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sexta-feira, janeiro 01, 2021

Os lemingues fósseis que (não) existiram em Portugal

Esta é a bizarra história da descrição de lemingues fósseis em Portugal... que afinal não eram.

 Gerald Edwin Hamilton Barrett-Hamilton (n. 1871, m. 17 Janeiro 1914) foi um notável historiador natural britânico / irlandês, co-autor com de A History of British Mammals, que permaneceu "o mais completo, preciso e científico publicação "sobre mamíferos britânicos até os anos 1950. A sua participação na paleontologia portuguesa é acidental e acidentada. O alemão Hans Friedrich Gadow (1855-1928) forneceu-lhe restos de um lemingue mumificado de uma gruta entre a Atouguia das Cabras e a Ota, "Dr. H. Gadow gave an account of the caves which he had explored in the summer of 1886. They were situated in the province of Estremadura, in the low sierra between the villages of Athouguia and Otta, the nearest town being Santarem. The geological formation was hard white-blue limestone of the Rhaetic System. The cases lay only two or three hundred feet above the sea-level, and the particular one which yielded the bones was choked near the entrance the loose dry dust. About a foot below the surface of the dust was found an unpolished flint arrow-head. The cave was absolutely dry, and its horizontal bottom, extending for about 60 feet into the mountain, was covered with about two or three feet of the dust, which contained bows of small Ruminants and of Bear, besides those of the Lemmings. The Lemming-bones were found at the far end of the cave, almost on the top of the dust (Barrett-Hamilton, Proceedings of the Zoological Society of London, 1896, p.306). Nehring (p.293) escreve ainda “These objects were found by Dr. H. Gadow in 1886 at the back of a perfectly dry cave at Athouguia, not far from Santarem. The celebrated explorer wrote to me under the date of the 21st of February, 1899, as follows :--" The cave in question is situated on very hard Jurassic limestone, about 50 to 100 feet above the bottom of a valley watercourse, which is dry, except in winter and in the rainy season : it runs horizontally into the mountain.”


Ossos de lemingue alegadamente de Portugal


Lemingue

Barrett-Hamilton leu na Zoological Society of London (1896 Proceedings' of the Zoological Society of London 304-306) sobre estudou os lemmings mumificados recolhidos por H. Gadow. A espécie foi mais tarde baptizada pelo paleontólogo alemão Alfred Nehring  (1845-1904) como nova variedade Myodes lemmus crassidens.

  O naturalista irlandês Barrett-Hamilton (1871–1914)

Paleontólogo alemão Alfred Nehring  (1845-1904)


Contudo a ocorrência de lemming mumificados em Portugal seria altamente improvável, tanto do ponto de vista zoológico como invulgar no tipo de conservação de espécimes na região. Os lemmings não chegaram tão a sul e em Portugal continental não existem casos de vertebrados mumificados em grutas.


As dúvidas não se fazem chegar pela escrita de Édouard Harlé (1909: p.85; 1919: pp.52 e 81) que afirma que “a determinação não pode deixar dúvidas mas é bem diferente com a proveniência”. Hinton (1926, p. 201) também tece séria dúvidas da proveniência deste material como sendo de Portugal e sugere que tenha havido uma mistura de espécimes feita por Gadow.  One of the collectors of the Geological Survey of Portugal, Ramao de Souza, was sent to Athouguia with instructions to search the caves thoroughly for Lemming remains. No trace of a Lemming was found, and Harlé concludes that the " mummies " described by Barrett-Hamilton certainly did not come from Portugal. (Harlé, Bull. Soc. geol. France, 1909, p. 85, and Commun.  Comm. Serv. Geol. Portugal, 8, 1910-11, pp. 52, 81.)]


Em resumo, Barrett-Hamilton descreve a ocorrência de lemingue mumificado a partir de espécimes que Gadow forneceu e pensava serem de Portugal. Gadow recolheu restos fósseis possivelmente perto de Atouguia das Cabras mas deve ter trocado as amostras. Continua a não existir nenhum registro de lemingues em Portugal.



Cette image sous son passe-partout était dans un cadre de format 19x26cm. le lot de cadres était conservé dans la salle de préhistoire.inscription au dos du cadre : "Edouard HARLE 1850-1922

Paleontólogo Francês Edouard Harlé (1850-1922).

sexta-feira, maio 15, 2020

"Lanche Científicos": o que comiam os Neandertais ?

Todas as segundas-feiras a nossa equipa de paleontólogos da Universidade Nova de Lisboa e Museu da Lourinhã faz um lanche científico: pelas 17:00 descontraímos, pegamos numa bebida e falamos sobre ciência e paleontologia!

Na próxima temos mais um lanche científico, desta vez em forma de perguntas/respostas, com Prof. João Zilhão sobre a alimentação dos Neandertais baseado no seu recente artigo na Science https://science.sciencemag.org/content/367/6485/eaaz7943.

Através de sessão do Zoom, cujo endereço pode ser adquirido através de um pedido por email a omateus@fct.unl.pt

Mais informação em https://docentes.fct.unl.pt/omateus/pages/scientific-snacks




terça-feira, dezembro 31, 2019

12 descobertas de 2019 na paleontologia de vertebrados de Portugal

O ano de 2019 foi generoso para a paleontologia de vertebrados de Portugal com uma dúzia de artigos publicados em revistas científicas da especialidade. Neles abordaram-se pegadas de dinossauros terópodes (Belvedere et al., 2019), esqueletos de estegossauros (Costa e Mateus, 2019), terópodes (Malafaia et al. 2019), saurópodes (Mocho et al. 2019) e crocodilomorfos jurássicos (Guillaume et al. 2019, Puértolas-Pascoal et al. 2019), raias miocénicas (Fialho et al., 2019), macacos (Alba et al 2019), coelhos (Davis, 2019) e veados pleistocénicos (Croitor et al., 2019), e até tartarugas para consumo de humanos Neandertais (Nabais e Zilhão, 2019; Nabais et al., 2019).

Os quatro artigos publicados em revistas com mais impacto versaram sobre: 1) o dinossauro Miragaia longicollum na revista PloS One (Costa e Mateus, 2019); 2) novas ocorrências de veado pleistocénicos (Croitor et al., 2019) publicado na Quaternary Science Reviews; e 3) tartarugas em grutas Pleistocénicas (Croitor et al., 2019; Nabais & Zilhão, 2019) também na Quaternary Science Reviews; e 4) e presença do macaco-de-Gibraltar Macaca sylvanus em Portugal, no Journal of Human Evolution (Alba et al., 2019).

Descobriu-se uma nova espécie e género para a ciência: Oceanotitan dantasi Mocho et al. 2019; e reportadas espécies de veados novas para Portugal: Haploidoceros mediterraneus e Praedama cf. savini (Croitor et al., 2019).

Primata Macaca sylvanus cf. pliocena da Gruta da Aroeira (Alba et al., 2019)



Artigos de paleontologia de vertebrados de Portugal publicados em 2019:
  1. Alba, D. M., Daura, J., Sanz, M., Santos, E., Yagüe, A. S., Delson, E., & Zilhao, J. (2019). New macaque remains from the Middle Pleistocene of Gruta da Aroeira (Almonda karst system, Portugal). Journal of Human Evolution 131 (2019) 40e47
  2. Belvedere, M., Castanera D., Meyer C. A., Marty D., Mateus O., Silva B. C., Santos V. F., & Cobos A. (2019). Late Jurassic globetrotters compared: A closer look at large and giant theropod tracks of North Africa and Europe. Journal of African Earth Sciences. 158, 103547.
  3. Costa, F., & Mateus, O. (2019). Dacentrurine stegosaurs (Dinosauria): A new specimen of Miragaia longicollum from the Late Jurassic of Portugal resolves taxonomical validity and shows the occurrence of the clade in North America. PloS one, 14(11).
  4. Croitor, R., Sanz, M., & Daura, J. (2019). Deer remains from the Middle Pleistocene site of Gruta da Aroeira (Portugal): Iberian faunal endemism and implications for hominin paleobiogeography. Quaternary Science Reviews, 225, 106022.
  5. Davis, S. J. M. (2019). Rabbits and Bergmann’s rule: how cold was Portugal during the last glaciation? Biological Journal of the Linnean Society. doi:10.1093/biolinnean/blz098
  6. Fialho, P., Balbino, A., & Antunes, M. T. (2019). Langhian rays (Chondrichthyes, Batomorphii) from Brielas, Lower Tagus Basin, Portugal. Geologica Acta (ISSN-1695-6133).
  7. Guillaume, A. R., Moreno-Azanza, M., Puértolas-Pascual, E., & Mateus, O. (2019). Palaeobiodiversity of crocodylomorphs from the Lourinhã Formation based on the tooth record: insights into the palaeoecology of the Late Jurassic of Portugal. Zoological Journal of the Linnean Society.
  8. Malafaia, E., Mocho, P., Escaso, F., Dantas, P., & Ortega, F. (2019). Carcharodontosaurian remains (Dinosauria, Theropoda) from the Upper Jurassic of Portugal. Journal of Paleontology, 93(1), 157-172.
  9. Mocho, P., Royo-Torres, R., & Ortega, F. (2019). A new macronarian sauropod from the Upper Jurassic of Portugal. Journal of Vertebrate Paleontology, e1578782.
  10. Nabais, M., Boneta, I., & Soares, R. (2019). Chelonian use in Portugal: Evidence from Castelo Velho de Safara. Journal of Archaeological Science: Reports, 28, 102054.
  11. Nabais, M., & Zilhão, J. (2019). The consumption of tortoise among Last Interglacial Iberian Neanderthals. Quaternary Science Reviews. doi:10.1016/j.quascirev.2019.03.024
  12. Puértolas-Pascual, E., & Mateus O. (2019). A three-dimensional skeleton of Goniopholididae from the Late Jurassic of Portugal: implications for the Crocodylomorpha bracing system. Zoological Journal of the Linnean Society. , 10



Cervídeo Haploidoceros mediterraneus da Gruta da Aroeira (Croitor et al 2019)




Além destes trabalhas, foram apresentados numerosos resumos em congressos, teses sobre a paleontologia de vertebrados. Acresce ainda os livros e artigos que mencionam o mesmo tema mas não abordam a fundo a paleontologia nacional. Organizou-se também um congresso PaleoFall 2019.

Tentámos inclui todos os artigos científicos sobre a paleontologia de vertebrados de Portugal. Se souber de algum que não esteja aqui, por favor indique nos comentários ou para omateus@fct.unl.pt.




Testudo hermanni da Gruta da Oliveira (Nabais e Zilhão, 2019)

sexta-feira, maio 24, 2019

Dois terços dos grandes mamíferos de Portugal extinguiram-se no último milhão de anos




O declínio dos mamíferos no planeta já era conhecido mas um novo estudo da Universidade Nova de Lisboa mostra os números avassaladores em Portugal: quase metade dos mamíferos extinguiram-se e o número chega a dois terços para mamíferos de grande porte.
A biodiversidade actual de mamíferos, é apenas uma fracção do que foi há um milhão de anos atrás. Das 77 espécies de mamíferos fósseis em Portugal apenas 41 (54%) ainda existem hoje no território, tendo 19 espécies desaparecido localmente, como a hiena e 11 extinguiram-se totalmente, como o elefante-antigo, Palaeoloxodon antiquus.
Este é o resultado de um censo e revisão do conhecimento científico sobre os mamíferos fósseis de Portugal que saiu da tese de mestrado em paleontologia na Universidade Nova de Lisboa de Darío Estraviz López que defendeu ontem a sua tese com 19 valores. O registo fóssil dos mamíferos de Portugal é excelente! Muito completo e informativo, sobretudo devido à presença de fósseis em grutas.
Há menos de um milhão de anos existiam espécies ancestrais de  rinocerontes, elefantes, hipopótamos e leopardos em Portugal, todas extintas hoje. Este padrão de extinção dos mamíferos é semelhante ao resto da Europa e um milhão de anos é muito rápido em termos geológicos. Esta extinção coincide com a proliferação de humanos. E embora a causa não seja provada, um fémur de elefante-antigo, presente no Museu Geológico, em Lisboa, mostra a prova do crime: uma marca de um utensílio de pedra, que mostra que, neste caso, a causa da morte daquele elefante em particular é a caça por humanos.
Mediante uma extensiva análise bibliográfica, que compilou 212 trabalhos científicos de 33 jazidas em Portugal continental, que permitiram catalogar fósseis de 174 espécies de répteis, anfíbios, aves e mamíferos terrestres. Estas são algumas das principais conclusões da 25ª tese de Mestrado em Paleontologia, que resulta de uma parceria entre a Universidade Nova de Lisboa e da Universidade de Évora.

https://sites.fct.unl.pt/paleontology/announcements/dois-tercos-dos-grandes-mamiferos-de-portugal-extinguiram-se-no-ultimo-mi

Idade do gelo por Mauricio Antón (CC SA)

Darío Estraviz e Octávio Mateus no Museu da Lourinhã (public domain)


Tese: Darío Estraviz López "Quaternary fossil vertebrates from continental Portugal: Paleobiodiversity, revision of specimens and new localities". Tese de Mestrado em Paleontologia da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade de Évora, defendida a 13 de maio de 2019


quarta-feira, maio 02, 2018

O Lince-Ibérico no registo fóssil português

O Lince-Ibérico Lynx pardinus, é o mais ameaçado dos felinos em todo o mundo. Já chegou a ser anunciado como extinto em Portugal mas felizmente voltaram a aparecer.
No registo fóssil ou subfóssil português há algumas ocorrências, sobretudo em depósitos de grutas, em várias localidades entre as quais Casa da Moura, Fontainhas, Caldeirão, Escoural, Algar de Cascais, Gruta das Salemas, Lapa da Rainha e Furninha.

Lince-Ibérico Lynx pardinus. Fonte: Programa de Conservación Ex-situ del Lince Ibérico www.lynxexsitu.es CC SA BY
Um novo estudo dá a conhecer uma nova ocorrência, um úmero direito, para Casais Robusto, concelho de Alcanena num trabalho que se enquadra na tese de mestrado em Paleontologia de Darío Estraviz.

Lynx pardinus, parte distal de úmero direito de Casais Robustos (FCTUNL-VP-713) (Estraviz & Mateus, 2018)

Estraviz, D, Mateus O.  2018.  The quaternary mammals from the caves of Casais Robustos and Cabeço de Morto, Alcanena (Portugal): the case of Lynx pardinus Temminck, 1827. EJIP Life finds a way: 159-162., Gasteiz, Spain

segunda-feira, abril 09, 2018

Descoberta nova espécie de sirénio com patas

Uma nova espécie para a ciência de herbívoro marinho, Sobrarbesiren cardieli, descoberto em Espanha, é o primeiro sirénio quadrúpede conhecido. Este grupo de animais, os sirénios, inclui os manatins e dugongues, também conhecidos por vacas-marinhas, são herbívoros que pastam em pradarias marinhas. Ainda sobrevivem cinco espécies actuais, todas ameaçadas de extinção. Este novo estudo teve a participação de Miguel Moreno-Azanza, da Universidade Nova de Lisboa.

Sobrarbesiren por Rosa Alonso


Investigador da FCT NOVA descobre novo mamífero primitivo


O investigador Miguel Moreno-Azanza, do Departamento de Ciências da Terra da FCT NOVA, e colaborador do Museu da Lourinhã faz parte de uma equipa internacional de Investigadores portugueses e espanhóis, que descobriram e descreveram uma nova espécie de Sirénio, um mamífero marinho primitivo que viveu nas águas de Sobrarbe nos Pirinéus.



Este novo mamífero é o primeiro sirénio com 4 membros da Eurásia e o mais antigo da Europa Ocidental, com cerca de 42 milhões de anos. Os Sirénios são os únicos mamíferos marinhos herbívoros e por isso ganharam a alcunha de “vaca-marinha”. Esta nova “vaca-marinha”, foi encontrada nos Pirinéus espanhóis e foi descrita na revista Scientific Reports. O nome da espécie, Sobrarbesiren cardieli, honra o território de Sobrarbe e o arqueologista amador Jesús Cardiel Lalueza que encontrou o fóssil. Esta descoberta representa um passo chave na evolução dos sirénios.

Sirénio actual (Zoomarine Algarve) Foto. Octávio Mateus CC SA BY
Para mais informação consultar:

Díaz-Berenguer, E., Badiola, A., Moreno-Azanza, M., Canudo, J.I. 2018. First adequately-known quadrupedal sirenian from Eurasia (Eocene, Bay of Biscay, Huesca, northeastern Spain).

Scientific Reports https://www.nature.com/articles/s41598-018-23355-w

quarta-feira, novembro 25, 2015

Elefantes fósseis de Marrocos em tese de mestrado por João Marinheiro


Elefantes fósseis Elephas recki de Marrocos foram o tema da Tese de Mestrado defendida hoje, 25 de Novembro de 2015, por João Marinheiro integrado no Mestrado em Paleontologia da FCT-Universidade Nova de Lisboa + Universidade de Évora. Parabéns ao João Marinheiro que agora é Mestre com uma classificação de 18 valores aprovada por unanimidade.

Na dissertação é mostrada a mais recente ocorrência de Elephas recki em África numa pequena bacia sedimentar do plistocénica (500.000 a 200.000 anos) no Médio Atlas, em Marrocos, associado a material lítico de H. erectus; a existência de novos fósseis de pegadas e crocodilomorfos do Jurássico médio; e uma gruta com vestígios holocénicos.


João Marinheiro na escavação de duas presas de Elephas recki, em Marrocos.

Ficha Técnica:
Data: 25 de Novembro de 2015
Mestrado em Paleontologia
Provas de Mestrado de João André da Silva Marinheiro
Dissertação: "​Proboscideans and other vertebrates from Anchrif, Morocco"
Constituição do Júri: 
Doutor Paulo Alexandre Rodrigues Roque Legoinha, Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa
Doutora Cleia Detry Cardoso e Cunha, Investigadora Pós-doc do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa;
Doutor Octávio João Madeira Mateus, Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.
Orientador: Octávio Mateus (FCT-UNL); Co-orientador: Prof. Carlos Ribeiro (UÉ)


Bibliografia já publicada:
Marinheiro, J., Mateus O., Alaoui A., Amani F., Nami M., & Ribeiro C. (2014). Elephas and other vertebrate fossils near Taghrout, Morocco. Journal of Vertebrate Paleontology. Program and Abstracts, 2014,178.
Marinheiro, J, Mateus O, Alaoui A, Amani F, Nami M, Ribeiro C. 2014. New Quaternary fossil sites from the Middle Atlas of Morocco. Comunicações Geológicas. 101, Especial I:485-488.
Júri e Candidato: Paulo Legoinha, Octávio Mateus, João Marinheiro e Cleia Detry.

segunda-feira, setembro 14, 2015

Bem vindo à nossa família e género... Homo naledi

Bem vindo à nossa família e género... Homo naledi.



Homo naledi pode ser o primeiro homem 
Nova espécie tem características comuns ao Homem e macaco. 
Por André Pereira, Hugo Mesquita em Correio da Manhã:

O Homo naledi é muito provavelmente a primeira espécie do género humano", disse ontem ao CM o paleontólogo Octávio Mateus, da Universidade Nova de Lisboa, referindo-se à descoberta de mais de 1500 ossos de uma espécie na África do Sul. A confirmação só após uma datação exata dos fósseis. "É contemporâneo do Homo erectus, mas ainda não é possível afirmar qual surgiu primeiro", acrescentou. É na comunhão de características físicas desta espécie com o Australopiteco e o Homem moderno que o especialista se baseia para fundamentar que este poderá ser o mais antigo ancestral do Homem. "A forma da cara e do cérebro são do género humano, mas o seu tamanho é mais próximo ao Australopiteco", sublinhou, reforçando que a descoberta no parque ‘Berço da Humanidade’ é um "feito único e fundamental para compreendermos a origem da nossa espécie". A descoberta do "Homem da Estrela" 


segunda-feira, agosto 31, 2015

Vitrais paleontológicos e megafauna brasileira


Vitrais e paleontologia formam uma combinação tão bonita quanto rara. Durante a construção do Grande Hotel de Araxá, em Minas Gerais no Brasil, foram descobertos numerosos vertebrados representantes da megafauna pleistocénica (60 a 55.000 anos) da América do Sul.
Aqui foram recolhidos cavalos Amerhippus neogaeus, preguiça gigante Eremotherium laurillardi, macrauquenídeo Xenorhinotherium bahiense, gonfotério Notiomastodon platensis recolhidos por Llwellyn Ivor Price e Ruben da Silva Santos (Price, 1944) e mais tarde estudados por Simpson e Paula Couto (1957).

Essa jazida formava um barreiro com águas sulfurosas e radioactivas(!) que deram o motivo para um enorme e opulento hotel e termas associadas construídos de 1938 a 1944, que inicialmente estava previsto para albergar um casino antes do jogo ser restrito no Brasil. Por essa razão este luxuoso complexo turístico tem breves alusões a paleontologia de vertebrados. No exterior, perto da fonte, a calçada de estilo português mostra um cavalo, um Xenorhinotherium, uma preguiça e mastodonte. Um expositor apresenta réplicas dos ossos destes animais num recinto forrado a azulejos onde figuram vértebras.

No interior um fabuloso conjunto de vitrais composto de nove painéis de vários metros que contam a história do local. Começa com uma cena pré-histórica com dois Xenorhinotherium, um Toxodon, e três Glyptodon, rodeados de vegetação do Cerrado. O vitral é assinado por Frank Urban. Este é, porventura, um dos poucos e mais impressionantes vitrais paleontológicos da época.

Os ossos originais, sobretudo o material craniano, recolhidos pelo Price estão no Rio de Janeiro. No hotel mantém-se várias caixas com ossos originais, sobretudo pós-craniano, mas não acessíveis ao público.

Vitral paleontológico no Grande Hotel de Araxá (circa 1940-1944) com Toxodon, Xenorhinotherium e Glyptodon.
Na bibliografia aparece com frequência Águas de Araxá, mas esse topónimo não existe, e deveria ser apenas Araxá ou Barreiro.

Pormenores do Grande Hotel de Araxá, no Brasil.

Calçada com megafauna pleistocénica: cavalo, preguiça, macrauquenídeo e gonfotério.



Fontes: https://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Hotel_de_Arax%C3%A1
http://www.abequa.org.br/trabalhos/0018_abequamelo.pdf
http://www.dpnet.com.br/anteriores/1998/03/04/viagem2_1.html

Price LI, 1944. O Depósito de Vertebrados Pleistocênicos de Águas do Araxá (Minas Gerais). An. Acad. Bras. Cienc., 16: 193-196.
Simpson, G. G., & Couto, C. D. P. (1957). The mastodonts of Brazil. Bulletin of the AMNH; v. 112, article 2.

quinta-feira, maio 14, 2015

Elefantes fósseis de Marrocos escavados por equipa marroquino-portuguesa


No novo volume das Comunicações Geológicas é descrito parte do resultado do trabalho marroquino-português no Médio Atlas, e que foi tema da tese de mestrado de João Marinheiro integrado no Mestrado em Paleontologia FCT-UNL + UÉ. A descoberta mais importante são vários esqueletos de elefante fóssil e extinto, o Elephas recki.


Localização das jazidas e mapa geológico de Anchrif (no fundo à esquerda). Direita: Coluna estratigráfica de Anchrif., Marrocos (Marinheiro et al., 2014)

A riqueza paleontológica do Marrocos é conhecida pelo menos desde o início do século XX. A região do Médio Atlas, mais especificamente a área de Boulemane, foi todavia pouco estudada desde a década de 1960, quando foram descobertos fósseis de vertebrados do Jurássico Médio. Em Setembro de 2013, uma expedição marroquino-portuguesa a Taghrout, Boulemane, fez recolhas numa jazida fossilífera do Plistocénico que foi outrora uma pequena bacia sedimentar de elevada altitude, não cartografada em mapas geológicos anteriores. A escavação recolheu ossos e dentes de mamíferos de grande porte, sendo os achados mais comuns atribuídos a elefantes do género Elephas, tendo sido também recolhidos artiodáctilos, tartarugas e ferramentas acheulenses. Esta jazida representa um novo e importante sítio paleontológico e arqueológico. Além das descobertas em Taghrout, a expedição também recolheu vertebrados quaternários de uma gruta nas proximidades e encontrou novas localidades jurássicas, com ossos de arcossauros e pegadas de dinossauros, em El Mers.


A equipa portuguesa contou com Octávio Mateus. João Marinheiro, João Russo e Marco Marzola, da Universidade Nova (FCT-UNL) e do Museu da Lourinhã.

Marinheiro, J., Mateus O., Alaoui A., Amani F., Nami M., & Ribeiro C. (2014). New Quaternary fossil sites from the Middle Atlas of Morocco. Comunicações Geológicas. 101, Especial I, 485-488.

PDF: http://www.lneg.pt/download/9594/96_2911_ART_CG14_ESPECIAL_I.pdf 

Marinheiro, J., Mateus O., Alaoui A., Amani F., Nami M., & Ribeiro C. (2014). Elephas and other vertebrate fossils near Taghrout, Morocco. Journal of Vertebrate Paleontology. Program and Abstracts, 2014,178.

terça-feira, junho 01, 2010

Homo gautengensis, mais um irmão na família

Sejam dadas as boas-vindas a mais uma espécie de humano, o nosso irmão Homo gautengensis, descoberto em cavernas da África do Sul.





Curnoe, D. 2010. A review of early Homo in southern Africa focusing on cranial, mandibular and dental remains, with the description of a new species (Homo gautengensis sp. nov.). HOMO - Journal of Comparative Human Biology

The southern African sample of early Homo is playing an increasingly important role in understanding the origins, diversity and adaptations of the human genus. Yet, the affinities and classification of these remains continue to be in a state of flux. The southern African sample derives from five karstic palaeocave localities and represents more than one-third of the total African sample for this group; sampling an even wider range of anatomical regions than
the eastern African collection. Morphological and phenetic comparisons of southern African specimens covering dental, mandibular and cranial remains demonstrate this sample to contain a species distinct from known early Homo taxa. The new species Homo gautengensis sp. nov. is described herein: type specimen Stw 53; Paratypes SE 255, SE 1508, Stw 19b/33, Stw 75–79, Stw 80, Stw 84, Stw 151, SK 15, SK 27, SK 45, SK 847, SKX 257/258, SKX 267/268, SKX
339, SKX 610, SKW 3114 and DNH 70. H. gautengensis is identified from fossils recovered at three palaeocave localities with current best ages spanning"2.0 to 1.26–0.82 million years BP. Thus, H. gautengensis is probably the earliest recognised species in the human genus and its longevity is apparently well in excess of H. habilis.


View curnoe-2010-homo-gautungensis-endemic-early-homo-to-s-afr-pdf

terça-feira, março 16, 2010

Sortido aleatorio dos musculos do gatinho




















Fotos de Ricardo Araujo (C)

domingo, novembro 30, 2008

Tigres dentes de sabre



Os tigres dentes de sabre eram animais extraordinários que viveram de há 30 milhões de anos até há 10 mil anos atrás. Ao contrário do que se possa pensar, não se trata de um único grupo de felinos, mas sim de três famílias distintas de predadores (incluindo placentários e marsupiais) que convergiram para esta morfologia de enormes caninos.

 
Em Portugal temos pelo alguns vestígios de tigres-dentes-de-sabre:
Homotherium latidens, determinado com base num osso astrágalo da Mealhada (Antunes, 1986; Cardoso, 1996). Antes disso, Roman (1907) identifica o que ele chama de "Machairodus jourdani" em Aveiras de Baixo, o que inclui um espectacular dente actualmente em exposição no Museu Geológico. A espécie Pseudaelurus transitorius também é identificada em Portugal.

Estas fantásticas ilustrações foram desenhadas pelo meu amigo
Mark Hallett (http://www.hallettpaleoart.com). 


ANTUNES M.T. 1986. Acerca de um osso do Plistocénico da Mealhada : presença de um "tigre dente de sabre", Homotherium latidens (OWEN, 1846). Ciências da Terra (UNL), 8 : 43-54.

CARDOSO J.L. 1996. Les grands mammifères du Pléistocéne supérieur du Portugal. Essai de synthése. [The large Upper-Pleistocene mammals in Portugal. A synthetical approache]. GEOBIOS, 29, 2 : 235-250. 

ROMAN, F. 1907 Le Néogène continental dans la Basse Vallée du Tage. Comissão dos Serviços Geológicos de Portugal.