quarta-feira, maio 30, 2018

Répteis cretácicos de Angola em exposição no Smithsonian

Répteis marinhos cretácicos de Angola vão ser o foco de uma exposição temporária no National Museum of Natural History do prestigiado Instituto Smithsonian, em Washington, a partir de 9 de Novembro, em resultado da colaboração com o Projecto PaleoAngola.

A exposição denominada “Sea Monsters Unearthed: Life in Angola’s Ancient Seas” vai estar patente durante dois anos, após os quais está disponível para ir para Angola. A exposição teve a colaboração da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e contou com a supervisão científica de Louis Jacobs da Southern Methodist University (SMU) do Texas e do Projecto PaleoAngola.

A exposição terá plesiossauros, mosassauros, tartarugas e outros fósseis do Cretácico de Angola que foram escavados pela equipa PaleoAngola que conta com o português Octávio Mateus, e com a colaboração de vários geólogos angolanos de destaque tais como Olímpio Gonçalves, Maria Luisa Morais e André Buta Neto.

O Museu Nacional de História Natural do Smithsonian é um dos museus de história natural mais visitados do mundo, com aproximadamente 7 milhões de visitantes anuais dos EUA e de todo o mundo.

Angolasaurus e Angolachelys que estarão em expsosição no Smithsonian. Ilustração por Karen Carr.

A fenestra mandibular e a origem dos crocodilos

Durante o Jurássico não existiam crocodilos, mas sim crocodilomorfos. Uma das diferenças mais evidentes é a abertura mandibular, isto é, uma fenestra que os verdadeiros crocodilos (clade Crocodylia) têm nos ossos da maxila inferior, entre os ossos dental, angular e surangular. O estudo e relevância desta abertura anatómica foi  estudada por Eduardo Puértolas-Pascual, Octávio Mateus e Pedro Callapez num artigo apresentado no último congresso EJIP, que mostra que esta característica é fiável e uma das mais úteis para a distinção entre os verdadeiros crocodilos e os seus parentes crocodilomorfos.

Filogenia dos crocodilomorfos.

Fenestra mandibular em crocodilos (Puértolas-Pascual e al 2018)


Puértolas-Pascual, E., Mateus O., & Callapez P. M. (2018).  Implicaciones de la fenestra mandibular externa en el origen de Crocodylia. EJIP Life finds a way. 14-144.

Escavações paleontológicas no Algarve em destaque num novo livro

O novo livro de Steve Brusatte "The Rise and Fall of the Dinosaurs: A New History of a Lost World"  publicado pela William Morrow (New York, 2018) ISBN: 978-0-062490-421 relata a curiosa situação da descoberta do Metoposaurus algarvensis, com concelho de Loulé, em 2009.

O livro foi revisto por Michael Benton aqui.

Frontispício do livro "The Rise and Fall of the Dinosaurs: A New History of a Lost World"
Excerto do livro "The Rise and Fall of the Dinosaurs: A New History of a Lost World" com a fotografia da jazida da Penina, no Algarve

quarta-feira, maio 02, 2018

O Lince-Ibérico no registo fóssil português

O Lince-Ibérico Lynx pardinus, é o mais ameaçado dos felinos em todo o mundo. Já chegou a ser anunciado como extinto em Portugal mas felizmente voltaram a aparecer.
No registo fóssil ou subfóssil português há algumas ocorrências, sobretudo em depósitos de grutas, em várias localidades entre as quais Casa da Moura, Fontainhas, Caldeirão, Escoural, Algar de Cascais, Gruta das Salemas, Lapa da Rainha e Furninha.

Lince-Ibérico Lynx pardinus. Fonte: Programa de Conservación Ex-situ del Lince Ibérico www.lynxexsitu.es CC SA BY
Um novo estudo dá a conhecer uma nova ocorrência, um úmero direito, para Casais Robusto, concelho de Alcanena num trabalho que se enquadra na tese de mestrado em Paleontologia de Darío Estraviz.

Lynx pardinus, parte distal de úmero direito de Casais Robustos (FCTUNL-VP-713) (Estraviz & Mateus, 2018)

Estraviz, D, Mateus O.  2018.  The quaternary mammals from the caves of Casais Robustos and Cabeço de Morto, Alcanena (Portugal): the case of Lynx pardinus Temminck, 1827. EJIP Life finds a way: 159-162., Gasteiz, Spain

sexta-feira, abril 27, 2018

Região Oeste quer candidatar-se a Geoparque da UNESCO


Região Oeste quer candidatar-se a Geoparque da UNESCO é a novidade que o Diário de Notícias avança hoje, via LUSA e que replicamos aqui:


Região Oeste quer candidatar-se a Geoparque da UNESCO

DN
Lourinhã, Lisboa, 27 abr (Lusa)- A região Oeste, das mais ricas do mundo em achados de dinossauros e com património de interesse geológico com mais de 150 milhões de anos, quer candidatar-se a Geoparque da UNESCO, confirmou à Lusa a Câmara da Lourinhã.

A intenção foi manifestada há duas semanas na reunião do Fórum Nacional da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), realizada em Macedo de Cavaleiros, no distrito de Bragança, confirmou o município da Lourinhã, que pretende avançar com uma candidatura em conjunto com os municípios de Torres Vedras, Peniche, Óbidos e Bombarral, da mesma região.

Representantes destas autarquias estiveram em "fóruns da UNESCO de âmbito nacional e internacional, com o objetivo de mostrar a vontade, bem como evidenciar a importância da constituição do Geoparque Oeste, para o território nacional, mas também para o património mundial", e até setembro deverá ser constituída uma entidade de gestão para dar continuidade ao processo.

A existência de património geológico e paleontológico com mais de 150 milhões de anos no território dos cinco concelhos do Oeste é o ponto forte da futura candidatura, que deverá ser formalizada dentro de três ou quatro anos à comissão nacional da UNESCO.

Num artigo científico publicado após a apresentação do tema na Conferência Europeia de Geoparques, realizada em setembro nos Açores, os investigadores Bruno Pereira, Octávio Mateus, José Carlos Kullberg e Rogério Rocha, parte deles ligados ao Museu da Lourinhã e à Universidade Nova de Lisboa, demonstraram que se trata de uma das zonas mais ricas do mundo com achados fósseis do Jurássico Superior, onde foram descobertas 200 novas espécies de vários animais, entre os quais dinossauros.

Também as falésias calcárias da costa de Peniche, do Jurássico, apresentam relevância internacional, sendo de realçar a 'Ponta do Trovão', classificada como geomonumento por ser característica do período Toarciano (183 milhões de anos) e por ali existirem fósseis marinhos.

Bombarral, Lourinhã, Óbidos e Peniche dividem entre si o território do Planalto das Cesaredas, espaço que há 170 a 150 milhões de anos estava submerso pelo mar e onde hoje predominam formações rochosas em calcário do período Jurássico, com 150 milhões de anos.

Mapa antigo da região oeste, em Portugal. Mapa "Portugalliae quae olim Lusitania" de 1584 por Ortelius (1527-1598). Note-se que este mapa tem uma orientação em que o Oeste está no topo. 

No local já foram descobertas 15 novas espécies animais fósseis das 170 ali encontradas, na sua maioria invertebrados marinhos como corais, bivalves ou amonites (parentes das lulas e dos chocos), mas também peixes e ancestrais de crocodilos, que coabitavam com os dinossauros.

O Planalto possui também interesse arqueológico, tendo em conta os vestígios da ocupação humana durante toda a Pré-História, com necrópoles, alguns povoados, como o Castro da Columbeira, e grutas classificadas como sítios arqueológicos do Paleolítico e do Neolítico (de há 12 mil anos).

No Planalto, ocorreu também a Batalha da Roliça, em agosto de 1808, no período das invasões francesas, e este terá sido local dos encontros secretos entre D. Pedro e Inês de Castro.

Óbidos possui também património cultural de interesse e é Cidade Criativa da Literatura.

Estes aspetos têm contribuído para o aumento do turismo histórico e de natureza na região, com concelhos do distrito de Leiria e de Lisboa.

quarta-feira, abril 25, 2018

Fósseis Espectaculares de Portugal, em Beja

A Biblioteca Municipal de Beja "José Saramago" está a organizar um ciclo de conferências de divulgação cientifica "10 temas de ciência do ano 2018" vai ter este fim de semana conferências em que temos todo o gosto em participar com uma palestra sobre Fósseis Espectaculares de Portugal, sábado, 28 de abril, pelas 16:00.





segunda-feira, abril 23, 2018

Colecção de cartões com dinossauros

O Dinoparque Lourinhã e a rede de supermercados Pingo Doce associaram-se para criar uma colecções de cartões de dinossauros, ao jeito das antigas colecções de cromos. Este álbum chamado "Super Animais 3 - Dinossauros" foi um sucesso. Os 108 cartões, em cartão do tamanho de 54 x 80 mm, arrumam-se numa caderneta de 26 páginas e agrupados por: os primeiros dinossauros, os saurópodes, os ornitísquios, os terópodes, os "dinossauros perigosos", os "dinossauros gigantes e miniatura", os "amigos dos dinossauros", esqueletos, ovos e ninhos, e sobreviventes dos dinossauros. Cada cartão aborda um dinossauro ou uma temática e entre eles contam-e alguns portugueses: como o Lourinhasaurus, Miragaia, Allosaurus, Iguanodon, Lourinhanosaurus, Baryonyx, Torvosaurus, Lusotitan e ainda os ovos de dinossauro e crocodilomorfos de Portugal. Além disso, inclui os géneros Angolatitan e Europasaurus que também têm o cunho português.

Algumas das cartas são especiais: têm um código que aciona uma app, outra têm cheiro, outras rugosidade ou brilham no escuro.

A base foi desenvolvida por um consórcio holandês e adaptada para cá pelo Dinoparque Lourinhã. É a primeira vez que existe uma colecção deste tipo com estes dinossauros.

Os cartões só podiam ser obtidos na compra de produtos num supermercado Pingo Doce (4 cartas por cada 10€) numa iniciativa que começou 13 de Março e termina hoje, 23 de Abril de 2018.

Cartões de dinossauros do Pingo Doce
PDF da caderneta completa.

Cartazes publicitários da caderneta à porta do Pingo Doce da Lourinhã.

quarta-feira, abril 18, 2018

Descoberta nova espécie de peixe pulmonado na Gronelândia


Paleontólogos portugueses e mais quatro países anunciam a descoberta de fósseis de uma espécie única e nova de peixe com pulmões em rochas com 210 milhões de anos em área remotas do leste da Gronelândia.

Os peixes pulmonados, ou dipnóicos, são um grupo peculiar de peixes que existiu antes mesmo dos dinossauros e existem seis espécies vivas hoje. “Esse grupo é particularmente interessante porque eles têm pulmões e brânquias, o que ajuda a entender nossa própria evolução dos animais de pernas. Eles pertencem a um grupo mais amplo de peixes que evoluíram com barbatanas semelhantes a membros, que são ancestrais de todos os vertebrados terrestres, incluindo anfíbios, répteis, mamíferos e aves”, afirma Octávio Mateus, da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e do Museu da Lourinhã.



Placas dentária de Ceratodus tunuensis do Triásico da Gronelândia (foto por Octávio Mateus)

Durante as expedições de 2012 e 2016 em Jameson Land, no leste da Gronelândia, from recolhidas algumas fósseis destes peixes, que em vez de numerosos dentes, tinham placas dentárias, que é a parte mais facilmente encontrada no registro fóssil e foi o elemento que permitiu a identificação da espécie. De acordo com Federico Agnolin, do Museu Argentino de Ciências Naturais, “esta espécie distingue-se das demais por robustas placas dentárias com sulcos e diferentes formas de todos os outros peixes pulmonados”.

As placas dentárias são agora reconhecidas como sendo uma nova espécie chamada Ceratodus tunuensis, com o nome alusivo ao leste da Gronelândia. O nome específico tunensis significa "Tunu", palavra inuit para a Gronelândia oriental. "Esta foi a nossa forma de honrar a Gronelândia e a cultura Inuit", disse Lars Clemmensen, da Universidade de Copenhaga. “Quando escolhemos o nome da espécie, inicialmente consideramos usar o nome da povoação mais próxima cujo nome Inuit é Ittoqqortoormiit, mas no final optamos por usar Tunu por ser mais fácil de pronunciar” diz Jesper Milàn do Geomuseum Faxe.

A ocorrência de dipnóicos nessa formação da Gronelândia mostra que esse grupo estava perfeitamente adaptado à água doce. Naquela época, há 210 milhões de anos, essa parte da Gronelândia era 40º e 44º norte em latitude, equivalente ao norte de Portugal e à Espanha hoje.

O estudo é resultado da cooperação de sete autores, da Argentina, Portugal, Dinamarca, Alemanha e Gronelândia. O estudo tem como primeiro autor Federico Agnolin do Museu Argentino de Ciências Naturais e conta ainda com Octávio Mateus e Marco Marzola da Universidade Nova de Lisboa. A lista de autores inclui também Jesper Milàn, Oliver Wings, Jan Schulz Adolfssen e Lars B. Clemmensen. O estudo foi publicado pela prestigiada revista científica Journal of Vertebrate Paleontology.

Imagens e mais informações disponíveis aqui.

Placas dentária de Ceratodus tunuensis do Triásico da Gronelândia (Agnolin et al., 2018)


Placas dentária de Ceratodus tunuensis do Triásico da Gronelândia (Agnolin et al., 2018)



Ceratodus por Heinrich Harder (1858-1935)



segunda-feira, abril 09, 2018

Descoberta nova espécie de sirénio com patas

Uma nova espécie para a ciência de herbívoro marinho, Sobrarbesiren cardieli, descoberto em Espanha, é o primeiro sirénio quadrúpede conhecido. Este grupo de animais, os sirénios, inclui os manatins e dugongues, também conhecidos por vacas-marinhas, são herbívoros que pastam em pradarias marinhas. Ainda sobrevivem cinco espécies actuais, todas ameaçadas de extinção. Este novo estudo teve a participação de Miguel Moreno-Azanza, da Universidade Nova de Lisboa.

Sobrarbesiren por Rosa Alonso


Investigador da FCT NOVA descobre novo mamífero primitivo


O investigador Miguel Moreno-Azanza, do Departamento de Ciências da Terra da FCT NOVA, e colaborador do Museu da Lourinhã faz parte de uma equipa internacional de Investigadores portugueses e espanhóis, que descobriram e descreveram uma nova espécie de Sirénio, um mamífero marinho primitivo que viveu nas águas de Sobrarbe nos Pirinéus.



Este novo mamífero é o primeiro sirénio com 4 membros da Eurásia e o mais antigo da Europa Ocidental, com cerca de 42 milhões de anos. Os Sirénios são os únicos mamíferos marinhos herbívoros e por isso ganharam a alcunha de “vaca-marinha”. Esta nova “vaca-marinha”, foi encontrada nos Pirinéus espanhóis e foi descrita na revista Scientific Reports. O nome da espécie, Sobrarbesiren cardieli, honra o território de Sobrarbe e o arqueologista amador Jesús Cardiel Lalueza que encontrou o fóssil. Esta descoberta representa um passo chave na evolução dos sirénios.

Sirénio actual (Zoomarine Algarve) Foto. Octávio Mateus CC SA BY
Para mais informação consultar:

Díaz-Berenguer, E., Badiola, A., Moreno-Azanza, M., Canudo, J.I. 2018. First adequately-known quadrupedal sirenian from Eurasia (Eocene, Bay of Biscay, Huesca, northeastern Spain).

Scientific Reports https://www.nature.com/articles/s41598-018-23355-w

domingo, abril 01, 2018

Há fósseis no seu quintal? Rochas à sua volta e nos mapas geológicos

Existem fósseis no seu quintal? Quer saber a idade das rochas que o rodeiam? Qual o nome da formação geológica no corte de estrada a caminho de casa?
A melhor forma é através da Carta Geológica que são mapas que mostram as rochas de uma determinada área. Em Portugal as cartas geológicas são editadas pelo LNEG-  Laboratório Nacional de Energia e Geologia. Antes da política suicida de acabarmos com muitas instituições, algumas seculares, por termos "institutos a mais" as cartas eram editadas pelo antigo IGM- Instituto Geológico e Mineiro.

Carta Geológica de Portugal à escala 1/1 000 000, edição 2010 (Fonte: LNEG).
Há Cartas Geológicas de Portugal de várias escalas, sendo as principais:
Portugal, na escala de 1:50 000
Portugal, na escala de 1:200 000
Portugal, na escala de 1:500 000
Portugal, na escala de 1:1 000 000
Região Autónoma dos Açores
Região Autónoma da Madeira

As Cartas Geológicas de 1:50.000 cobrem quase todo o país e são as mais detalhadas.

Mas se não tiver acesso às Cartas Geológicas, não se preocupe, pois a maioria a informação e cartografia está disponível online no site GeoPortal do LNEG.

Exemplo de uma carta geológica 1:50000, neste caso a folha 19D. À esquerda estão representadas as áreas já cartografadas a esta escala em Portugal (fonte LNEG)
Segundo o próprio site "O geoPortal do LNEG é uma infra-estrutura de serviços integrados de suporte à gestão e visualização de dados espaciais, que visa disponibilizar, em ambiente web, a informação georreferenciada relacionada com as diferentes actividades do Laboratório Nacional de Energia e Geologia.".

No site do GeoPortal coloque a coordenada geográfica ou procure no mapa onde está, escolha a carta que precisa (Geológica a 1:50.000 é uma das melhores) e tem aí a sua informação sobre a geologia do seu quintal. O equivalente global desta ferramenta é o OneGeology.

E já agora, se encontrar fósseis de vertebrados, contacte-nos: omateus@fct.unl.pt.


sábado, março 31, 2018

Dipnoicos, os peixes com pulmões

Aprendemos desde os tempos de escola que os peixes respiram através de guelras e não com pulmões. Contudo, um grupo especial de peixes aproveitou a sua bexiga natatória para trocas gasosas e com isso criou os pulmões. Os celacantos e os dipnoicos são sarcopterígios com pulmões. Os girinos de anuros e as larvas de salamandras actuais também vivem com os dois sistemas respiratórios.
Os dipnoicos (Dipnoi), também chamados de "peixes pulmonados", apareceram no Devónico e com sobrevivência de seis espécies até aos dias de hoje. O nome Dipnoi, cunhado por  Müller (1844) significa "dois ares", devido à sua respiração através de guelras e pulmões. Os dipnoicos são filogeneticamente mais próximos a um humano que a um peixe como a enguia pois partilham connosco o mesmo ancestral de sarcopterígio com as seguintes características (Ax, 2003):

  1. Barbatana musculares pares (que nós temos em formato de braços e pernas)
  2. Membro com um único elemento esquelético basal (equivalente ao úmero e fémur)
  3. Dentes com esmalte que cobrem todo o dente
  4. Articulação intracraniana, que em nós evoluiu no pescoço
  5. Vena cava posterior (vena cava caudalis).
Cabeça de dipnoico Protopterus dolloi (por Octávio Mateus). O seu aspecto mais semelhante a uma salamandra que a um peixe revela a proximidade filogenética.


Dipnoico (peixe pulmonado) do Congo (Castelnau, 1856).
Os Dipnoi, são únicos e distinguem-se através de características próprias: dentes em forma de placas ósseas, escamas por debaixo da pele, barbatana caudal continua com a dorsal e anal, e narina com abertura na coana dentro da boca.

Dipnoico Protopterus dolloi (foto por Octávio Mateus)

Dipnoico Protopterus dolloi (Domínio público, Smith & Green - Les poissons du bassin du Congo Boulenger, George Albert, 1858-1937)

Características anatómicas dos Dipnoi: placas dentárias, escamas por debaixo da pele, barbatanas pares, e barbatanas da cauda continuas à dorsal e anal.
Há seis espécies actuais, todas gonduânicas, e são frequentes nos registo fóssil, embora não existem nenhum registos de Dipnoi fósseis em Portugal.
No Triásico da Gronelândia recolhemos vestígios (placas dentárias) de dipnoicos.

Referências:
https://en.wikipedia.org/wiki/West_African_lungfish#/media/File:LepidosirenFord.jpg
Author: G.H.Ford - Proceedings of the Zoological Society of London (vol. 1856, plate Reptilia XI)
Public domain
Protopterus dipnoi skeleton Image from page 256 of "A treatise on zoology" (1900) | by Edwin Ray (public domain)
Ax (2003). The Phylogenetic System of the Metazoa

quinta-feira, março 29, 2018

Globicetus hiberus: a bizarra baleia-de-bico com uma esfera na cabeça

Reconstrução do zifídeo fóssil Globicetus hiberus por Ceri Thomas – CC BY NC, disponível em http://alphynix.tumblr.com/image/159422852817
Globicetus hiberus é um cetáceo Ziphiidae  do Mioceno de Portugal e Espanha. O holótipo é um crânio recolhido ao largo das Berlengas.

Os zifídeos (Ziphiidae) são odontocetes com 21 espécies actuais o que faz a segunda família mais numerosa de cetáceos (a seguir aos delfinídeos), apesar de muito raros. Os zifídeo eram o grupo de odontocetes com maior diversidade durante o Miocénico. Possuem dimensões apreciáveis (de 4 a 12,8 metros para a baleia-bicuda-de-baird, para um peso de 1 a 10 toneladas). Podem também ser chamadas de baleias-de-bico ou zífios.

O mais extraordinário no Globicetus é a estrutura esférica, de osso sólido, no crânio que parece ser um órgão sexual secundário tal como a cauda de um pavão ou as hastes de um veado.

O holótipo de Globicetus hiberus está em exposição no Museu da Lourinhã, em Portugal.


Referências
 Bianucci G., Miján I, Lambert O., Post K. & Mateus O. 2013. Bizarre fossil beaked whales (Odontoceti, Ziphiidae) fished from the Atlantic Ocean floor off the Iberian Peninsula. Geodiversitas 35 (1): 105-153.
Muchagata, J., & Mateus O. (2016). Sexual display and rostral variation in extinct beaked whale, Globicetus hiberus. XIV EAVP Meeting. 136., Haarlem, The Netherlands: XIV EAVP Meeting, Programme and Abstract Book

quarta-feira, março 28, 2018

Evolução Convergente e Divergente

Entre os muitos tipos de evolução há dois fenómenos opostos comparáveis: o de Evolução Convergente e Divergente.

Evolução convergente é o fenómeno evolutivo em que  seres vivos de origens diferentes desenvolvem características semelhantes . Ou seja, é quando um carácter semelhante evolui independentemente em duas espécies ou linhagem, não existindo no ancestral comum. Como exemplo: o lobo (Canis lupus) e o tilacino ou tigre-da-Tasmânia (Thylacinus cynocephalus) que evoluíram para um corpo semelhante embora sejam de linhagem bem distintas: placentário e marsupial, respectivamente. Outro exemplo: corpo e barbatanas dos golfinhos, tubarões, ictiossauros e pinguins.

Evolução divergente é fenómeno evolutivo que espécies aparentadas gradualmente se tornam mais diferentes (morfologicamente, geneticamente ou outra), através da acumulação de diferenças que poderão criar novas espécies e novos clados. Este é o processo evolutivo mais frequente na natureza. Exemplo: linhagem dos mamíferos marsupiais e placentários que divergiram no Jurássico de um ancestral comum, semelhante a Juramaia.


Evolução convergente e divergente.



Exemplo de evolução convergente entre o lobo e o tilacino.

Fontes das imagens:
Skull: Fritz Geller-Grimm - Own work. Copy of a skull of Thylacinus cynocephalus and original skull of Canis lupus, Museum Wiesbaden Naturhistorische Landessammlung, Germany
https://en.wikipedia.org/wiki/Convergent_evolution#/media/File:Beutelwolfskelett_brehm.png
Wolf: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/58/WolfSkelLyd1.png
Thylacine: Baker; E.J. Keller. - Report of the Smithsonian Institution. 1904 from the Smithsonian Institution archives.
John Gerrard Keulemans - Anderson, John (1878) Public Domains
Juramaia: Nobu Tamura CC SA BY

segunda-feira, março 12, 2018

Apresentação do catálogo: Loulé. Territórios, Memórias, Identidades.

O Museu Nacional de Arqueologia, a Câmara Municipal de Loulé e a Imprensa Nacional - Casa da Moeda, S. A. apresentam no próximo dia 15, em Lisboa, o Catálogo da exposição “Loulé. Territórios, Memórias, Identidades”, uma obra que se constitui como um "Estado da Arte sobre a Arqueologia, a Paleontologia e a História do concelho".



O catálogo é resultado de toda a investigação científica criada a partir das colecções em exposição e resulta na compilação de 29 textos de 31 autores e na apresentação de fichas dos objectos realizadas por 25 autores. A exposição, que já ultrapassou os 100.000 visitantes, vai ficar patente no Museu Nacional de Arqueologia até ao final de 2018, integrando o programa comemorativo dos 125 anos da instituição, aniversário que coincide com a celebração do Ano Europeu do Património Cultural.

segunda-feira, março 05, 2018

Tetrápodes fósseis da Gronelândia


Um novo estudo mostra a riqueza e fósseis de vertebrados da Gronelândia. Marco Marzola e colegas (2018) apresentam uma síntese dos tetrápodes fósseis do Paleozoico e do Mesozoico da Gronelândia, com uma revisão actualizada dos holótipos e um novo registo fotográfico dos principais espécimes. Todos os tetrápodes fósseis encontrados são do Leste da Gronelândia, com pelo menos 30 tipos diferentes conhecidos.
Além do primeiro autor, Marco Marzola, participaram ainda Octávio Mateus, ambos da FCT - Universidade Nova de Lisboa e os dinamarqueses Jesper Milàn e Lars Clemmensen.

Cladograma dos tetrápodes fósseis da Gronelândia (Marzola et al., 2018)


Devónico superior
Cinco tetrápodes de caule (Acanthostega gunnari, Ichthyostega eigili, I. stensioi, I. watsoni e Ymeria denticulata)

Triásico Inferior
Quatro anfíbios temnospôndilos (Aquiloniferus kochi, Selenocara groenlandica, Stoschiosaurus nielseni e Tupilakosaurus heilmani)

Triássico Superior
Dois temnospôndilos (Cyclotosaurus naraserluki e Gerrothorax cf. pulcherrimus), um testodinata semelhante a Proganochelys, dois stagonolépidos (Aetosaurus ferratus e Paratypothorax andressorum), um pterossauro, fitossauros e os dinossauros de sauropodomorph e theropod), o cinodonte Mitredon cromptoni , e três mamíferos (Haramiyavia clemmenseni, Kuehneotherium e "Brachyzostrodon")
Fósseis do Triásico da Gronelândia: Cyclotosaurus, tartaruga, fitossauro e sauropodomorfo (Marzola et al., 2018)

Jurássico Inferior 
Um plesiossauro da Formação Kap Stewart.

Jurássico Superior
Um ictiossauro da Formação Kap Leslie, além de um plesiossauro de Kronprins.


Além disso, as traços e pegadas de tetrápodes fósseis são descritas desde o Carbonífero (morfotipo Limnopus) da Formação Mesters Vig e pelo menos quatro morfologias diferentes (como o Brachychirotherium, o Eosauropus e Evazoum, e o Grallator) do Triásico.

A presença de ricos sítios de tetrápodes fósseis no leste da Gronelândia está ligada à presença de depósitos marinhos continentais e superficiais bem expostos com a maioria dos achados em depósitos terrestres do Devónico Superior e Triásico Superior.


Marzola, M., Mateus O., Milàn J., & Clemmensen L. B. (2018).  A review of Palaeozoic and Mesozoic tetrapods from Greenland. Bulletin of the Geological Society of Denmark. 66, 21–46.
ISSN 2245-7070. (www.2dgf.dk/publikationer/bulletin).

Tyrannosaurus rex 'Trix' nas aulas abertas de Paleontologia de Vertebrados

Começa esta semana um novo semestre de aulas. Na FCT Nova, recomeça o Mestrado em Paleontologia com aulas de Paleontologia de Vertebrados, entre outras.

Nesse enquadramento, o paleontólogo Anne Schulp (Naturalis, NL) especialista em mosassauros e líder do projecto de estudo do Tyrannosaurus rex 'Trix', vai dar uma aula / palestra na próxima quinta-feira (8 de Março), 14:30, no DCT-FCT NOVA (sala 3.34), Caparica.

A palestra será aberta ao público.

As aulas de Paleontologia de Vertebrados são normalmente restritas mas este ano decidimos abrir ao público geral, gratuitamente. As aulas são habitualmente às quintas e sextas-feiras. Para participar nestas Aulas Abertas de Paleontologia de Vertebrados, terá de se inscrever, enviando um email para omateus+pv@fct.unl.pt demonstrando o seu interesse e informar sobre as suas qualificações.

As aulas serão em inglês e há limites de vagas.
Esperemos vê-lo em breve.

Tyrannosaurus rex Trix, na exposição da CosmoCaixa, Barcelona (OM2018)



domingo, março 04, 2018

Faleceu o paleontólogo Jacques Rey

Faleceu o paleontólogo francês Jacques Rey  que tanto colaborou com Portugal e estudou a estratigrafia e paleontologia portuguesa sobretudo do Cretácico Inferior. O Prof. Rey, de 77 anos, era Prof. Emérito da Universidade de Toulouse, em França. Descreveu várias novas espécies de equinodermes e deu um enorme contributo para a compreensão do Cretácico de Portugal. Em Abril de 2012 foi-lhe atribuído doutoramento Honoris Causa pela Universidade Nova de Lisboa.

Jacques Rey na Praia da Foz em 2012 (foto: OM)
Rey foi autor de numerosos trabalhos, dos quais destacamos:

  • Rey, J. (1972). Recherches géologiques sur le Crétacé inférieur de l'Estramadura (Portugal) (No. 21). Serviços Geológicos de Portugal.
  • Dinis, J. L., Rey, J., Cunha, P. P., Callapez, P., & Dos Reis, R. P. (2008). Stratigraphy and allogenic controls of the western Portugal Cretaceous: an updated synthesis. Cretaceous Research, 29(5-6), 772-780.
  • Ramalho, M. M., & Rey, J. (1981). Réflexions sur la formation crétacée de Porto de Mós (Algarve, Portugal).
  • Rey, J., Dinis, J. L., Callapez, P., & Cunha, P. P. (2006). Da rotura continental à margem passiva. Composição e evolução do Cretácico de Portugal. Lisboa, Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação (INETI), 75pp.
  • Manuppella, G., Antunes, M. T., Pais, J., Ramalho, M., & Rey, J. (1996). Carta geológica de Portugal 1/50000. Folha 30-A, Lourinhã. Departamento de Geologico e Mineiro.
  • Rey, J., Bilotte, M., & Peybernes, B. (1977). Analyse biostratigraphique et paléontologique de l'Albien marin d'Estremadura (Portugal). Géobios, 10(3), 369-393.
  • Rey, J. (1986). Micropaleontological assemblages, paleoenvironments and sedimentary evolution of Cretaceous deposits in the Algarve (southern Portugal). Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, 55(2-4), 233-246.
  • Rey, J. (1993). Les unités lithostratigraphiques du Grupe de Torres Vedras (Estremadura, Portugal). Comunicações do Instituto Geológico e Mineiro, 79, 75-85.
  • Dinis, J., Rey, J., & de Graciansky, P. C. (2002). Le Bassin lusitanien (Portugal) à l'Aptien supérieur–Albien: organisation séquentielle, proposition de corrélations, évolution. Comptes Rendus Geoscience, 334(10), 757-764.

A geologia e paleontologia portuguesa muito devem ao Prof. Jacques Rey.

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

Flora fóssil dos Açores

Novo artigo sobre a flora fóssil do quaternário do arquipélago dos Açores estuda os fósseis de plantas são conhecidos das Ilhas dos Açores, até à data que se encontravam mal estudados.

Carlos Góis-Marques e colegas (2018) fazem uma uma revisão bibliográfica abrangente para todo o arquipélago dos Açores, publicado agora na Historical Biology.
Uma primeira referência pré-científica data do final do século XV, enquanto a primeira descrição científica é de 1821, representando troncos em unidades piroclásticas e plantas silicificadas em depósitos hidrotérmicos.
Ao longo da segunda metade do século XIX e da primeira metade do século XX, a prospecção por naturalistas e o trabalho de mapeamento geológico levaram à descoberta e descrição de fósseis de plantas na maioria das ilhas.
Os fósseis de plantas açorianas incluem folhas, hastes, troncos e sementes preservadas como impressões, compressões, moldes de lava e mumificações. A tafonomia está geralmente relacionada à atividade vulcânica explosiva, enquanto o registo palinológico é associado com sedimentos de lago e turfeiras.

Plantas fósseis dos Açores (Góis-Marques et al. 2018)


Carlos A. Góis-Marques, Lea de Nascimento, Miguel Menezes de Sequeira, José María Fernández-Palacios & José Madeira (2018) The Quaternary plant fossil record from the volcanic Azores Archipelago (Portugal, North Atlantic Ocean): a review, Historical Biology, DOI: 10.1080/08912963.2018.1444761

Dracopelta, o blog

Há um novo blog na paleontologia portuguesa: Dracopelta em dracopelta.blogspot.pt
Este blog, mantido por João Russo, da FCT- Universidade Nova de Lisboa, é homónimo do género do anquillossauro Dracopelta zbyszewskii do Jurássico Superior.
Mantido em língua inglesa, este novo blog "abrange todos os aspectos dos anquilossauros basais, polacantinos e nodossaurídeos basais e anquilossaurídeos".




Outros blogues de paleontologia, nacionais e em português:
https://sopasdepedra.blogspot.pt por A. Galopim de Carvalho
http://eraumavezumdinossaurio.blogspot.pt

Não listámos os blogues que não mantém actividade actual. Pedimos que nos indiquem se falar algum blog relevante.

domingo, fevereiro 25, 2018

Extinção no K/Pg (Cretácico -Paleogénico)

Novo estudo aborda a extinção dos vertebrados no K/Pg (Cretácico -Paleogénico) de Espanha, liderado por Eduardo Puértolas-Pascual da Universidade Nova de Lisboa.

Há 66 milhões de anos, um evento alterou o clima, ecossistema e a química das águas e ares a nível global. Muito se debate qual a causa e duas teorias prevalecem: i) intensa actividade vulcânica e ii) impacto de um meteorito. Seja qual for a causa, a consequência foi uma alteração profunda e indelével nos ecossistemas de tal forma que o cortejo de fauna e flora mudou para sempre, numa extinção em massa, deixando para trás o Cretácico (simbolo convencionado: K) e entrando no Paleogénico (Pg). O K/Pg é um momento, uma transição, de duas grandes eras: do Mesozóico para o Cenozóico. Até há poucos anos usava-se o termo Terciário (T), mas foi recentemente substituído por Paleogénico, daí usar-se actualmente K/Pg em vez de K/T.

Um novo estudo liderado por Eduardo Puértolas-Pascual da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, publicado na prestigiada revista Cretaceous Research fornece mais informações sobre a cronoestratigrafia e novos sítios vertebrados do Maastrictiano superior de Huesca (Espanha) e a sua relação com o limite K/Pg.

A Formação de Tremp a sul dos Pirinéus, em Espanha, contêm um dos melhores registros de vertebrados continentais do Cretácico Superior na Europa. Esta área dos Pirenéus é, portanto, um local excepcional para estudar a extinção de vertebrados continentais através do limite K/Pg, sendo um dos poucos lugares na Europa que tem um registro relativamente contínuo que varia desde o Campaniano Superior ao Eoceno inferior. A área de Serraduy tem abundantes restos de vertebrados, destacando-se a presença de dinossauros hadrosaurídeos e crocodilomorfos.

Crocodilomorfos do Cretácico de Tremp: A: dentes de cf. Thoracosaurus. B e C: dentes de Allodaposuchidae. D. vértebra. E: crânio de Agaresuchus subjuniperus. (Puértolas-Pascula et al. (2018)

Cronologia da região estudada por Puértolas-Pascual et al. 2018.


Puértolas-Pascual et al. (2018) apresentam um estudo detalhado estratigráfico, magnetostratigráfico e bioestratigráfico pela primeira vez nesta área, possibilitando a atribuição da maioria dos sites de vertebrados da região de Serraduy, uma idade Maastrichtian terminal. Estes resultados confirmam que os sítios vertebrados de Serraduy estão entre os mais modernos do Cretácico Superior na Europa, sendo muito próximos do limite K / Pg.


 Puértolas-Pascual, E., Arenillas, I., Arz, J.A., Calvín, P., Ezquerro, L., GarcíaVicente, C., Pérez-Pueyo, M., Sánchez-Moreno, E.M., Villalaín, J.J., Canudo, J.I., Chronostratigraphy and new vertebrate sites from the upper Maastrichtian of Huesca (Spain), and their relation with the K/Pg boundary, Cretaceous Research (2018), doi: 10.1016/j.cretres.2018.02.016.

Ver notícia no site do Departamento de Ciências da Terra da FCT NOVA.

quinta-feira, fevereiro 22, 2018

Os dinossauros saurópodes

Cabeça de dinossauro saurópode Europasaurus holgeri, por Thomas Laven.


Estes dinossauros evoluíram a partir de dinossauros bípedes do Triásico superior, há mais de 200 milhões de anos, de um ou dois metros de comprimento que vão gradualmente aumentando de dimensão, adaptando-se a uma regime alimentar exclusivamente herbívoro, com um aumento do comprimento do pescoço.
Os dinossauros saurópodes foram os maiores animais que alguma vez caminharam sobre a Terra. Apesar de algumas espécies chegarem a atingir quase 40 metros de comprimentos, e mais de 80 toneladas de peso, nem todos eram assim tão grandes e alguns eram considerados anões, como o Europasaurus, com seis metros de comprimentos. Algumas baleias actuais, como a baleia-azul com 172 toneladas superam os maiores dinossauros em massa corporal.
Algumas estimativas dizem-nos que, para conseguir bombear o sangue até à cabeça, o coração de algum dos maiores dinossauros saurópodes tinha de ter quase meia tonelada. Todos os saurópodes eram quadrúpedes, isto é, caminhavam sobre as quatro patas. Apesar das limitações corporais, é provável que fossem suficientemente ágeis para se levantarem sobre as patas traseiras em situações de perigo ou para se alimentarem de ramos mais altos.
O corpo evoluiu para se adaptar ao grande peso, pelo que as vértebras começaram a ganhar espaços ocos com sacos de ar, ficando mais leves, enquanto que os membros eram compactos e resistentes. Os dedos perderam gradualmente algumas falanges e as patas ficaram mais simples e resistentes.
Os dinossauros saurópodes eram todos herbívoros, mas a sua estratégia de alimentação variava conforme a espécie. Os braquiossauros alimentavam-se da copa das árvores enquanto os diplodocídeos da vegetação rasteira. Os camarassauros cortavam a vegetação com os dentes, enquanto que os titanossauros ripavam-na. Nenhum saurópode conseguir mastigar a vegetação por não ter molares nem nenhuma outra estrutura bocal de mastigação. Em contrapartida, moíam os alimentos com auxílio de seixos que engoliam, os gastrólitos.
Durante o Cretácico os saurópodes entraram em declínio quando confrontado com os hadrossauros, mais adaptados à mastigação, extinguido-se por completo há 66 milhões de anos.
Em Portugal existiam, entre outros, os seguintes dinossauros saurópodes do Jurássico tardio: Lusotitan, Zby, Supersaurus (=Dinheirosaurus) e Lourinhasaurus.

Dinossauros mudavam entre corrida e andar de forma mais sauve que os humanos

Sabemos que a locomoção dos primeiros dinossauros era bípede, caminhando e correndo sobre as patas traseiras. Actualmente há três grupos principais de vertebrados que caminham regularmente sobre as duas patas: humanos, aves e cangurus. Estes últimos saltam e as pegadas indicam que essa não era a forma de locomoção dos dinossauros. Seria a locomoção dos primeiros dinossauros mais parecida a dos humanos ou das aves?
Aprender como os dinossauros de terópodes extintos e não avianos se mexiam é importante porque esta é a linhagem de deu origem às aves. As pegadas fósseis fornecem a evidência mais direta para responder a essas perguntas. No estudo por Phillip J Bishop e colegas (2017) mediram a largura do passo em relação à velocidade nos trilhos de terópodes não avianos do Triásico. Os dados foram comparados com humanos e 11 espécies de aves corredoras.
Os testes de permutação da inclinação mostraram que a largura do passo diminuiu continuamente com o aumento da velocidade nos terópodes extintos e em cinco espécies de aves. Os seres humanos, em contrapartida, diminuem a largura do passo na transição de andamento. Nos bípedes modernos, esses padrões refletem o uso de um repertório locomotor descontínuo, caracterizado por marchas distintas (nos humanos), ou por um repertório locomotor contínuo, com uma transição suave entre correr e andar (nas aves).


Transição entre o andar e a corrida (Bishop et al, 2017) 
Os terópodes não-avianos tinham uma transição contínua e suave entre o andar e o correr. Assim, características que caracterizam a locomoção terrestre aviana começaram a evoluir no início da história dos terópodes.

Este estudo inclui o autor Luis Pardon Lamas, da Faculdade de Medicina Veterinária, em Lisboa.


Bishop, P.J., Clemente, C.J., Weems, R.E., Graham, D.F., Lamas, L.P., Hutchinson, J.R., Rubenson, J., Wilson, R.S., Hocknull, S.A., Barrett, R.S. and Lloyd, D.G., 2017. Using step width to compare locomotor biomechanics between extinct, non-avian theropod dinosaurs and modern obligate bipeds. Journal of The Royal Society Interface, 14(132), p.20170276.
http://rsif.royalsocietypublishing.org/content/14/132/20170276

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Pinguins em Portugal


A alca-gigante, torda-gigante, arau-gigante ou pinguim Pinguinus impennis era uma ave Alcidae não voadora caçada até à extinção por volta de 1770. Apesar do nome, trata-se de uma ave semelhante à torda-mergulheira (Alca torda) actual, do hemisfério norte e distinta dos pinguins Spheniscidae do hemisfério sul. Contudo, o nome dos pinguins era usado por marinheiros europeus para esta espécie e re-utilizado aquando da sua descoberta das aves semelhantes do hemisfério sul. A tripulação de Francis Drake deu o nome quando viram os Pinguins de Magalhães na terra do Fogo que pensavam ser a alca-gigante (Pengwin).

Em Portugal conhecem-se vestígios desta espécie na Figueira Brava, Porto Santo e Gruta da Forninha, em Peniche (Pimenta et al. 2008, Figueiredo et al., 2018, Mourer-Chauvire e Antunes, 1991, Mourer-Chauvire. 1999).

Saiu agora um artigo sobre as aves plistocénicas da Gruta da Furninha, em Peniche assinado por Silvério Figueiredo que refere a existência desta espécie (Penguin no original) (Figueiredo et al., 2018)



Pinguim (Pinguinus impennis) e ovo em Kelvingrove, Escócia (Foto Mike Pennington CC SA BY)

O local da caverna da Gruta da Furninha é uma cavidade cársica costeira, nas arribas de Peniche, com fósseis do Holoceno incluindo ossos humanos neolíticos; e Pleistoceno tardio, paleolítico.

Referências

  • Figueiredo, S.D., Cunha, P.P., Sousa, F., Pereira, T. and Rosa, M., Pleistocene Birds of Gruta da Furninha (Peniche-Portugal): A Paleontological and Paleoenvironmental Aproach. Journal of Environmental Science and Engineering A 6 (2017) 502-509 doi:10.17265/2162-5298/2017.10.003 
  • C. Mourer-Chauvire and M. T. Antunes. 1991. Presence du grand pingouin, Pinguinus impennis (Aves, Charadriiformes) dans le Pleistocene du Portugal. Geobios 24(2):201-205.
  • C. Mourer-Chauvire. 1999. Influence de l'homme prehistorique sur la repartition de certains oiseaux marins: L'exemple du grand pingouin Pinguinus impennis. 67(4):273-279.
  • Pimenta, C., Figueiredo, S. and Moreno-Garcia, M., 2008. Novo registo de Pinguim (Pinguinus impennis) no Plistocénico de Portugal. Revista Portuguesa de Arqueologia, 11(2), pp.361-370.

Empregabilidade da Paleontologia em Portugal

O site do Mestrado em Paleontologia divulgou os resultados da empregabilidade do Mestrado em Paleontologia que é mantido numa associação entre a Faculdade de Ciências e Tecnologia e a Universidade de Évora.

O Mestrado em Paleontologia tem empregabilidade de 100%! Todos os 16 mestres em paleontologia, graduados entre 2014 e 2017, estão empregados.

De acordo com inquérito individual direto em fevereiro de 2018: 14 (87,5%) dos mestres responderam a ser empregados em instituições relacionados à paleontologia ou em estudos avançados e apenas dois (12,5%) em outras áreas.

Lista de instituições relacionadas à paleontologia onde se encontram os graduados em paleontologia é a seguinte:

Os dados de emprego dos Mestres em Paleontologia indicam 0% de desemprego.
E ainda segundo o mesmo inquérito o tempo médio até encontrar um cargo foi de 3 meses.
Estes dados corrigem a percepção (errada) de que a paleontologia não dá emprego, porventura devido à falta de estudos sobre empregabilidade nesta área.

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Formação da Lourinhã

A unidade geológica conhecida como "Formação da Lourinhã" foi objecto de um artigo científico no último volume da revista Ciências da Terra / Earth Sciences Journal, num trabalho de colaboração entre a Universidade Nova de Lisboa e a Universidade de Coimbra, como base para a saída de campo do congresso Strati em 2013.

 Interpretação paleogeográfica da Bacia Lusitaniana durante o Titoniano inferior (ilustração de Simão Mateus) (Mateus et al., 2017)





Afloramentos de Kimmeridgiano superior do membro de Porto Novo no Vale das Pombas: A, corpo de arenito do canal fluvial dentro da planície de inundação e depósitos de crevasse-splay; B, escavação de dinossauros saurópode; C, detalhe de um canal de arenito com cama cruzada mostrando uma ampla extensão de paleocorrentes


A Formação da Lourinhã é uma formação geológica do Jurássico Superior, Kimmeridgiano a Titoniano (155 a 145 M.a.), localizado no oeste de Portugal, conhecido pela fauna fóssil rica, sobretudo de dinossauros, mas também de tartarugas, crocodilomorfos, mamíferos, lagartos, etc.

A região Oeste é das áreas mais produtivas para os dinossauros e outros vertebrados do Jurássico  Europa, nomeadamente para a Formação da Lourinhã, que é contemporânea com a Formação de Morrison, no centro-oeste da América do Norte.
A fase de rifting Jurássico da Bacia Lusitânica criou várias sub-bacias separados por falhas principais. Na área ocidental e central da bacia, a estrutura de Caldas da Rainha separa três sub-bacias com diferentes características de subsidência e de enchimento: Consolação para a oeste, Bombarral-Alcobaça ao noroeste e Turcifal com a sudeste. A sucessão do Jurássico Superior à base do Cretácico exposta nas arribas costeiras localizadas entre Nazaré e Santa Cruz pertence à Sub-bacia da Consolação, enquanto que os afloramentos costeiros entre Santa Cruz e Ericeira expõe unidades da Sub-bacia do Turcifal.




Fósseis do afloramento Porto Batel (unidade Consolação): A, tartaruga; B, preenchimento de pegada de dinossauro; C. Fuersichella bicornis (Sharpe, 1850) com padrão de cor (ML1804); D, recife com corais  (Mateus et al., 2017).


Para enquadrar as paragens num contexto coerente, dá-se destaque e detalhe às unidades da área visitada. A estratigrafia do Jurássico Superior da bacia é bastante complexa e não existe nenhuma proposta totalmente aceita na generalidade, sendo, por isso, apresentada uma revisão de litostratigrafia, sedimentologia, idade e interpretações ambientais. Interpretações sobre o paleoclima, paleogeografia e tafonomia contribuem para uma descrição geral do ambiente onde os dinossauros viveram e para a compreensão das condições para a sua fossilização e preservação.

Esta descrição das localidades e horizontes desenrola-se de norte para o sul, incidindo sobre os vertebrados, sedimentologia e estratigrafia. A primeira paragem é no Kimmeridgiano superior da Consolação que mostra um paleoambiente marinho pouco profundo a deltaico da Formação de Alcobaça, na qual assenta a Formação da Lourinhã. Mais a sul, o forte de Paimogo permite uma vista panorâmica sobre a Fm. da Lourinhã: para o norte estão os membros Praia da Amoreira - Porto Novo (planície de aluvião costeira inferior, incluindo a parte distal e sistemas fluviais sinuosos; Kimmeridgian superior) e o Membro Praia Azul para o sul (aluvião e planície costeira, com três níveis de carbonato transgressivo e faunas salobra-marinhas distintas; Kimmeridgiano superior e base do Tithonian). Em Paimogo encontra-se os locais onde ovos de dinossauro terópode e um esqueleto saurópode foram recolhidos. A paragem no Museu da Lourinhã permite visitar uma das mais importantes coleções de vertebrados do Jurássico superior na Europa. A última paragem, no Porto da Calada, aborda a parte superior do Membro da Assenta da Formação da Lourinhã (sistema fluvial com meandros e com intercalações de carbonatos de origem lagunar e marinha rasa; do Titoniano superior à base do Berriasiano) e Formação Porto da Calada (sistema fluvial meandrico com os níveis de finos de carbonatos estuarinos e intertidais; do Berriasiano), incluindo assim o limite Jurássico-Cretácico.


Paimogo, nível com primeira transgressão marinha (Mateus et al., 2017)

Sub-bacias sedimentares da Formação da Lourinhã (Mateus et al. 2017, baseado em Taylor et al., 2013).

Localidades de Paimogo e Caniçal com indicação das transgressões marinhas (Mateus et al. 2017)






Referência completa:
Mateus, O., Dinis J., & Cunha P. P. (2017).  Lourinhã Formation: Upper Jurassic to Lowermost Cretaceous of the Lusitanian Basin, Portugal - landscapes where dinosaurs walked. Ciências da Terra / Earth Sciences Journal. 19(1), 75-97.  PDF