W. (2013). Juvenile morphology: A clue to the origins of the most mysterious of mysticetes?. Die Naturwissenschaften.