quinta-feira, março 25, 2004

Ossos junto ao mar

> Como eu já vi por fotografias, algumas escavações passam-se muito perto do
> mar, e a minha questão é se a àgua do mar pode alterar ou destruir os
> fósseis e se estes estiverem debaixo de àgua se será possivel recupera-los?
> Carlos Marques


Resposta:
Sim. A água fragiliza os ossos e rocha envolvente e acelera a erosão. A força das ondas e das marés também destrói os fósseis.

É possível recuperar ossos debaixo de água, mas estes são difíceis de localizar, identificar e recuperar. Os ossos na zona intertidal (entre a maré cheia e a maré vazia) e de rebentamento das ondas são muito difíceis de trabalhar porque as ondas destroem os ossos, a cola não seca suficientemente, os consolidantes químicos não actuam convenientemente, etc.
OM

terça-feira, março 23, 2004

PEGADAS DE DINOSSAUROS EM ÓBIDOS

Uma nova jazida com cerca de 130 pegadas de dinossauros do Cretácico foi descoberta na Praia de Olhos de Água, no litoral do concelho de Óbidos.

Os trabalhos de campo, conduzidos pelo paleontólogo Octávio Mateus, da Universidade Nova de Lisboa e do Museu da Lourinhã, começaram imediatamente, deixando à vista cerca de 130 pegadas do Cretácico Inferior com cerca de 100 milhões de anos. O estudo preliminar já foi realizado por Octávio Mateus e Miguel Telles Antunes, da Universidade Nova de Lisboa, no que é uma das mais interessantes jazidas de pegadas de dinossauros em Portugal, com 17 trilhos e um total de 130 pegadas feitas por diferentes dinossauros. Há, pelo menos, três espécies distintas, todas bípedes, entre dinossauros terópodes (carnívoros) e ornitópodes (herbívoros) de médio e grande porte.

Os trilhos mais longos medem apenas 19 metros mas muito mais está ainda por descobrir assim que forem removidas as toneladas de terra e rocha que cobrem as pegadas. Estima-se a existência de mais de 200 pegadas de dinossauro.

Entre outras particularidades a jazida mostra um trilho de um dinossauro carnívoro que fez uma curva acentuada, e outro que têm os passos direitos mais compridos que os esquerdos, sugerindo que coxeava.

Museu da Lourinhã

A Lourinhã encontra-se no epicentro de uma das mais ricas áreas de dinossauros do Jurássico Superior em todo o mundo, equivalente a algumas localidades de Formação de Morrison, nos EUA, e a Sichuan, na China.

O Museu da Lourinhã possui, actualmente, a maior colecção de dinossauros do Jurássico Superior em Portugal.

Entre as principais peças encontram-se o Lourinhanosaurus antunesi, Draconyx loureiroi, Allosaurus, Dacentrurus armatus, Lusotitan atalaiensis, Torvosaurus, Dinheirosaurus lourinhanensis entre outros dinossauros.

Um dos ex-libris é o ninho de Paimogo com os ovos e embriões de dinossauro carnívoro. É o mais antigo ninho do mundo e um dos maiores conhecidos. O único com embriões de dinossauro na Europa.


quinta-feira, março 11, 2004

Onde se encontram vestígios de Dinossauros em Portugal?


> Onde se encontram vestígios de Dinossauros em Portugal?
> José Morais (j.m.morais@sapo.pt)

Foram recolhidos vestígios de dinossauros numa mancha oeste desde o Cabo Mondego ao Cabo Espichel, e no Algarve. Foram identificadas sítios/jazidas em 25 concelhos e 7 distritos de Portugal. A área mais rica é a Região Oeste, com o epicentro na Lourinhã.
O mapa das jazidas identificadas até 1957 está disponível em http://www.dinodata.net/lusodinos/map.htm

Allosaurus em Portugal

> Soube, recentemente, através duma
> conceituada revista científica, da descoberta de um
> alosauro (ou espécie semelhante) na região de Torres
> Vedras. Existe algum plano de continuidade nos
> trabalhos de campo, ou foi apenas uma situação
> pontual, apenas para recuperar aquele achado?
> Pedro (outkast_2004@megamail.pt)

RESPOSTA:
O trabalho de estudo do Allosaurus de Torres Vedras persiste mas
desconheço se há planos para a continuidade no trabalho de campo.
(Octávio Mateus)

Caçadores de fósseis

Caçadores de fósseis
> O artigo menciona também os "caçadores de fósseis".
> Até que ponto estas actividades, digamos
> que, "paralelas", poderão prejudicar uma excavação?
> Pedro (outkast_2004@megamail.pt)

RESPOSTA:
Os "caçadores de fósseis" têm-se revelado uma actividade muito
prejudicial nalguns aspectos da paleontologia como Ciência, quando:
1) apenas procuram o lucro,
2) retiram os fósseis de forma descuidada, destruíndo-os;
3) retiram os fósseis do contexto geológico e geográfico, sem assinalar a
proviniência;
4) recolhem e pilham jazidas já em estudo por cientistas qualificados;
5) não dão a conhecer à Ciência os seus achados;
6) contribuem para a exportação de fósseis importantes para fora da região
de origem;
7) separam e distanciam fósseis ou partes de fósseis que são mais valiosos
científicamente quando em conjunto;
8) ignoram e destroem fósseis menos atractivos, mas igualmente importantes
para a Ciência;
(Octávio Mateus)

terça-feira, março 02, 2004

Quais os maiores e menores dinossauros existentes no planeta? E no nosso país?

Gisela Catarino Antunes (gisela.antunes@cgd.pt)

RESPOSTA
Os dinossauros mais longos eram o Seismosaurus (43 metros e 90 toneladas), e o Argentinosaurus (37 m e 100 toneladas). Os mais pequenos eram o Micropachycephalosaurus (50 cm) e o Echinodon (61 cm), mas como as aves são consideradas dinossauros actuais, o mais pequeno dinossauro é o colibri com apenas 2 cm.
Em Portugal os maiores dinossauros eram o Lusotitan e o Apatosaurus.
(Octávio Mateus)

Qual o país onde existiu a maior concentração de dinossauros?

Gisela Catarino Antunes (gisela.antunes@cgd.pt)

RESPOSTA
Não podemos saber onde existiu maior concentração na época, apenas podemos determinar onde se encontram mais vestígios actualmente.
Os países com mais vestígios de dinossauros são os Estados Unidos, China, Argentina e Mongólia. Mas estes são países enormes e se observarmos em termos de número de espécies por área, Portugal é um dos países mais ricos em dinossauros.
(Octávio Mateus)

Em Portugal, quais as zonas onde existem indícios de terem sido "povoadas" por dinossauros?

Gisela Catarino Antunes (gisela.antunes@cgd.pt)

RESPOSTA
Foram recolhidos vestígios de dinossauros numa mancha oeste desde o Cabo Mondego ao Capo Espichel, e no Algarve. A área mais rica é a da Lourinhã.
O mapa das jazidas identificadas até 1957 está disponível em http://www.dinodata.net/lusodinos/map.htm
(Octávio Mateus)

Em que época começaram a desaparecer e quais os motivos da sua extinção?

Gisela Catarino Antunes (gisela.antunes@cgd.pt)

RESPOSTA
Desde o aparecimento dos dinossauros há 230 milhões de anos, que as espécies se foram sucedendo por aparecimento e extinção contínuas.
A extinção total dos dinossauros não-avianos deu-se repentinamente há 65 milhões de anos, marcando assim o fim do Cretácico.
Os dinossauros "tradicionais", os dinossauros não-avianos, extinguiram-se há 65 M.a. devido a grandes alterações climáticas. A grande questão ainda persiste sobre o que causou essas alterações climáticas. A teoria mais popular é que um gigantesco meteorito de cerca de 12 km de diâmetro atingiu a Terra na Bacia de Iucatão, no México, provocando cataclismos com precurssões globais, arrefecimento geral do planeta, com consequente extinção de muitas formas de Vida, incluindo os dinossauros. Mas a teoria do meteorito não explica, na totalidade, a extinção dos dinossauros. Deve ter havido uma junção de factores que, conjugados, fizeram extinguir esses magníficos répteis.
(Octávio Mateus)

Qual a última espécie [de dinossauro] existente?

Gisela Catarino Antunes (gisela.antunes@cgd.pt)

RESPOSTA
Muitos dinossauros que viviam nos momentos que precederam a última grande extinção, há 65 milhões de anos. Os mais famosos eram o Tyrannosaurus rex, Triceratops, Parasaurolophus, vários hadrossauros, etc.
As aves são os representantes actuais dos dinossauros e, portanto, em última análise são os últimos dinossauros.
(Octávio Mateus)

Quais os motivos para o aparecimento de diferentes espécies e da existência de espécies específicas em determinadas zonas do planeta ?

Gisela Catarino Antunes (gisela.antunes@cgd.pt)

O aparecimento, existência e desaparecimento de espécies, sejam elas dinossauros ou não, está intimamente ligado com os complexos processos de evolução, paleogeografia e adaptação, difíceis de explicar e abranger em poucas linhas.
As espécies tendem a colonizar novos habitats e territórios propícios, mantendo-se em contínua evolução e adaptação. Em casos de isolamento geográfico durante longos períodos de tempo, essa adaptação e transformação contínuas fazem com que as espécies adoptem características únicas. Caso a evolução persista, essa características serão suficientes para distinguir a nova espécie relativamente à que lhe deu origem.
Durante milhões de anos, a contínua migração, colonização, adaptação e evolução faz com que a Terra esteja coberta das mais variadas formas de Vida, cada uma bem adaptada ao seu meio.
(O. Mateus)

Qual o período médio de vida de um dinossauro?

Gisela Catarino Antunes (gisela.antunes@cgd.pt)

RESPOSTA
Não se conhece, com rigor, a esperança média de vida e a longevidade dos dinossauros, que devem variar muito conforme a espécie. Estudo dos ossos indicam idades de 43 anos de idade para saurópodes e 3 a 7 para terópodes (Erickson, 1997).
Do ponto de vista taxonómico, em média os géneros de dinossauros vivem durante 7 milhões de anos antes de se extinguir ou se transformarem em géneros distintos. (O. Mateus)

Qual o(s) 1º. dinossauro que existiu e onde apareceu e viveu?

PERGUNTA: Qual o(s) 1º. dinossauro que existiu e onde apareceu e viveu ?
Gisela Catarino Antunes (gisela.antunes@cgd.pt)

RESPOSTA
Os dinossauros mais antigos que se conhecem são o Eoraptor e o Herrerasaurus que viveram no Triásico Superior da Argentina, há aproximadamente 230 milhões de anos.
Octávio Mateus

sábado, fevereiro 28, 2004

Os dinossauros

PERGUNTA:
> 1 - em que época viveram?
> 2 - existem representantes atuais desses animais?
> 3 - eles foram extintos? porque?
> 4 - tipos de vestigios deles que existem?

RESPOSTA Os dinossauros viveram durante o período Mesozóico, do Triásico (há 231 milhões da anos, M.a.) ao fim do Cretácico (65 M.a.). As aves são os representantes actuais e, portanto, em última análise os dinossauro sobreviveram até aos dias de hoje e vivem em forma de aves. Contudo, todo os dinossauros "tradicionais", os dinossauros não-avianos, extinguiram-se há 65 M.a. devido a grandes alterações climáticas. A grande questão ainda persiste sobre o que causou essas alterações climáticas. A teoria mais popular é que um gigantesco meteorito de cerca de 12 km de diâmetro atingiu a Terra na Bacia de Iucatão, no México, provocando cataclismos com precurssões globais, arrefecimento geral do planeta, com consequente extinção de muitas formas de Vida, incluindo os dinossauros. Mas a teoria do meteorito não explica, na totalidade, a extinção dos dinossauros. Deve ter havido uma junção de factores que, conjugados, fizeram extinguir esses magníficos répteis.
Actualmente subsistem apenas os vestígios dos dinossauros não-avianos: ossos, dentes, pegadas, ovos, mas também coprólitos (excrementos fósseis), pele e outros tecidos moles petrificados, gastrólitos e regurgitações.


Paimogo, um ninho de dinossauros

Octávio Mateus
Museu da Lourinhã
omateus@dinocasts.com
www.dinodata.net/lusodinos & www.dinocasts.com

texto publicado em: MATEUS, O. (2003). Paimogo, um ninho de dinossauros. Revista Cais, 79, Set, 2003.

ERA UMA VEZ…
Alguns dinossauros carnívoros fêmeas reuniam-se todos os anos para nidificarem nas areias perto de uma lagoa de águas calmas. Nesse ano, juntaram-se sete fêmeas. A mais jovem tinha seis metros de comprimento, enquanto a mais velha rondava uns possantes oito metros. Após escolherem um sítio perto do que já tinha sido utilizado no ano anterior, a primeira fêmea pôs uma vintena de ovos, muito juntos, cada um com cerca de 12 cm. Os outros dinossauros fêmeas imitaram-na durante o resto do dia, até o ninho ser uma gigantesca concentração de 180 ovos de dinossauro carnívoro.
Estes dinossauros protegiam o ninho contra os comedores de ovos como crocodilos, lagartos e mesmo outros dinossauros. Ainda assim, um crocodilo de médio porte aproxima-se sorrateiramente daquela preciosa pilha de ovos com o cuidado de não ser detectado pelos dinossauros. O seu intuito não era predar o ninho e, rapidamente, deposita os seus próprios ovos no meio dos de dinossauro. Este crocodilo fêmea retira-se assim que termina a sua tarefa, deixando a sua prole bem protegida por um grupo de dinossauros carnívoros.
O tempo passa e, além de um ou outro ovo roubado e comido, os pequenos dinossauros desenvolvem-se depressa no seu líquido amniótico protector. Naquela região eram frequentes fortes aguaceiros mas, naquela altura, chovia mais do que o habitual. A chuva não parava, o lago começou a encher e a transbordar, até que chegou ao precioso ninho dos dinossauros, cobrindo-o com aquela água lamacenta que acabou por asfixiar e matar os pequenos embriões prestes a eclodir.

150 MILHÕES DE ANOS DEPOIS…
Cerca de 150 milhões de anos depois, aquele local, agora conhecido como Paimogo (perto da Lourinhã), é muito diferente. Em 1993, era palco de actividades de prospecção paleontológica por Isabel Mateus, que já conhecia o aspecto das cascas de ovos de dinossauros. Isabel acabava de fazer a maior descoberta da sua vida: um ninho de ovos de dinossauro com ossos de embrião!

O cenário acima descrito é uma interpretação que a equipa de paleontólogos nacionais e estrangeiros sugere para o que aconteceu há cerca de 150 milhões de anos, em pleno Jurássico Superior, com base nos dados científicos obtidos pelo Museu da Lourinhã em colaboração com a Universidade Nova de Lisboa, Museu de História Natural de Paris, Universidade de Coimbra, Colégio de França e Instituto Geológico e Mineiro.

A IMPORTÂNCIA DA JAZIDA
A jazida de Paimogo é a mais importante jazida paleontológica do Jurássico português. Trata-se do maior ninho de dinossauro do mundo, o único com embriões na Europa e um dos mais antigos que se conhecem. A revista americana Discover considerou-a uma das 100 descobertas científicas mais importantes de 1997, ano em que foi divulgada. A revista Expresso elegeu o casal Isabel e Horácio Mateus como Figuras do Ano 1997.

A presença de embriões neste ninho, raríssima a nível mundial, permitiu identificar a espécie de dinossauro: um Lourinhanosaurus. Este era conhecido anteriormente a partir de parte de um esqueleto de um indivíduo sub-adulto que, caso estivesse completo, tinha cerca de 4,5 metros de comprimento.
Com mais de 200 ossos de embrião identificados, era possível, pela primeira vez, classificar a espécie de dinossauro a que pertenciam aqueles ovos jurássicos, além de responder a muitas perguntas que os cientistas colocavam sobre o crescimento, reprodução e comportamento de dinossauros.
Os pequenos Lourinhanosaurus atingiriam uma dimensão adulta (talvez com 8 metros) em menos de 10 anos, o que faz dos dinossauros os animais de crescimento mais rápido entre os vertebrados. Pode conhecer-se a idade dos dinossauros contando-se os anéis de crescimento lento dos ossos, num processo análogo àquele utilizado nos troncos de árvores.

Os três ovos de crocodilo depositados neste ninho são os mais antigos que se conhecem e os paleontólogos acreditam que foram aí colocados para beneficiarem da protecção dos dinossauros.

Quanto a esta jazida, há ainda muitas questões sem resposta e a investigação está longe de terminar. Ainda assim, a jazida de Paimogo já é uma referência mundial no que concerne à reprodução de dinossauros.

sexta-feira, fevereiro 27, 2004

Aviatyrannis jurassica

Foi descrito em 2003 um novo género e espécie de tiranossaurídeo sob o nome
Aviatyrannis jurassica.

MATERIAL:
O holótipo é um ílio direito incompleto com 90 mm (IPFUB Gui Th 1; Fig. 63)
da Guimarota (Rauhut, 2000: 79). Outros elementos foram atribuídos a esta
espécie por Rauhut (2003: 905 e 906): ílio incompleto (IPFUB Gui Th 2),
ísquio direito incompleto (IPFUB Gui Th 3) e dentes pré-maxilares de
Guimarota; ílio incompleto da Dakota do Sul.


Proveniência: Mina da Guimarota (Leiria).
Idade: Kimeridgiano/Titoniano: Camadas de Alcobaça.
Referências: Madsen (1974), Chure e Madsen (1998), Foster e Chure (2000),
Rauhut (2000), Rauhut (2003).

Etimologia: Do latim, Avia = avó; tyrannis forma do genitivo tyrannus,
tirano; jurassica refere a idade.


DISCUSSÃO
Visto inicialmente como Stokesosaurus o ílio (IPFUB Gui Th 1) é material
tipo de Aviatyrannis jurassica Rauhut (2003).

Concordamos com a atribuição deste espécime a um tiranossauróide mas a
utilização de um osso incompleto e isolado parece insuficiente para a
atribuição de um novo género. Seria mais prudente a combinação Stokesosaurus
jurassica.

A diagnose do género Stokesosaurus é: "Relatively small theropod, with
maximum adult length of no more than 4 meters; ilium with distinct median
vertical ridge that bridges hood of acetabulum with dorsal margin of the
blade; blade extremely thin on either side" Madsen (1974)".

Aviatyrannis, de Portugal, e Stokesosaurus, da Formação de Morrison
nos EUA, representam os mais antigos tiranossauróides conhecidos.

Rauhut (2003) sugere que a origem dos tiranossauróides poderá
provir do Jurássico médio e superior da Europa/América do Norte.



A possível atribuição de um ílio recolhido na Dakota do Sul (de
paradeiro actualmente desconhecido) a este táxone eleva o primeiro género de
um dinossauro do Jurássico superior português a ser identificado fora do
país. Por outro lado o holótipo de Stokesosaurus, o espécime de Dakota do
Sul e o material português poderão ser congenéricos em que a variação
morfológica representa variedade intragenérica associada à mudança
ontogenética. O espécime da Guimarota é o mais pequeno de todos (ílio com
cerca de 90 mm) e é possível que as suas diferenças sejam sobretudo
ontogenéticas.

Esta questão só será devidamente esclarecida com a recolha de novo material.


segunda-feira, fevereiro 23, 2004

Sampaio visita Museu da Lourinhã

O Presidente da República, Jorge Sampaio, visitou no dia 20 de Fevereiro o Museu da Lourinhã integrado na Presidência Aberta do Ambiente.

A vinda presidencial integrou a visita à nova área dedicada aos dinossauros onde Sampaio se inteirou das riquezas paleontológicas que têm sido descobertas na região e dos esforços do Museu da Lourinhã para a criação do Museu do Jurássico.

O Museu do Jurássico é um projecto lourinhanense de um grande empreendimento científico e cultural que visa albergar o crescente espólio paleontológico de dinossauros da Lourinhã. Os responsáveis do Museu da Lourinhã pediram ao Presidente da República apadrinhasse o projecto Museu do Jurássico, pedido que foi aceite.

quinta-feira, fevereiro 12, 2004

Megalosaurus pannoniensis

>
> Na sua publicação "Dinosaurs of Portugal" (Antunes & Mateus 2003) voçê faz
> referência a três fragmentos dentários e três garras, encontrados em Viso, e
> que o género deve ser considerado como nomina dubia.
>
> Como também me interesso por paleontologia portuguesa, isto suscitou a minha
> curiosidade, e gostaria de lhe perguntar se tem mais alguma informação
> disponível sobre esta espécies.
>
> Pedro Andrade

Resposta por Octávio Mateus:

Eu não reconheço a validade do género Megalosaurus, mas a maioria dos paleontólogos fá-lo. Este assunto ainda é muito debatido entre paleontólogos.

Megalosaurus pannoniensis foi descrito por Seeley (1881) com base em dois dentes do Daniano de França sem caracteres diagnósticos suficientes, pelo que deverá ser considerada nomen dubium. Lapparent e Zbyszewski (1957: 27) identificaram três fragmentos de dentes e três falanges ungueais do Maastrichtiano de Viso como de Megalosaurus cf. pannoniensis. Antunes e Pais (1978: 116) também citam um Megalosauridae, “Megalosaurus pannoniensis”, em Taveiro.

terça-feira, fevereiro 03, 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - V: O GEAL - Museu da Lourinhã

Eles são o Grupo de Etnologia e Arqueologia da Lourinhã (GEAL). Começaram pela espeleologia, aventuraram-se depois pela arqueologia, calcorrearam o concelho em busca do património etnográfico em vias de se perder e por fim concentraram o melhor da sua energia e saber na paleontologia, com destaque para a paleontologia dos dinossauros. Ou fizeram tudo isto ao mesmo tempo. Nasceram há coisa de vinte e tal anos. São por isso um grupo de gente jovem.

Hoje têm uma das mais valiosas colecções de fósseis de dinossauros e outros répteis, do Jurássico Superior (c. 150 milhões de anos), não só a nível do país como até do resto da Europa. Têm igualmente um interessante espólio na área arqueológica e sobretudo na área da etnografia agrícola e das profissões. Têm ainda muitos sonhos e projectos, incluindo o do futuro Museu do Jurássico.

O GEAL é uma associação privada, que vive das quotas dos seus sócios (duas escassas centenas), das receitas de bilheteira do museu da Lourinhã, da venda de artigos diversos (incluindo réplicas de fósseis) e de alguns subsídios de entidades públicas, com destaque para a Câmara Municipal da Lourinhã, cuja sensibilidade cultural e social merece o meu apreço.

Num orçamento de 100 mil euros, o contributo da autarquia local é de cerca de um terço da receita total do GEAL, fora outros importantes apoios, nomeadamente logísticos (máquinas, equipamentos, instalações, pessoal).

Com cinco colaboradores remunerados e a tempo inteiro (incluindo um doutorando em paleontologia dos dinossauros, o Dr. Octávio Mateus, já hoje um cientista de renome internacional, tendo como orientador de tese o Prof. Dr. Teles Antunes, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa), o GEAL vive sobretudo da paixão e da generosidade de um pequeno grupo de jovens (e de alguns menos jovens). Paixão pela vida, pela terra, pelos seres que o habitam ou habitaram, pela história, pela ciência, pela cultura, pelo património. Amor também pela sua terra, a Lourinhã.

Quanto à palavra generosidade, ela aqui significa roubar muitas horas da sua (deles) vida pessoal e familiar pela coisa pública, pela pesquisa, estudo, conhecimento e divulgação do nosso património cultural (que não pode ser apropriado por ninguém).

Como muitas outras pequenas associações privadas de interesse público, espelhadas por esse país fora, o GEAL é um pequeno exemplo da vitalidade da nossa sociedade civil, da capacidade de sonhar e de realizar dos portugas... Foi, de resto, com gratidão, admiração, reconhecimento e esperança que eu assisti ontem a uma cerimónia singela, a da reabertura do Museu da Lourinhã, agora ampliado e remodelado, oferecendo aos seus visitantes (mais de 16 mil em 2003) novos motivos de interesse, conhecimento, lazer, prazer e maravilhamento.

Insisto na palavra esperança, até porque, simbolicamente ou não, ontem estava uma manhã de sol radioso na "capital dos dinossauros" enquanto chovia na outra capital, a dos portugas e do poder: a esperança de ver, dentro em breve, o início da concretização do projecto do Museu do Jurássico que alguns, mais cépticos ou críticos, acharam (ou são capazes ainda de achar) megalómano, faraónico, eleitoralista, bairrista...

Julgo que terá sido Fernando Pessoa a dizer (ou, se não foi ele, bem poderia ter sido!) que quando um portuga sonha alto e bom som, há logo alguém que o acusa de estar fora de escala e de ser doido varrido... Eu acrescentaria (se me permitem a vaidade e a veleidade de tabaquear o caso com o grande poeta): Quando dois ou mais portugas se juntam, sonham alto e começam a fazer coisas, com inovação, verdade, rigor e credibilidade, há sempre gente que se incomoda na cadeira da inércia e da mediocridade ou que é capaz até de achar que este país é um manicómio.

Foi bom ouvir um autarca socialista dizer, olhos nos olhos, ao lado de um jovem governador civil social-democrata, que este projecto (que a CM da Lourinhã apoia deste o início na sua qualidade de parceiro privilegiado do GEAL), é (i) um projecto nacional, que (ii) vai ser contemplado pelo próximo Plano Operacional da Cultura (POC) e que (iii) já foram desafectados da reserva agrícola nacional os 35 hectares de terra onde um belo dia há-de nascer o Museu e o Parque do Jurássico (que o projecto arquitectónico e o modelo de gestão, esses, já existem no papel)... Para deleite dos lourinhanenses, estremenhos, portugas, eurolandeses e outras desvairadas gentes que o irão visitar.

Mais: gostei de ouvir o senhor representante do povo local dizer que este projecto está acima da política e das agendas geralmente curtas dos nossos políticos, baseadas na contabilidade eleitoral do deve e do haver. Leia-se: acima da política politiqueira. O mesmo é dizer que é um projecto que exige o consenso, o apoio e o empenhamento de todos.

Mas é sobretudo para um punhado de gente magnífica que mantém este sonho de pé, que eu, Blogador, quero daqui mandar os meus aplausos. Sou suspeito por ser amigo deles (ou dalguns deles). Mas os amigos são (ou devem ser) mesmo para as ocasiões. E a ocasião não podia ser mais bem escolhida, quando reabre ao público o simpático museu da Lourinhã.

Não vou aqui citar uma longa lista de nomes, porque seria injusto para com muita gente que colabora ou já colaborou com o GEAL e que eu nem sequer conheço. Nem aqui os nomes são o mais importante. Em nome deles todos, presto a minha pequena homenagem a um homem e uma mulher que são membros fundadores do GEAL e a cuja saudável loucura muito se deve o sonho de hoje e a realidade de amanhã.

A Isabel e o Horácio Mateus (o anónimo casal de lourinhanenses que a redacção do Expresso elegeu, para surpresa geral, como figuras nacionais de 1997, pelo seu trabalho de investigação e divulgação na área da paleontologia dos dinossauros), são apenas a ponta de um pequeno iceberg O que é reconfortante é saber que o seu testemunho já passou para a geração seguinte, a dos seus filhos e a dos amigos dos seus filhos. Um chicoração muito especial para eles, extensível ao Sr. Dário de Matos, o decano e o presidente da direcção do GEAL. Deixem-me dizer-vos que é tocante o entusiasmo deste homem, exemplo de grande lourinhanse e de cidadão interventivo.

LUÍS GRAÇA