sábado, abril 04, 2020

Raros achados de dinossauros herbívoros no Jurássico da Lourinhã

Os paleontólogos descobriram na Lourinhã uma diversidade inesperada de dinossauros herbívoros raros, os ornitópodes, encontrando evidências para novas espécies ainda não batizadas.

Os dinossauros herbívoros, como saurópodes e estegossauros, são comuns no Jurássico Superior de Portugal, há cerca de 150 milhões de anos, e no resto do mundo. Contudo, há um terceiro tipo de herbívoros menos conhecido, muito menos comum nessa época: os dinossauros bípedes denominados ornitópodes. Os fósseis dos ornitópodes jurássicos são muito escassos, mas os cientistas suspeitam que esse grupo terá sido realmente muito mais diverso do que se pensa. "suspeitávamos e agora confirmamos que havia uma diversidade de ornitópodes em Portugal desconhecida até hoje", disse Filippo Maria Rotatori doutorando da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e colaborador do Museu da Lourinhã, que sua dissertação de mestrado em paleontologia decidiu estudar todos os ossos e dentes destes animais na vasta coleção do Museu da Lourinhã, procurando mais pistas sobre esse grupo enigmático. "Estamos a descobrir os primeiros passos de um grupo que, mais tarde, tornou-se bem-sucedido, sendo um dos componentes dominantes dos ecossistemas cretácicos", acrescentou.

Filippo foi orientado pelos paleontólogos da Universidade Nova de Lisboa e Museu da Lourinhã, Octávio Mateus e Miguel Moreno-Azanza, coautores do estudo agora publicado na prestigiada revista internacional de acesso aberto Acta Palaeontologica Polonica.


"Esqueletos completos de ornitópodes são desconhecidos em Portugal, mas com o tempo, o nosso trabalho somava nas coleções do museu local mais de 50 dentes e ossos das arribas jurássicas da Lourinhã" disse Octávio Mateus, que liderou numerosas campanhas de campo ao longo dos anos. “Desses, o ornitópode mais completo, e maior, é o Draconyx loureiroi, um animal que em vida teria mais de 800 kg e está atualmente exposto no Dinoparque Lourinhã” acrescenta. Algumas pegadas sugerem ainda que existiam ornitópodes muito maiores na Lourinhã mas cujos ossos ainda não foram encontrados.










Este estudo demonstrou que durante o Jurássico Superior existiam três espécies de ornitópodes de tamanho pequeno a grande, todos descobertos no concelho da Lourinhã: o Draconyx, o Eousdryosaurus e pelo menos uma outra a ser designada, ou seja, que ainda não tem nome formal reconhecido pelos paleontólogos. Os autores confirmaram a presença de uma espécie não descrita e ainda desconhecida, claramente distinta das outras formas reportadas em Portugal e noutros lugares, permanecendo sem nome e aguardando a descoberta de novos fósseis que permitam a sua descrição. Além disso, os vestígios de alguns dos maiores indivíduos agora encontrados apresentam características anatómicas descritas anteriormente apenas em dinossauros mais recentes. O Filippo Rotatori testa agora se esta evidência, que apoia a ideia de que linhagens como a que inclui os famosos Iguanodon e Parasaurolophus, terão tido a sua origem na Europa.



Draconyx loureiroi Credits: Fabio Manucci, CC BY-NC.

A equipa descobriu que os ornitópodes de pequeno porte mostram proporções peculiares de elementos dos ossos dos membros, sugerindo que não eram animais adultos. "Nós queremos estudar a diversidade de espécies, assim como a paleobiologia dessas criaturas extintas. Procuramos descobrir como eles cresceram e se desenvolveram" afirmou Miguel Moreno-Azanza. Consistentemente com as espécies mais próximas, elas parecem passar por um longo estágio de crescimento contínuo durante sua vida. Isto significa que os ornitópodes tiveram um "período de adolescência" mais longo em comparação com outras espécies.

Os dinossauros ornitópodes de Portugal são interessantes para o estudo das faunas jurássicas, pois são semelhantes aos encontrados noutras partes da Europa, América do Norte e na África Central. Filippo Maria Rotatori quer provar agora a sua tese de doutoramento na mesma universidade, que durante o Jurássico, vários grupos de animais usaram a Ibéria como área charneira para dispersarem por estes diferentes continentes.









Miguel Moreno-Azanza, Filippo Maria Rotatori e Octávio Mateus no Museu da Lourinhã


Filippo Maria Rotatori, Miguel Moreno-Azanza and Octávio Mateus. 2020. New information on ornithopod dinosaurs from the Late Jurassic of Portugal. Acta Palaeontologica Polonica. https://www.app.pan.pl/article/item/app006612019.html

Old bones and new insights

Revealing the evolutionary history of Ornithopoda in Portugal


When it comes to dinosaurs, general public has in mind fearsome creatures like Tyrannosaurus rex or gargantuan long-necked animals like Brachiosaurus. The more experts will probably think of also about weird-looking creatures, like Stegosaurus or Ankylosaurus. Not many, or hardly anyone indeed, will think as first of the small and swift Hypsilophodon foxii or Dryosaurus altus. These animals are not remarkable in terms of size or any other feature, but they belong to a group of dinosaurs which is extremely successful in terms of number of species and temporal span. This group is called Ornithopoda, and comprises some famous dinosaurs such as the tube-crested Parasaurolophus walkeri or the spiked- thumb Iguanodon bernissartensis. These animals started off in the Middle Jurassic as small cursorial animals, and during their evolutionary history progressively increased in size. By the end of the Cretaceous, the group of ornithopods known as Hadrosauridae or duck-billed dinosaurs became an abundant component of the ecosystems and reached tremendous sizes. The Asian species Shantungosaurus giganteus for instance, with its 12 mts in length, could rival T. rex and other large carnivorous dinosaurs!



The diversity of sizes withitn the group Ornithopoda. Artwork from John Conway. Source: Wikipedia. 

But how these small and rare animals became so successful?

Trying to answer this question is the main focus of my PhD project, and among others, I am using Portuguese fossil record to solve this riddle. Recently, we managed to add another piece to this puzzle. The clues come from the Upper Jurassic Lourinhã Formation, outcropping around Lourinhã municipality. Studying the specimens collected by Lourinhã Museum in over 20 years of field-work, I and my co-authors managed to address the diversity of these animal. We studied isolated and fragmentary material, which is usually overlooked but can bear important scientific information.
We identified a quite diverse assemblage of species: some were small dog-sized animals; others were larger, reaching the size of a horse or more. In particular, some exceptionally large specimens caught our attention. Beside the size, we noted some features which closely resemble more species dated to Early Cretaceous than their coeval Late Jurassic relatives. This suggests that Europe may have had key-role in the evolutionary history of this group. To validate this hypothesis, we need to look at their extensive fossil record in its entirety, to find other clues.


The diversity of ornithopod dinosaurs recovered from the Upper Jurassic Lourinhã Formation. In this past ecosystem we identified large species resemble Early Cretaceous species (left) and smaller species (right) which are represented by juveniles. Artwork from Fabio Manucci, used with permission.  CC BY-NC

Further, these remains also allowed us to investigate the biology of Late Jurassic ornithopods. We noted that many of the specimens representing the smaller species in the collections of Lourinhã Museum were juveniles. This may indicate that these animals spent most of their lives in a ‘teenaging’ state, in which they underwent to very fast growth-rate not reaching a fully mature condition. This phenomenon is seen some closely related species. 
Many others questions are left open, which deserve further research in the near future. These are just the first steps of what is promising to be an exciting journey.




Bibliography

sexta-feira, abril 03, 2020

Biomechanics of sauropod dinosaurs

Biomechanics is the study of the structures, motions and mechanical properties of natural organisms. It is applied in different fields to develop new instruments or devices, such as engineering, medical applications, veterinary, etc... An example is the study of the walking abilities of geckos, which brought the scientists to look at the fingers of these lovely reptiles. The fingers are covered with microscopic hairs, or spatulae, each of these hairs generates adhesion force, and the sum of all the microscopic adhesion forces is more than the weight of the animal, allowing it to climb upside down on our ceilings. This application is being developed to produce gloves able to make a man climb on the glass.
  
Here is a photograph of a gecko on a glass.


In palaeontology the biomechanics is mainly used to estimate the forces acting on the bones while the animal was alive, with the aim to reconstruct its ecological niche and as method of comparison. Biomechanics is mainly based on Finite Element Analyses. FEA is a computer process that allows the simulation of the application of a force over a 3D model of an object. The model of the bones, in the case of palaeontology, is divided into microscopic cubes then it is imported into the software. The division in cubes is necessary to allow the computer to perform simple calculations. For each cube of the model, there are six vectorial equations per instant of the simulation, and each model is composed of thousands, or even millions, of cubes. The entire process could take weeks of simulations. The output of the simulation is the stress under which the object is subjected by the force applied. When the stress surpasses the value of resistance of the material of the object, the object breaks. This entire process saves lots of costs, since different simulations can be run on the same object virtually breaking it infinite times. The use of computer simulations in palaeontology is the only way to estimate these forces, since the original material components of the bones have been replaced during fossilization, in fact, if we would use a real fossil to perform the analyses we would obtain results coinciding with the properties of the rocks which compose the fossil, with no real meaning.


Simulation of an oscillation of a beam. The brighter the color the major deformation is affecting the beam



Why should we be interested in breaking sauropod dinosaur bones?


Sauropoda is a clade of dinosaurs that evolved during the Late Triassic, surviving to the latest Cretaceous, being among the most successful animal that ever inhabited Earth. Sauropod dinosaurs are one of the most intriguing and famous dinosaurs, characterized by their long neck, tails, and enormous bodies. These animals have achieved the largest dimensions among terrestrial vertebrates (Curry & Wilson, 2005). Only a few animals have achieved dimensions comparable to little/medium-sized sauropods: some species of hadrosaurid (duck-billed) dinosaurs and a handful of species of mammals. A comparable size nowadays would be an airliner of middle dimensions, and still, the masses of airliners would be smaller than the ones of some species of sauropod dinosaurs.


Estimated masses of a moose, an elephant a Tyrannosaurus rex, and different sauropod dinosaurs compared to a Boeing airliner.



Sauropod remains have been found in every continent and they reached the greatest diversity during the Late Jurassic, when different lineages were sharing the same environments. Despite at first sight the sauropod dinosaurs may seem all similar, sharing the elongated neck, tail and round bodies supported by columnar limbs, their shapes changed a lot during their evolution and created different lineages. The most diverse group and the longest to survive have been the Titanosauria, a group of sauropod dinosaurs that evolved from the Macronaria, during the Late Jurassic and survived to the end of the Mesozoic. This group of animals has achieved the largest dimensions among terrestrial vertebrates, with estimated masses more than 50 tonnes. The Macronaria, from which descends all the titanosaurian sauropods, includes one of the most famous dinosaur: Brachiosaurus. These taxa of sauropod dinosaurs are estimated to have maintained the neck in an inclined position, between 30° and 45°. Among Macronaria have been found also the smallest sauropod dinosaurs, like Europasaurus holgeri Sander et al., 2006, a relative of Brachiosaurus that inhabited Europe during the Late Jurassic, and the littlest sauropod known, Majarosaurus dacus (von Nopcsa, 1915), an insular dwarf titanosaur that inhabited Europe during the Late Cretaceous, that is estimated to weigh around 900kg as an adult. Though the most famous group of sauropod dinosaurs may be considered the family of Diplodocidae, with Diplodocus and the renowned Brontosaurus. This family was most diverse during the Late Jurassic, but went extinct during the Early Cretaceous. The neck of these animals shows different adaptations compared to other sauropods, and it is estimated that the neck was held in a near-horizontal position, parallel to the ground, opposite to an elongated tail. The tail was elongated, counting up to 82 elements, and a joint study of engineers and paleontologists (Myrvhold & Currie, 1997) showed that the tail was able to reach supersonic speeds, hypothesizing the use as defensive weapon or sound maker device. 

These animals are extremely fascinating, having survived for more than 150 million years, being subjected to the pressure of natural selection and evolved in the largest terrestrial animals as well as evolved in insular dwarf forms. We, as a team, are interested to investigate how their skeleton was able to sustain such large bodies, and how the shape of the bones may have helped them be so successful in their evolutionary history.

References:
Curry Rogers, K., Ericsson, G.M., 2005. Sauropod histology. In: Curry Rogers, K.A.,Wilson, J.A. (Eds.), The Sauropods, Evolution and Paleobiology. University of California Press, Berkeley, pp. 303–326.
Lacovara, K., Lamanna, M., Ibiricu, L. et al. A Gigantic, Exceptionally Complete Titanosaurian Sauropod Dinosaur from Southern Patagonia, Argentina. Sci Rep 4, 6196 (2015). https://doi.org/10.1038/srep06196
Myhrvold, N., & Currie, P. (1997). Supersonic sauropods? Tail dynamics in the diplodocids. Paleobiology, 23(4), 393-409. doi:10.1017/S0094837300019801
Sander, P., Mateus, O., Laven, T. et al. (2006). Bone histology indicates insular dwarfism in a new Late Jurassic sauropod dinosaur. Nature 441, 739–741. https://doi.org/10.1038/nature04633

Nopcsa, F (1915). "Die Dinosaurier der siebenburgischen Landesteile Ungarns". Ungar. Geol. Reichsanst. 23: 1–26.


sexta-feira, março 27, 2020

Gruta na Arrábida mostra que os Neandertais também eram pescadores

Gruta na Arrábida mostra que os neandertais também eram pescadores. Além de alimentos de origem terrestre, os neandertais comiam peixes ósseos, tubarões, golfinhos, focas, tartarugas, imensos moluscos, e caranguejos conforme os registos da Gruta da Figueira Brava, na Arrábida, que datam de 86 a 106 mil anos atrás.
Sabia-se que os humanos neandertais eram exímios caçadores e comiam carne, mas este novo estudo em Portugal publicado na Science revela evidências de que os neandertais do Paleolítico Médio exploravam os recursos marinhos em escala semelhante à moderna Idade Média da Pedra associada à humanidade da África Austral.
O artigo “Last Interglacial Iberian Neandertals as fisher-hunter-gatherers” é assinado pelo famoso arqueólogo João Zilhão e seguido por D. E. Angelucci, M. Araújo Igreja, L. J. Arnold, E. Badal, Pedro Callapez, João Luis Cardoso, F. d’Errico, J. Daura, M. Demuro, M. Deschamps, C. Dupont, S. Gabriel, D. L. Hoffmann, Paulo Legoinha, H. Matias, A. M. Monge Soares, M. Nabais, P. Portela, A. Queffelec, F. Rodrigues, P. Souto. Vale a pena ler o artigo ver o material complementar de 171 páginas.
A familiaridade com o mar e seus recursos pode ter sido generalizada para os residentes no Paleolítico Médio. Essas descobertas acrescentam dimensões mais amplas à nossa compreensão do papel dos recursos aquáticos na subsistência dos seres humanos paleolíticos.

Gruta da Figueira Brava, na Arrábida (foto em Zilhão et al., 2020).
O curioso é que falta um registro da exploração regular de alimentos aquáticos na Europa neandertal embora os recursos marinhos aparecem com destaque ao lado de ornamentos pessoais, pintura corporal e desenhos geométricos lineares - na arqueologia no último interglacial africano.
A margem atlântica da Europa possui águas costeiras ricas em recursos. Da Escandinávia à França, no entanto, qualquer evidência para a última exploração interglacial de recursos marinhos teria sido perdida pelos subsequentes avanços da calota de gelo e pela submersão pós-glacial da ampla plataforma continental. Por outro lado, a plataforma muito íngreme da Arrábida, uma cadeia montanhosa do litoral 30 km ao sul de Lisboa, Portugal, permitiu que linhas costeiras existentes e submersas fossem preservadas a distâncias curtas. A Gruta da Figueira Brava, um dos locais de cavernas costeiras protegidas contra a erosão da Arrábida, oferece uma oportunidade singular para investigar se alguma acumulação considerável de restos de alimentos marinhos na Última Interglacial já existiu na Europa.
Figueira Brava fornece o primeiro registro de consumo significativo de recursos marinhos entre os neandertais da Europa. Os vieses tafonómicos e de preservação do local explicam por que esse tipo de registro não foi encontrado anteriormente na Europa na escala observada entre as populações africanas. Consistentes com evidências rapidamente acumuladas de que os neandertais possuíam uma cultura material totalmente simbólica, as evidências de subsistência relatadas aqui questionam ainda mais a lacuna comportamental que se pensava separá-los dos humanos modernos.

Veja nas notícias:
https://www.altmetric.com/details/78403527/news
https://science.sciencemag.org/content/367/6485/eaaz7943



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quinta-feira, março 26, 2020

Introduction to modern amphibians


Introduction to modern amphibians
Let’s talk about amphibians! When it comes to those cute, little animals, living both in water and on land, everyone has in mind the small frogs and salamanders that dwell in ponds and rivers. One can also consider the newts or the unique axolotl, an animal keeping a neotenic form. Few would include those limbless worm-like animals, the caecilians. However, if identifying amphibians may seem trivial nowadays, because of their peculiar characteristics, such as their ontogeny, the actual term “Amphibia” appears to be quite loose in systematics.
Here is the first article of a series that will present you the coolest vertebrates and all the problematic brought by this group.
Figure 1: Some example of modern amphibians. Clockwise, a South American caecilian, a fire salamander, Paedophryne amauensis (the smallest vertebrate known), a common reed frog, a Pacific newt, and an axolotl.

I)              An obscure definition for a mysterious clade: problematic in taxonomy.
First, we need to understand what an amphibian is. Amphibia comes from the Greek ἀμφίβιος (amphíbios), which “both kinds of life” or “living on both sides”. For a long time, it was used to describe animals that could reside at once in water and on land. However, taxonomic problems quickly rose with this wide application. On the one hand, it appeared that modern “amphibians” were closely related together than with any tetrapod group, forming a clade then named Lissamphibia. And on the other hand, more and more fossil taxa were identified as “amphibians”, the term referring then to any non-amniote tetrapod.
In other words, Amphibia became, sensu lato, a paraphyletic grade, including Lissamphibia, but also temnospondyls, lepospondyls, and all the stem-tetrapod taxa (which illustrate the transition from water to land, such as Ichthyostega or Acanthostega). Since then, biologists and paleontologists are not agreeing on what should be called “Amphibia”. Nonetheless, common ground can be found.
Figure 2: Evolution of Amphibia taxonomy. On top, the old-fashion way, where Amphibia (dark purple) was referring to all animals living both in water and on land, and can be used in ecological context (=amphibious). On bottom, the necessity to respect taxonomy and splits the groups of stem-tetrapods (blue) and stem-amniotes (red), and where Amphibia is synonymous of Batrachomorpha, the most inclusive clade containing Lissamphibia (light purple) and their stem-taxa. Modified from Benton, 2014.

From an ecological point of view, it is still acceptable to refer to “amphibians” for animals sharing this unique way of life. However, it would require distinguishing stem-tetrapods, stem-lissamphibians, and stem-amniotes. Also, since they are not the only vertebrates to have adopted the environment of the land-water interface through Evolution (nowadays, seals and crocodiles illustrate such adaptations), some authors would rather refer to them as “amphibious taxa” (van der Valk, 2012).
And from a systematic point of view, Amphibia would now be defined to include lissamphibians and their stem-groups, which would make it synonymous of Batrachomorpha. On the same note, Lissamphibia will then be comprised by all modern taxa and their stem relatives, namely Apoda (the caecilians), Salientita (frogs), and Urodela (salamanders and newts). Some authors argue that the extinct Albanerpetontidae would also be part of Lissamphibia.
II)            An overview of Lissamphibia.
Lissamphibians are represented today by over 8,000 species (AmphibiaWeb, 2020), with a worldwide distribution with the exception of Antarctica. Although the biggest diversity is observed in tropical regions, some species extant up to the North Pole and down to Tierra del Fuego, the meridional-most point of South America. Among the most common features shared by lissamphibians are the four digits or double occipital condyles, but those characteristics are also found in non-lissamphibian fossils.
Nonetheless, molecular analysis strongly supported both the group’s monophyly and its position as sister-group of amniotes. On top of that, lissamphibians shared a set of physiological, ecological and osteological autapomorphies:
1.     they are ectotherm animals, which means they rely mostly on environment to control the heat of their temperature;
2.     their skin is rich in glands with a thin stratum corneum (the outermost layer of epidermis);
3.     their eyes are covered by an eyelid;
4.     they have a tricameral heart, with three chambers: two atria and one ventricle;
5.     their ontogeny involves a larval stage with external gills going through metamorphosis, and therefore a biphasic life-cycle;
6.     their skeleton is poorly ossified, either because of loss, reduction or fusion of the bones, notably in the skull;
7.     their gonads have large fat bodies, used as an extra source of energy;
8.     their teeth are bicuspid, usually with attached to the inner jaw (pleurodonty), where the crown and the root are not fused but connected by fibrous poorly mineralized tissue (pedicelly), giving flexibility;
9.     they have a canalis perioticus, a channel that connects the perilymphatic sac and the perilymphatic cistern in the inner ear
10.  they have a papilla amphibiorum, which is the second sense receptor in the inner ear and works within 600 to 1000 Hz range;
11.  the radius and the ulna articulate with a single enlarged, ossified structure on the humerus (radial condyle).
Figure 3: Pedicellate teeth, as represented by the three modern amphibian orders. A, the salamander Amphiuma means. B, the caecilian Gymnopis mexicanus. C, the frog Rana occipitalis. D, the leptodactylid frog Calyptocephalus gayi. From Carroll, 2009.
Among additional features, can be noted the intermaxillary glands, the short ribs and the palatal opening between the pterygoid and the parasphenoid, but those also occurred in other Paleozoic taxa, such as temnospondyls.
Next time, we’ll see the different groups that constitute Lissamphibia.

Bibliography and recommended sources
AmphibiaWeb. 2020. Browse by Family. AmphibiaWeb. Available at http://amphibiaweb.org:8000/lists/index.shtml. Accessed March 24, 2020.
Benton, M. J. 2014. Vertebrate Palaeontology, 4th ed. John Wiley & Sons, Chichester, 480 pp.
Carroll, R. L. 2009. The Rise of Amphibians: 365 Million Years of Evolution. Johns Hopkins University Press, Baltimore, MD, 544 pp.
Schoch, R. R. 2014. Amphibian Evolution: The Life of Early Land Vertebrates. John Wiley & Sons, Oxford, 276 pp.
van der Valk, A. 2012. The Biology of Freshwater Wetlands, 2nd ed. Oxford University Press, New York City, NY, 296 pp.


segunda-feira, março 09, 2020

Apenas mudaram 2ºC durante a extinção dos dinossauros (e já subiu 0.6ºC nos últimos 140 anos)

Durante a extinção dos dinossauros a temperatura da Terra mudou apenas 2ºC e nos últimos 140 já mudou cerca de 0.6ºC. Num recente artigo publicado na Science sobre alteração do ecossistema e paleoclimas que resultaram extinção dos dinossauros são discutidas as hipótese do impacto de meteoro e vulcanismo no final do Cretácico e início do Paleogénico, a fronteira K-Pg. Nesse trabalho, assinado por 36 autores (Hull et al. 2020), executaram várias simulações de temperatura com base em diferentes cenários de emissão de gases vulcânicos e comparam com registros de temperatura no evento de extinção. Quando combinados com outras linhas de evidência, esses modelos apoiam uma extinção causada por impacto. No entanto, os gases vulcânicos podem ter desempenhado um papel na formação do surgimento de diferentes espécies após o evento de extinção.

Mas o que é interessante é que a variação de temperatura (delta) no Cretácico/Paleogénico de apenas 2ºC durante 200.000 anos. Pode parecer pouco mas é uma variação que está associada a uma extinção em massa e que arrasou com os dinossauros não avianos.


Temperatura no final do Cretácico e início do Paleogénico. Apenas 2ºC estão associados à extinção dos dinossauros. (Hull et al., 2020)

Variações da temperatura durante Holocénico na Terra em comparação com a média histórica (1961-1990), mostrando um pico moderno que rompeu as linhas de tendência. Fonte: S. Marcott, Science, 2013.
Com dados para os últimos 11.000 anos a temperatura variou cerca de 1ºC. Marcott et al. (2013) mostraram que a temperatura média tem estado a cair nos últimos 7000 anos, mas teve um crescimento abrupto nos últimos dois séculos. Para obter estes valores usaram vários indicadores (proxies), mas temos resgisto de medições directas desde 1880 que indicam que a anomalia de temperatura de cerca de 0.6ºC em apenas 140 anos.
No Cretácico/Paleogénico a variação foi de 2ºC durante 200.000 anos e foi quando os dinossauros se extinguiram, ou seja. muito menos abrupta que a alteração actual.



Anomalia de temperatura (ºC) (fonte: NASA)




Hull, P. M., Bornemann, A., Penman, D. E., Henehan, M. J., Norris, R. D., Wilson, P. A., ... & Bralower, T. J. (2020). On impact and volcanism across the Cretaceous-Paleogene boundary. Science, 367(6475), 266-272.
Marcott, S. A., Shakun, J. D., Clark, P. U., & Mix, A. C. (2013). A reconstruction of regional and global temperature for the past 11,300 years. science, 339(6124), 1198-1201.


sexta-feira, fevereiro 28, 2020

Anquilossauro português é o mais completo do Jurássico

Anquilossauro português é o mais completo do Jurássico


No passado mês de Outubro, tivemos o privilégio de participar no mais importante congresso internacional de Paleontologia de Vertebrados, organizado pela Society of Vertebrate Paleontology, e que, em 2019, decorreu em Brisbane, na Austrália. Estes eventos são sempre uma excelente oportunidade de apresentação dos últimos avanços científicos nesta área e troca de ideias entre pares, bem como possíveis colaborações com colegas de todo o mundo. Além disso, é sempre um prazer rever amigos de longa data e iniciar novas amizades.

A estadia durou três semanas e foi muito produtiva, desde logo pela divulgação dos primeiros resultados do nosso trabalho que tem vindo a ser desenvolvido durante um projecto de doutoramento que se foca num espécime de dinossauro anquilossauro do Jurásscio Superior, descoberto em 2012 nas arribas costeiras de Mafra (resumo disponível aqui). Foi também possível aceder às colecções do Museu de Queensland e do Museu Australiano, em Sydney, de modo a observar exemplares de anquilossauros australianos, estes do Cretácico Inferior, nomeadamente o anquilossauro mais completo do Hemisfério Sul e o mais primitivo (Arbour e Currie, 2016), o Kunbarrasaurus ieversi Leahey et al. 2015. Esta investigação foi ainda distinguida com uma bolsa de viagem para estudantes oferecida pela SVP, a Jackson School of Geosciences Student Member Travel Grant, que permitiu a deslocação à Austrália.

Esquerda: o estudante de doutoramento da FCT-NOVA João Russo posa junto ao poster com os primeiros resultados do novo exemplar (foto: Alexandre Guillaume); Direita: observação de espécimes de anquilossauro nas reservas do Museu de Queensland (foto: Kristen Spring).
Estes dinossauros são extremamente raros a nível mundial no Jurássico Superior, existindo não mais que uma mão cheia de exemplares, praticamente todos dos EUA. Em Portugal já era conhecido um exemplar deste grupo, que pode ser visitado no Museu Geológico, em Lisboa, e que em 1980 (Galton) recebeu o nome científico de Dracopelta zbyszewskii ("draco", do Latim "dragão"; "pelta", do Latim "escudo", alusivo um pequeno escudo utilizado por soldados da Grécia Antiga; "zbyszewskii" homenageia Georges Zbyszewskii, um dos mais prolíficos e importantes geólogos e paleontólogos durante o século XX em Portugal). 

O novo espécime, que faz parte das colecções da FCT-NOVA, é o segundo de anquilossauro para Portugal e encontra-se articulado, preservando pelo menos metade do esqueleto. Uma ocorrência como esta é extremamente rara e requereu um intenso trabalho de preparação laboratorial de modo a revelar tudo o que se esconde debaixo da matriz rochosa, que ainda decorre no laboratório do Museu da Lourinhã e um processo que contou também com a colaboração dos laboratórios da FCT-NOVA e do Parque dos Dinossauros da Lourinhã. E os primeiros resultados são extraordinários. O esqueleto está mais completo do que inicialmente se pensara, com a maior parte do esqueleto axial articulado, faltando apenas parte da cauda. Acresce ainda ossos dos membros, nomeadamente ambos os fémures e o úmero direito, bem como parte das cinturas pélvica e escapular (leia-se, ílio e escápulocoracóides, respectivamente). Mas, provavelmente, o elemento mais importante é a presença do crânio praticamente completo, algo único no registo fóssil português para dinossauros. Crânios deste tipo de dinossauros para o Jurássico são extremamente raros, conhecendo-se apenas outro, nos EUA. A nossa investigação conclui assim que se trata do mais completo esqueleto de anquilossauro da Europa e, para o Jurássico, do mais completo até agora conhecido no mundo. É também o dinossauro mais completo de Portugal. Desconhece-se ainda com exactidão, contudo, se este será um segundo espécime de Dracopelta zbyszewskii, ou uma nova espécie para a Ciência.

Representação aproximada do esqueleto (FCT-UNL 702) com os ossos conhecidos até agora a vermelho. Adaptado de Scott Hartman, 2011.
Este dinossauro apresenta um conjunto de características que o tornam muito importante para compreensão da evolução deste grupo de dinossauros, na medida em que as análises preliminares efectuadas indicam uma posição na árvore filogenética deste grupo muito próxima da divisão entre os dois principais ramos de anquilossauros, os anquilosaurídeos (caracterizados pela moca na cauda, como por exemplo o Ankylosaurus) e os nodosaurídeos (caracterizados por grandes espinhos laterais e sem moca na cauda, tais como o Nodosaurus ou o Polacanthus). De realçar as importantes implicações que a descrição deste dinossauro poderá vir a ter também na dispersão global dos anquilossauros e o papel central da Ibéria durante o Jurássico Superior.

Abaixo transcreve-se o resumo apresentado no congresso:


"Ankylosaurs are very rare in Upper Jurassic and their record is restricted to five genera. Among them, is the poorly known incertae sedis Dracopelta zbyszewskii from the Upper Tithonian of Portugal.
Here we present a new specimen recovered in the coastal cliffs near the beach of Porto da Calada, about 40 km North of Lisbon, in a light gray, fine to medium grained sandstone, close to the top of the Lourinhã formation, Upper Tithonian. It consists of a nearly complete skull, with maxillary teeth, at least eleven articulated dorsal vertebrae with proximal half of ribs, ten articulated anterior caudals, mostly complete and articulated synsacrum, several fragments of disarticulated and broken ribs, both femora articulated in the acetabulum, partial ilia with attached pelvic shield, right humerus missing the proximal end, partial right scapulocoracoid, over 180 osteoderms (lateral, caudal and dorsal, most in situ) of various size (0.5-18 cm), at least 40 ossified tendons mostly attached to the vertebrae, and partial pelvic shield. This specimen (FCT-UNL 702), still under preparation, is one of the most complete Jurassic ankylosaurs.
Many of the ankylosaurian traits are present: medially inset maxillary tooth row; dorsal expanded proximal T-shaped ribs; posteriormost dorsal vertebrae fused to form a rod; horizontal hypertrophied preacetabular process, showing attachment scar of a posterior dorsal rib; robust humerus with deltopectoral crest extending mid shaft; distally positioned ridge-shaped fourth trochanter; extensive dermal armor (scutes, lateral plates and pelvic shield); and large hollow-based lateral plates.
The femoral head is separated from greater trochanter by a distinct slope which is diagnostic of Nodosauridae, but contrary to these, the posterior width of the skull is twice the width across the orbits. The phylogenetic position of the Portuguese specimen is not yet fully understood, but likely close to the split between the two major clades: Nodosauridae and Ankylosauridae. Also, it is still unclear if this is a second specimen of the sympatric and coeval
D. zbyszewskii."

Referências:



Arbour, V. M., and Currie, P. J. 2016. Systematics, phylogeny and palaeobiogeography of the ankylosaurid dinosaurs, Journal of Systematic Palaeontology, 14(5), 385-444. https://doi.org/10.1080/14772019.2015.1059985 


Galton, P. M. 1980. Partial skeleton of Dracopelta zbyszewskii n. gen. and n. sp., an ankylosaurian dinosaur from the Upper Jurassic of Portugal. Geobios, 13(3), 451-457. https://doi.org/10.1016/S0016-6995(80)80081-7

Leahey, L. G., Molnar, R. E., Carpenter, K., Witmer, L. M., and Salisbury, S. M. 2015. Cranial osteology of the ankylosaurian dinosaur formerly known as Minmi sp. (Ornithischia: Thyreophora) from the Lower Cretaceous Allaru Mudstone of Richmond, Queensland, Australia. PeerJ 3:e1475.https://peerj.com/articles/1475/


terça-feira, fevereiro 18, 2020

José Fernando Bonaparte (1928-2020), o Mestre do Mesozóico

Faleceu hoje o paleontólogo José Bonaparte.

José Fernando Bonaparte (1928-2020) Fonte
José Fernando Bonaparte (Rosario, Santa Fe , Argentina, 14 de junho de 1928 - 18 de fevereiro de 2020) foi um paleontólogo argentino que descobriu muitos dos dinossauros da América do Sul e estudou fósseis um pouco por todo o mundo. Esteve em Portugal em 1998 quando estudou o dinossauro saurópode de Porto Dinheiro, o Dinheirosaurus lourinhanensis Bonaparte e Mateus 1999. Era do Conselho Científico do Museu da Lourinhã.
Bonaparte era filho de um marinheiro italiano, sem nenhuma ligação próxima com a família de Napoleão Bonaparte. Apesar da falta de treino formal em paleontologia , ele começou a recolher fósseis com muitos amigos desde cedo e criou um museu na sua cidade natal. Mais tarde, ele tornou-se o curador da Universidade Nacional de Tucumán , onde foi nomeado Doutor Honoris causa em 1976 e, no final dos anos 70, tornou-se o paleontólogo no Museu Argentino de Ciências Naturais em Buenos Aires.



https://en.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Bonaparte
https://species.wikimedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Fernando_Bonaparte 


José Bonaparte na Lourinhã em 1998, em conjunto com outros paleontólogos


Vértebras desenhadas pelo próprio José Bonaparte do dinossauro saurópode de Porto Dinheiro, o Dinheirosaurus lourinhanensis Bonaparte e Mateus 1999.