terça-feira, fevereiro 18, 2020

José Fernando Bonaparte (1928-2020), o Mestre do Mesozóico

Faleceu hoje o paleontólogo José Bonaparte.

José Fernando Bonaparte (1928-2020) Fonte
José Fernando Bonaparte (Rosario, Santa Fe , Argentina, 14 de junho de 1928 - 18 de fevereiro de 2020) foi um paleontólogo argentino que descobriu muitos dos dinossauros da América do Sul e estudou fósseis um pouco por todo o mundo. Esteve em Portugal em 1998 quando estudou o dinossauro saurópode de Porto Dinheiro, o Dinheirosaurus lourinhanensis Bonaparte e Mateus 1999. Era do Conselho Científico do Museu da Lourinhã.
Bonaparte era filho de um marinheiro italiano, sem nenhuma ligação próxima com a família de Napoleão Bonaparte. Apesar da falta de treino formal em paleontologia , ele começou a recolher fósseis com muitos amigos desde cedo e criou um museu na sua cidade natal. Mais tarde, ele tornou-se o curador da Universidade Nacional de Tucumán , onde foi nomeado Doutor Honoris causa em 1976 e, no final dos anos 70, tornou-se o paleontólogo no Museu Argentino de Ciências Naturais em Buenos Aires.



https://en.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Bonaparte
https://species.wikimedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Fernando_Bonaparte 


José Bonaparte na Lourinhã em 1998, em conjunto com outros paleontólogos


Vértebras desenhadas pelo próprio José Bonaparte do dinossauro saurópode de Porto Dinheiro, o Dinheirosaurus lourinhanensis Bonaparte e Mateus 1999.  



quinta-feira, fevereiro 13, 2020

Moedas com dinossauros

Moedas de dinossauros? Em Portugal ainda não há nenhuma moeda que aborde o riquíssimo património geológico nacional, mas noutros países isso já existe: a Áustria está a lançar uma colecção que começa com uma magnífica moeda de 3€ com o Spinosaurus. Uma moeda com cor e fluorescente no escuro. O Canadá tem uma moeda de $20 dólares canadianos com o Tyrannosaurus rex, a África do Sul emitiu 25 Rand com Euparkeria, e o Reino Unido acabou de anunciar 0.5£ pence de libra com Megalosaurus, Hylaeosaurus e Iguanodon
Moeda de 3€ emitida pela Áustria em 2019 com o Spinosaurus.


Estes são apenas alguns exemplos, mas há vários países com moedas de dinossauros.
Muitos não saberão, mas além das regulares moedas de euro, também existem edições especiais de moedas portuguesas de 5€, 2.5€, e 1.5€. Os temas são diversos: descobrimentos, história, desporto, personagens históricas, património, instituições, e outros temas sem deixar escapar a religião nacional: o futebol. As de história natural são raras, mas existe uma edição de moedas de 5€ dedicada ao lince-ibérico, lobo-ibérico, água imperial e floresta laurisilva.
Moeda de 25 Rand, em prata, com Euparkeria.

Tendo em conta a nossa riqueza paleontológica, quando será que a Imprensa Nacional Casa da Moeda emite uma moeda com um dinossauro ou outro fóssil nacional?

Nova espécie de cavalinha fóssil com 303 milhões de anos e nome dedicado a João Pais

Fóssil português de uma nova espécie de planta, semelhante às cavalinhas actuais, e respectiva galha revelam novidades sobre a relação entre plantas e insectos há cerca de 300 milhões de anos.

As cavalinhas são plantas com uma linhagem histórica muito antiga, com registo fóssil desde o Devónico Superior até à actualidade, existindo em abundância em Portugal nos dias de hoje. Num novo artigo liderado por Pedro Correia, é descrita uma nova espécie de cavalinha de São Pedro da Cova do Pensilvânico superior de Portugal que recebeu o nome Annularia paisii dedicada ao paleontólogo João Pais, especialista em plantas fósseis da Universidade Nova de Lisboa.



Annularia paisii Correia et al. (2020) e sua galha induzida por insecto (reconstrução de Andrey Atuchin)

Uma das curiosidades desta espécie é que tinha uma galha, ou seja, uma reacção da planta induzida por insectos, fungos, bactérias, ou outros indutores. As cavalinhas (sensu Equisetopsida ou Sphenopsida) tal como a maioria das plantas reagem a ataques de insectos formando galhas. Os grandes bugalhos das azinheiras são porventura as galhas mais conhecidas em Portugal.

Annularia paisii tinha uma galha, induzida por insetos, até agora desconhecida que também recebe um nome de icnoespécie (Paleogallus carpannularites). Isto mostra a existência de complexas relações insecto-plantas há 303 milhões de anos e reitera a importância do registo fóssil do carbonífero português. Os padrões de herbivoria de insectos e outros artrópodes nas cavalinhas são pouco conhecidas mas foram agora abordados neste novo artigo publicado no International Journal of Plant Sciences em que documentam 315 milhões de anos de relações de herbivoria de cavalinhas por artrópode.


Artigo
Pedro Correia, Arden R. Bashforth, Zbynĕk Šimůnek, Christopher J. Cleal & Artur A. Sá, and Conrad C. Labandeira (2020). The history of herbivory on sphenophytes: a new calamitalean with an insect gall from the Upper Pennsylvanian of Portugal and a review of arthropod herbivory on an ancient lineage. International Journal of Plant Sciences. https://www.journals.uchicago.edu/doi/pdfplus/10.1086/707105

Annularia paisii Correia et al. (2020)
Resumo:
Premise of research. Sphenophytes are a modestly diverse lineage of vascular plants with a persistent record extending from the late Paleozoic to present. However, patterns of arthropod herbivory on sphenophytes are poorly known, attributable to a scattered literature, which we address in this report. Methodology. We document the 315 million-year-long record of sphenophyte– arthropod herbivory by focusing on the bookends, namely the Pennsylvanian and present day. We add to this milieu a gall association on a newly described sphenophyte from the Upper Pennsylvanian of Portugal. Pivotal results. Earliest known sphenophyte herbivory is Early Pennsylvanian, when virtually all interactions involved piercing-and-sucking damage by stylate insect mouthparts and lesions from cutting-and-slicing ovipositors. An exception is a new calamitalean (Annularia paisii sp. nov.) that harbored a new insect-induced gall (Paleogallus carpannularites ichnosp. nov.), similar to a modern fern gall. This discovery suggests that Late Pennsylvanian interactions were more diverse than previously suspected. By the end of the Pennsylvanian, the component community of one whole-plant calamitalean species had 12 damage types (DTs), only one of which was non-puncturing damage. Shifts to external foliage feeding, mining, and galling are evident during the Late Triassic. A Middle Jurassic renewal of interactions was followed by a decrease in documented DTs present in the Cretaceous and Cenozoic. Fifteen modern species of the genus Equisetum, the sole surviving lineage, exhibit four herbivory patterns. First, almost all documented herbivory is confined to the seven species of Equisetum (horsetails), not subgenus Hippochaete (scouring rushes). Second, there are diversification events of four genera of herbivores – a beetle, two sawflies and a fly – on subgenus Equisetum. Third, this arthropod herbivory is approximately evenly split among monophagy, oligophagy, and polyphagy. Fourth, the herbivore component community of Equisetum arvense L. (field horsetail) is diverse, representing ten major feeding modes, comparable to a modern angiosperm species, considerably more than that of Pennsylvanian calamitaleans. Conclusions. Pennsylvanian sphenophytes supported few folivores, followed by a major shift in the modes of sphenophyte herbivory after the Paleozoic. Considerable modern herbivory is localized on E. arvense.

Annularia paisii Correia et al. (2020)

Em 2017, o Professor João Pais já tinha sido honrado com o género Paisia, uma eudicotiledónea do Cretácico Inferior, publicado por Else Marie Friis e colegas.
Ref:
Else Marie Friis, Mário Miguel Mendes & Kaj Raunsgaard Pedersen (2018)
Paisia, an Early Cretaceous eudicot angiosperm flower with pantoporate pollen from Portugal,
Grana, 57:1-2, 1-15, DOI: 10.1080/00173134.2017.1310292


sexta-feira, janeiro 31, 2020

Turquia e a paleontologia de vertebrados

Paleontologia de vertebrados da Turquia é o nosso foco de hoje devido a uma visita recente lá. A Turquia é um país enorme, com 783.000 km2, dominado por rochas sedimentares, por vezes muito ricas em fósseis.

Uma rápida lista não exaustiva baseada no FossilWorks permite ver a existência e diversidade dos amniotas, sendo de destacar a riqueza de mamíferos do paleogénico (66 a 23 Ma.).

Tabela com os amniotas fósseis da Turquia:

Mesozoic
Paleogene
Neogene 
Quaternary
Reptilia
Psephosaurus, Mosasaurus hoffmanni, Turcosuchus okani
Bavarioboa, Ophisaurus, Trionyx
Blanus strauchi, Clemmydopsis turnauensis, Eoanilius oligocenicus, Mauremys caspica, Phalacrocorax anatolicus, Testudo graeca, Titanochelon bolivari, Trionyx triunguis, Varanus marathonensis
Struthio
Mammalia
Labes
22 genera
43 species
116 genera
122 species

43 genera 
31 species 


O Museu MTA (Mineral Research and Exploration) em Ankara tem uma maravilhosa colecção de fósseis de invertebrados a humanos, do Triásico ao quaternário. Merece destaque a coleção de mamíferos do Oligocénico, nomeadamente o enorme Paraceratherium, um dos maiores mamíferos terrestres do mundo, familiar dos rinocerontes.

Paraceratherium, um dos maiores mamíferos terrestres do mundo, familiar dos rinocerontes. Fonte das imagens: Images: Esquerda: ABelov2014; Superior Direita: Octávio Mateus. Inferior Direita: Steveoc 86  

Mapa geológico da Turquia (fonte: mta.gov.tr)


Outra colecção muito interessante encontra-se num museu (por vezes fechado e inacessível) na Universidade Técnica de Istambul [İstanbul Teknik Üniversitesi], que foi fundada em 1773. Lá encontra-se o crocodilo Hylaeochampsidae Turcosuchus okani e uma vértebra de um grande ictiossauro inédito.

Portanto, a Turquia não tem dinossauros ainda, mas tem  placodontes em Kupe Dag (Beltan et al, 1979), mosassauros em Beyler Dam (Bardet & Tunoglu, 2002), crocodilos em Gelik (Jouve et al. 2018) e ictiossauros inéditos. São sobretudo animais marinhos, mas descobrir dinossauros é apenas uma questão de tempo e esforço.

N. Bardet and C. Tunoglu. 2002. The first mosasaur (Squamata) from the Late Cretaceous of Turkey. Journal of Vertebrate Paleontology 22(3):712-715 
L. Beltan, P. Janvier, O. Monod and F. Westphal. 1979. A new marine fish and placodont reptile fauna of Ladinian age from southwestern Turkey. Neues Jahrbuch für Geologie und Paläontologie, Monatshefte 1979(5):257-267
 S. Jouve, V. Sarigül, J.-S. Steyer and S. Sen. 2018. The first crocodylomorph from the Mesozoic of Turkey (Barremian of Zonguldak) and the dispersal of the eusuchians during the Cretaceous. Journal of Systematic Palaeontolog.

Agradeço muito a Tolgahan Suat Sezen, Alperen Yüksel, Erkan Selim Koç, Ali Koç, Özgül Koç, Muhammed Sami Us e Volkan Sarıgül

segunda-feira, janeiro 20, 2020

Portugal é o 16º país com mais artigos científicos por habitante

No ano de 2018 os cientistas portugueses foram autores de 22.105 artigos científicos, colocando Portugal no 16º país com mais publicações per capita. Os dados correspondem aos artigos científicos indexados pela Scopus segundo os dados analisados pela National Science Foundation, dos Estados Unidos. Portugal ocupa também a 16ª posição como o país com mais cientistas por habitantes.

Um aumento de 500%
Em 2000, os investigadores portugueses publicaram 4371 artigos científicos pelo que o valor de 2018 representa um aumento de mais de 500% relativamente ao ano 2000.

16ª posição na contagem fraccionada por país
Como a maioria dos artigos têm múltiplos autores, a comparação por país requer uma contagem fraccionada, ou seja, para artigos de vários países, cada país recebe crédito fraccionário com base na proporção de seus autores participantes. Considerando as co-autorias de vários países, a contagem fraccionada de Portugal equivale a 14.295 artigos, a 27ª posição a nível mundial, sendo que os países que lideram a tabela sejam obviamente maiores: a China, Estados Unidos, Índia e Alemanha. Talvez seja mais útil ver a produção científica por habitante e nesse caso, Portugal ocupa a 16ª posição quando se compara publicações científicas per capita, bem à frente dos China (53º), Estados Unidos (21º),  e Alemanha (22º). Contudo, esta análise apresenta outra faceta assustadora: Portugal tem estado a praticamente estagnado desde 2014 nas suas publicações científicas, embora continue a publicar mais em termos de contagem total.

Países com mais publicações científicas por população (em 2018)

Produção de artigos científicos entre 2000 e 2018. Valores totais (linha vermelha) e fraccionados (para artigos de vários países, cada país recebe crédito fraccionário com base na proporção de seus autores participantes; linha azul)

Países com mais publicações de artigos científicos per capita. Valor por cada 100.000 habitantes e contagem total fraccionada por co-autores.

CountryArticles by Population *100.000Fractional count
1Switzerland24721379
2Denmark24113979
3Norway21811803
4Australia21053610
5Sweden20220421
6Iceland200681
7Singapore19611459
8Finland19110599
9Netherlands17830457
10New Zealand1647889
11Canada15959968
12Slovenia1543206
13Ireland1457174
14United Kingdom14497681
15Israel14112235
16Portugal14014295
17Luxembourg139869
18Austria13712362
19Belgium13515688
20South Korea12966376
21United States128422808
22Germany125104396
23Italy11871240
24Spain11754537
25Monaco11545

Países com mais publicações de artigos científicos (contagem fraccionada por co-autores)

CountryFractional count
1China528,263
2United States422,808
3India135,788
4Germany104,396
5Japan98,793
6United Kingdom97,681
7Russia81,579
8Italy71,240
9South Korea66,376
10France66,352
11Brazil60,148
12Canada59,968
13Spain54,537
14Australia53,610
15Iran48,306
16Poland35,663
17Turkey33,536
18Netherlands30,457
19Indonesia26,948
20Taiwan26,093
21Malaysia23,661
22Switzerland21,379
23Sweden20,421
24Mexico16,346
25Belgium15,688
26Czechia15,577
27Portugal14,295
28Denmark13,979
29Egypt13,327
30South Africa13,009

Fonte: https://ncses.nsf.gov/pubs/nsb20206/publication-output-by-region-country-or-economy
Número de habitantes: https://www.worldometers.info/world-population/population-by-country/