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domingo, outubro 24, 2021

Evolução das Plantas: livro

O tema da evolução das plantas tem um novo livro com esse título "Evolução das Plantas" por Carlos Aguiar, professor na Escola Superior Agrária de Bragança, que liga a paleontologia, agronomia, biologia, e história da Terra para contar a história natural das plantas de forma magistral.

"Evolução das Plantas" por Carlos Aguiar. colab. Jorge Capelo. - 1ª ed. - Lisboa : Imprensa Nacional : Lisboa Capital Verde Europeia 2020, 2021. - 195 p. : il. ; 31 cm. - ISBN 978-972-27-2883-6. 22.50€

Recomendamos vivamente.






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quinta-feira, fevereiro 13, 2020

Nova espécie de cavalinha fóssil com 303 milhões de anos e nome dedicado a João Pais

Fóssil português de uma nova espécie de planta, semelhante às cavalinhas actuais, e respectiva galha revelam novidades sobre a relação entre plantas e insectos há cerca de 300 milhões de anos.

As cavalinhas são plantas com uma linhagem histórica muito antiga, com registo fóssil desde o Devónico Superior até à actualidade, existindo em abundância em Portugal nos dias de hoje. Num novo artigo liderado por Pedro Correia, é descrita uma nova espécie de cavalinha de São Pedro da Cova do Pensilvânico superior de Portugal que recebeu o nome Annularia paisii dedicada ao paleontólogo João Pais, especialista em plantas fósseis da Universidade Nova de Lisboa.



Annularia paisii Correia et al. (2020) e sua galha induzida por insecto (reconstrução de Andrey Atuchin)

Uma das curiosidades desta espécie é que tinha uma galha, ou seja, uma reacção da planta induzida por insectos, fungos, bactérias, ou outros indutores. As cavalinhas (sensu Equisetopsida ou Sphenopsida) tal como a maioria das plantas reagem a ataques de insectos formando galhas. Os grandes bugalhos das azinheiras são porventura as galhas mais conhecidas em Portugal.

A Annularia paisii tinha uma galha, induzida por insetos, até agora desconhecida que também recebe um nome de icnoespécie (Paleogallus carpannularites). Isto mostra a existência de complexas relações insecto-plantas há 303 milhões de anos e reitera a importância do registo fóssil do carbonífero português. Os padrões de herbivoria de insectos e outros artrópodes nas cavalinhas são pouco conhecidas mas foram agora abordados neste novo artigo publicado no International Journal of Plant Sciences em que documentam 315 milhões de anos de relações de herbivoria de cavalinhas por artrópode.


Artigo
Pedro Correia, Arden R. Bashforth, Zbynĕk Šimůnek, Christopher J. Cleal & Artur A. Sá, and Conrad C. Labandeira (2020). The history of herbivory on sphenophytes: a new calamitalean with an insect gall from the Upper Pennsylvanian of Portugal and a review of arthropod herbivory on an ancient lineage. International Journal of Plant Sciences. https://www.journals.uchicago.edu/doi/pdfplus/10.1086/707105

Annularia paisii Correia et al. (2020)
Resumo:
Premise of research. Sphenophytes are a modestly diverse lineage of vascular plants with a persistent record extending from the late Paleozoic to present. However, patterns of arthropod herbivory on sphenophytes are poorly known, attributable to a scattered literature, which we address in this report. Methodology. We document the 315 million-year-long record of sphenophyte– arthropod herbivory by focusing on the bookends, namely the Pennsylvanian and present day. We add to this milieu a gall association on a newly described sphenophyte from the Upper Pennsylvanian of Portugal. Pivotal results. Earliest known sphenophyte herbivory is Early Pennsylvanian, when virtually all interactions involved piercing-and-sucking damage by stylate insect mouthparts and lesions from cutting-and-slicing ovipositors. An exception is a new calamitalean (Annularia paisii sp. nov.) that harbored a new insect-induced gall (Paleogallus carpannularites ichnosp. nov.), similar to a modern fern gall. This discovery suggests that Late Pennsylvanian interactions were more diverse than previously suspected. By the end of the Pennsylvanian, the component community of one whole-plant calamitalean species had 12 damage types (DTs), only one of which was non-puncturing damage. Shifts to external foliage feeding, mining, and galling are evident during the Late Triassic. A Middle Jurassic renewal of interactions was followed by a decrease in documented DTs present in the Cretaceous and Cenozoic. Fifteen modern species of the genus Equisetum, the sole surviving lineage, exhibit four herbivory patterns. First, almost all documented herbivory is confined to the seven species of Equisetum (horsetails), not subgenus Hippochaete (scouring rushes). Second, there are diversification events of four genera of herbivores – a beetle, two sawflies and a fly – on subgenus Equisetum. Third, this arthropod herbivory is approximately evenly split among monophagy, oligophagy, and polyphagy. Fourth, the herbivore component community of Equisetum arvense L. (field horsetail) is diverse, representing ten major feeding modes, comparable to a modern angiosperm species, considerably more than that of Pennsylvanian calamitaleans. Conclusions. Pennsylvanian sphenophytes supported few folivores, followed by a major shift in the modes of sphenophyte herbivory after the Paleozoic. Considerable modern herbivory is localized on E. arvense.

Annularia paisii Correia et al. (2020)

Em 2017, o Professor João Pais já tinha sido honrado com o género Paisia, uma eudicotiledónea do Cretácico Inferior, publicado por Else Marie Friis e colegas.
Ref:
Else Marie Friis, Mário Miguel Mendes & Kaj Raunsgaard Pedersen (2018)
Paisia, an Early Cretaceous eudicot angiosperm flower with pantoporate pollen from Portugal,
Grana, 57:1-2, 1-15, DOI: 10.1080/00173134.2017.1310292


quarta-feira, junho 20, 2018

São Pedro da Cova tem nova espécie de feto fóssil


Douropteris alvarezii é o novo género e espécie de pteridófita, feto fóssil, de São Pedro da Cova, conforme o novo artigo assinado por Pedro Correia  Zbynĕk Šimůnek  Christopher Cleal  e Artur Sá.

O artigo "Douropteris alvarezii gen. nov., sp. nov., a new medullosalean pteridosperm from the Late Pennsylvanian of Portugal" foi publicado no Geological Journal.

Este novo género de planta fóssil com cerca de 300 milhões de anos, Douropteris alvarezii vem da Bacia do Douro, o que lhe dá o nome.  Douropteris alvarezii tem uma combinação incomum de características observadas em vários géneros fósseis, e distingue-se sobretudo pelo padrão da nervação das folhas.
O ano passado, Pedro Correia e colegas também já tinham publicado uma outra nova espécie de pteridófita da bacia do Douro.

Douropteris alvarezii  São Pedro da Cova, Douro Basin, Portugal (Correia et al. 2018)


quarta-feira, fevereiro 28, 2018

Flora fóssil dos Açores

Novo artigo sobre a flora fóssil do quaternário do arquipélago dos Açores estuda os fósseis de plantas são conhecidos das Ilhas dos Açores, até à data que se encontravam mal estudados.

Carlos Góis-Marques e colegas (2018) fazem uma uma revisão bibliográfica abrangente para todo o arquipélago dos Açores, publicado agora na Historical Biology.
Uma primeira referência pré-científica data do final do século XV, enquanto a primeira descrição científica é de 1821, representando troncos em unidades piroclásticas e plantas silicificadas em depósitos hidrotérmicos.
Ao longo da segunda metade do século XIX e da primeira metade do século XX, a prospecção por naturalistas e o trabalho de mapeamento geológico levaram à descoberta e descrição de fósseis de plantas na maioria das ilhas.
Os fósseis de plantas açorianas incluem folhas, hastes, troncos e sementes preservadas como impressões, compressões, moldes de lava e mumificações. A tafonomia está geralmente relacionada à atividade vulcânica explosiva, enquanto o registo palinológico é associado com sedimentos de lago e turfeiras.

Plantas fósseis dos Açores (Góis-Marques et al. 2018)


Carlos A. Góis-Marques, Lea de Nascimento, Miguel Menezes de Sequeira, José María Fernández-Palacios & José Madeira (2018) The Quaternary plant fossil record from the volcanic Azores Archipelago (Portugal, North Atlantic Ocean): a review, Historical Biology, DOI: 10.1080/08912963.2018.1444761

terça-feira, janeiro 09, 2018

Paleontóloga Vânia Correia

A primeira autora de um dos artigo do ano de 2017 é Vânia Correia sendo acompanhada no artigo por James B.Riding, Paulo Fernandes, Luís V. Duarte e Zélia Pereira.



Vânia Dinora Pereira Fraguito Correia, nascida a 12 de Julho de 1983 em Vila Real, é licenciada em Biologia e mestre em Recursos Geológicos pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) após estudar na Escola Secundária Camilo Castelo Branco em Vila Real. Trabalhou na Associação Geoparque Arouca e Universidade de Pisa. Actualmente é aluna de Doutoramento (3º Ciclo em Ciências do Mar, da Terra e do Ambiente) na Universidade do Algarve, com a bolsa FCT SFRH/BD/93950/2013, desenvolvendo o tema: "Jurassic dinoflagellate cyst biostratigraphy of the Lusitanian Basin, west-central Portugal, and its relevance to the opening of the North Atlantic and petroleum geology".
O seu orientador principal é Prof. Paulo Fernandes (Universidade do Algarve) e os Co-orientadores são Zélia Pereira (LNEG, Laboratório de Palinologia) e James Riding (British Geological Survey).
A Vânia faz a sua investigação no CIMA – Centro de Investigação Marinha e Ambiental, da Universidade do Algarve e no LNEG, S. Mamede de Infesta.

A Vânia e os demais investigadores já mencionados são autores de dois artigos publicados este ano, ambos nomeados para Artigo do Ano.

Correia, V.F., Riding, J.B., Fernandes, P., Duarte, L.V. and Pereira, Z., 2017. The palynology of the lower and middle Toarcian (Lower Jurassic) in the northern Lusitanian Basin, western Portugal. Review of Palaeobotany and Palynology, 237, pp.75-95.

Correia, V.F., Riding, J.B., Duarte, L.V., Fernandes, P. and Pereira, Z., 2017. The palynological response to the Toarcian Oceanic Anoxic Event (Early Jurassic) at Peniche, Lusitanian Basin, western Portugal. Marine Micropaleontology, 137, pp.46-63.

Podemos ainda adiantar que a dissertação de doutoramento está prestes a ser entregue para avaliação e desde já felicitamos a Vânia e os restantes autores.


OM20180108

sábado, dezembro 30, 2017

Nova espécie de planta no Carbonífero de Portugal

Nova jazida em Ermesinde dá fósseis de uma nova espécie de feto, num artigo assinado por Pedro Correia, Zbynĕk Šimůnek, Artur A. Sá e Deolinda Flores.

Segundo o artigo que saiu no Geological Journal, a Bacia do Douro é uma das bacias sedimentares continentais mais ricas em florestas fósseis de idade carbonífera em Portugal. A nova localidade de Montes da Costa (Ermesinde) fornece um excelente registo fóssil de macroflora bem conservada e muito diversificada sobretudo de fetos, dos quais é descrita a nova espécie Acitheca murphyi  do Carbonífero.



Reconstituição artística de Acitheca murphyi do Carbonífero de Ermesinde (Correia et al., 2017). 

Acitheca murphyi do Carbonífero de Ermesinde (Correia et al., 2017).



Referência:

Correia P, Šimůnek Z, Sá AA, Flores D. A new Late Pennsylvanian floral assemblage from the Douro Basin, Portugal. Geological Journal. 2017;1–25. https://doi.org/10.1002/gj.3086
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/gj.3086/full

terça-feira, dezembro 26, 2017

Há 300 anos nasceu João de Loureiro, o primeiro paleontólogo Português

Há 300 anos nasceu João de Loureiro (1717, Lisboa - 18 de outubro de 1791) foi missionário e botânico jesuíta português e o primeiro paleontólogo Português.

Fundo esquerda: uma das plantas recolhidas por João de Loureiro;
Direita: Frontispício da obra Flora Cochinchinensis.
Topo  esquerda: Antigo Colégio de Sto. Antão onde João de Loureiro estudou.
Depois de receber a entrada na Ordem dos Jesuítas, João de Loureiro serviu como missionário em Goa, capital da Índia portuguesa (3 anos) e Macau (4 anos). Em 1742 ele viajou para Cochinchina (actual Vietname e Laos), permanecendo lá por 35 anos. Aqui trabalhou como matemático e naturalista, adquirindo conhecimento sobre as propriedades e os usos das plantas medicinais nativas. Em 1777, viajou para Cantão, voltando a Lisboa quatro anos depois. Em 1790, ele publicou um trabalho sobre a flora da Cochinchina intitulado Flora Cochinchinensis.

João de Loureiro tem numerosas espécies "loureiroi" dedicadas a ele, principalmente plantas, mas também um dinossauro, Draconyx loureiroi, porque também foi o primeiro paleontólogo português ao escrever um artigo sobre caranguejos fósseis no artigo "Memoria sobre huma espécie de petrificaçaõ animal" publicado na Academia de Ciências de Lisboa em 1799.

Na Cochinchina, João de Loureiro era sobretudo missionário que usou a farmacopeia local para aprender sobre botânica e medicina. Entre os muitos espécimes que Loureiro deve ter se reunido com as contribuições locais, havia alguns caranguejos fósseis do rio Soung Muòi Ko (província de Gua'ng binh na Cochinchina), que os locais consideravam terapêuticos como absorventes para a febre, a disenteria, diarréia, tenesmo e útil externamente para inflamações e abscessos. Na época, os fósseis eram uma curiosidade misteriosa ou mal explicada. A maioria dos fósseis foi interpretada como animais ante-diluviários, como alusão ao episódio bíblico mítico. Os caranguejos fósseis chamaram a atenção de João de Loureiro, mas este foi crítico sobre explicações míticas sobre animais "petrificados" relatados por poetas, como é mostrado por suas palavras: "é necessário um pensamento cuidadoso e crítico antes de dar crédito a esses relatórios".
Caranguejos fósseis estudados por João de Loureiro na obra de 1799 (Memoria sobre huma espécie de petrificaçaõ animal).
Em sua nota póstuma publicada em 1799 pelo título "Memoria sobre huma espécie de petrificaçaõ animal" da Real Academia de Ciências de Lisboa (Fig. 4 e 5), Loureiro não só reconhece e identifica como caranguejos, mas também entende o papel dos sedimentos e o tempo na formação fóssil. Loureiro refuta a hipótese de uma catástrofe de dilúvio ou uma "água petrificante", entendendo que o processo de fossilização é a associação das propriedades da lama e a longa passagem do tempo. Ele escreve "uma violência, que tira uma vida, e transforma em pedra aquelles viventes, está no lodo" (p. 51) e "a que os vapores d'aquelle-site petrificante tiráraõ a vida, ficando logo cubertos, ou estendidos no lodo, perdem naturalmente com o tempo como partes mais subtís, e volateis" (. 52). Essa nota de dez páginas representa o primeiro artigo científico paleontológico em Portugal (Antunes, 1986) e o primeiro sobre um fóssil do sudeste asiático, tanto quanto sabemos. João de Loureiro é, portanto, considerado o primeiro paleontólogo português, que lhe concedeu a nomeação de uma espécie de dinossauro, Draconyx loureiroi, em 2001 (Mateus e Antunes, 2001).
Os caranguejos fósseis, provavelmente o mesmo que Loureiro se recuperou da Ásia foram encontrados mais tarde na Academia de Ciências de Lisboa (Antunes, 1986; 2000).



Viagem de João de Loureiro entre 1735 e 1782.







quinta-feira, abril 06, 2017

Palinomorfos da Bacia Lusitana e a drástica mudança paleoambiental do Toarciano


Na história geológica da Terra existiram intervalos de tempo, relativamente breves, em que ocorreram episódios de forte redução dos níveis de oxigénio nos oceanos, numa ampla escala geográfica. Estes eventos ficaram impressos no registo geológico e fóssil e, muitos deles, coincidiram com várias extinções em massa, podendo mesmo ter contribuído para a ocorrência das mesmas.


No último artigo publicado na revista científica Review of Palaeobotany and Palynology, a investigadora do Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA) da Universidade do Algarve, Vânia F. Correia e restante equipa documentaram os palinomorfos do Jurássico Inferior das áreas da Figueira da Foz e Rabaçal, na parte norte da Bacia Lusitana, e examinaram a sua resposta ao primeiro grande evento anóxico do Mesozóico, associado a uma importante excursão negativa de isótopos de carbono, extinção em massa, transgressão marinha e aquecimento global, ocorrido no Toarciano (Jurássico Inferior).


Secções estudadas, localização e enquadramento geológico in V.F. Correia et al. / Review of Palaeobotany and Palynology 237 (2017) 75–95


Abstract

The lower and middle Toarcian (Lower Jurassic) successions of the northern Lusitanian Basin in western Portugal were examined for palynomorphs. Two localities, the Maria Pares and the Vale das Fontes sections, were sampled. The sections span the Dactylioceras polymorphum, Hildaites levisoni and Hildoceras bifrons ammonite biozones. The samples produced relatively low diversity dinoflagellate cyst floras which are typical of those from coeval European successions; the most abundant species is Luehndea spinosa. The other forms encountered were Mancodinium semitabulatum, Mendicodinium microscabratum, M. spinosum subsp. spinosum, Mendicodinium sp., Nannoceratopsis ambonis, N. gracilis and N. senex. Dinoflagellate cysts typically dominate throughout the Dactylioceras polymorphum ammonite biozone; their abundance significantly decreased in the overlying Hildaites levisoni and Hildoceras bifrons ammonite biozones. The low diversity Luehndea-Nannoceratopsis dinoflagellate cyst flora of the northern Lusitanian Basin is characteristic of the Sub-Boreal region of Europe. This is a transitional region, intercalated between the Boreal and Tethyan realms. The Toarcian Oceanic Anoxic Event (T-OAE) in the northern Lusitanian Basin is characterised by a sudden decline in palynomorph abundance and diversity, including the virtual absence of acritarchs and dinoflagellate cysts. Following the T-OAE, Mancodinium semitabulatum and Mendicodinium spp. were the only dinoflagellate cysts recorded. This ‘blackout’ of dinoflagellate cysts during the T-OAE, and their partial recovery following the event, shows that dinoflagellate populations were responding to a major palaeoenvironmental change.

sábado, dezembro 06, 2014

Paleobotânica em Portugal


Ao estudo das plantas fósseis dá-se o nome de Paleobotânica. E o facto talvez desconhecido para muitosé que além de vertebrados e invertebrados, Portugal é extremamente rico em plantas fósseis. Para isso muito têm contribuído os trabalhos de João Pais, Mário Miguel Mendes, Else Marie Friis, Kaj Raunsgaard Pedersen, Peter R. Crane, Carlos Teixeira e muitos outros.

Destacam-se as plantas do Cretácico Inferior da Bacia Lusitânica, que incluem algumas das mais antigas evidências de angiospérmicas e uma espectacular diversidade de formas e táxones.

Feto (Pterodófita) fóssil do Paleozóico de Portugal (ML)
Alguns géneros e espécies na paleobotânica de Portugal
Esta é uma lista, longe de ser ou tentar ser exaustiva, de alguns táxones de plantas fósseis em Portugal: Acrostichopteris, Alethopteris, Alisporites, Annonxylon teixeirae, Araucarites, Asterophyllites, 
Baiera viannae, Bicatia costata, Bicatia juncalensi, Biretisporites, Brachyphyllum lusitanicum, 
Calamites suckowii, Cicatricosisporites, Converrucosisporites, Cordaites, Cupressinocladus micromerum, Cyclopteris, Czekanowskia, 
Densoisporites, Desmiophyllum, Dicksonites, 
Erdtmanispermum juncalense, Erdtmanitheca portucalensis, Elatides falcifolia, Equisetites, Equisetum, Frenelopsis, Ginkgo, Gleicheniidites, Ischyosporites teixeirae 
Kraeuselisporites, 
Marchantites archantiaeformis, Mariopteris, Myrica, Monetianthus mirus, 
Neuropteris, Nilsonia, Otozamites, 
Pagiophyllum lusitanicum, Pecopteris, Picea, Pinus fluvimajoricus, Podozamites, Pseudocycas, Pterophyllum, 
Quercus, Raunsgaardispermum lusitanicum
Salix, Schizoneura, Sequoia, Sparganium, Sphenophyllum, Sphenolepis sternbergiana, Sphenolepis choffati, Sphenopteris, Spheripollenites, 
Taeniopteris, Teixeiraea, Toddalia, Todites falciformis
Verrucosisporites, Vitis, Zamites




Referências de alguns artigos científicos:
Friis, E. M., Pedersen, K. R., & Crane, P. R. (2000). Reproductive structure and organization of basal angiosperms from the Early Cretaceous (Barremian or Aptian) of western Portugal. International Journal of Plant Sciences, 161(S6), S169-S182.
Friis, E. M., Pedersen, K. R., & Crane, P. R. (2004). Araceae from the Early Cretaceous of Portugal: evidence on the emergence of monocotyledons.Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 101(47), 16565-16570.
Rydin, C., Pedersen, K. R., Crane, P. R., & Friis, E. M. (2006). Former diversity of Ephedra (Gnetales): evidence from Early Cretaceous seeds from Portugal and North America. Annals of Botany, 98(1), 123-140.
Heimhofer, U., Hochuli, P. A., Burla, S., & Weissert, H. (2007). New records of Early Cretaceous angiosperm pollen from Portuguese coastal deposits: Implications for the timing of the early angiosperm radiation. Review of Palaeobotany and Palynology, 144(1), 39-76.
Mendes, M. M., Friis, E. M., & Pais, J. (2008). < i> Erdtmanispermum juncalense
sp. nov., a new species of the extinct order Erdtmanithecales from the Early Cretaceous (probably Berriasian) of Portugal. Review of Palaeobotany and Palynology, 149(1), 50-56.Pais, J. (2009). Évolution de la végétation et du climat pendant le Miocène au Portugal. Ciências da Terra, 8.

sábado, julho 19, 2014

Evidências das plantas fósseis welwitchóides no Cretácico de Portugal


A paleontóloga sueca Else Marie Friis e colegas publicaram mais um artigo sobre a flora fóssil do Cretácico de Portugal, desta vez sobre uma planta próxima da famosa e bizarra Welwitschia mirabilis, com a descrição de um novo género e novas espécie: Bicatia costata e B. juncalensis são as nova espécies de Welwitschoidea (em Português: welwitchóide) de Juncal e Famalicão.





Abstract:
Bicatia gen. et sp. nov. from the Early Cretaceous of the Northern Hemisphere is described based on three species of dispersed seeds: Bicatia costata from the Juncal and Famalicão localities (western Portugal) and the Kenilworth locality (eastern North America), B. juncalensis from the Juncal locality, and B. rugosa from the Puddledock locality (eastern North America). Seeds of B. costata and B. rugosa are known from both lignitised (Juncal, Kenilworth, Puddledock) and charcoalified specimens (Famalicão, Puddledock), whereas seeds of B. juncalensis are known only from lignitised material (Juncal). All three species have the same characteristic chlamydospermous organisation seen in the wide range of other Early Cretaceous seeds that have been assigned to the Bennettitales-Erdtmanithecales-Gnetales (BEG) group. However, the species of Bicatia differ from all previously described BEG seeds in having a disymmetrical and flattened seed envelope
with more or less distinct lateral wings. All three species are also closely associated with polyplicate pollen grains that have a prominent distal colpus. Pollen grains of this kind are very similar to those of extant Welwitschia. The combination of seed and pollen features seen in Bicatia provides the strongest documentation so far of Welwitschia-like plants in the Northern Hemisphere during the Early Cretaceous.

Referência:
Else Marie Friis, Kaj Raunsgaard Pedersen & Peter R. Crane (2014): Welwitschioid diversity in the Early Cretaceous: evidence from fossil seeds with pollen from Portugal and eastern North America, Grana, DOI: 10.1080/00173134.2014.915980

sexta-feira, outubro 11, 2013

O estranho mundo da Welwitschia mirabilis, a planta do tempo do dinossauros

Welwitschia mirabilis de dimensões enormes, em Angola
Uma das principais curiosidades do Deserto do Namibe, no sul de Angola e norte da Namíbia, é a ocorrência de uma estranha planta chamada Welwitschia mirabilis. Trata-se de uma espécie relíquia do tempo dos dinossauros, e é única do teu tipo. É uma planta gnetófita sem verdadeiras flores, mas com um sistema vascular semelhante ao das angiospérmicas.

As welwitschias são conhecidas no registo fóssil do Cretácico Inferior do Brasil, ou seja antes da separação entre a América do Sul e África (que se deu completamente apenas no Cretácico superior). A Welwitschia é por isso um excelente exemplo de uma espécie-relíquia e argumento a favor tectónica de placas. Isto também mostra quão antigo é o deserto do Namibe, pelo menos desde o Cretácico superior, qual como tem vindo a ser demostrado pela nossa investigação em Angola.

Welwitschia mirabilis em estádio de crescimento inicial, em Angola
Na mitologia de Angola estas plantas são por vezes retratadas como carnívoras, o que obviamente não é verdade. Isso não impediu que marca de água tónica e de sapatos que usem o nome comercial Welwitschia.

Cada Welwitschia tem apenas duas única folhas e podem atingir vários metros de diâmetro. São dioicas (indivíduos do sexo feminino ou masculino, separadamente) .

O nome da planta foi dado em honra do botânico austríaco Friedrich Welwitsch que trabalhava para Portugal.



 

Fotos: O. Mateus

quinta-feira, outubro 03, 2013

João Pais, paleobotânico

O paleontólogo do mês é o Prof. João Pais, que se aposentou recentemente e que publicou agora um artigo sobre a paleo-flora do Cretácico Inferior.

Lígia Castro, João Pais e Octávio Mateus. 2008.


Paleontólogo catedrático aposentado no Departamento de Ciências da Terra da FCT UNL, o Prof. João José Cardoso Pais nasceu no em Cabeção, Mora a 14 de Outubro de 1949. Prestou provas de Doutoramento primeiro sobre a orientação do Professor Carlos Teixeira e após a entrada para a UNL, sob a orientação do Professor Miguel Telles Antunes, terminando em 1982 com distinção e louvor.
1972 - Licenciatura (Geologia), Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa
1982 - Doutoramento (Estratigrafia e Paleobiologia), Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa
1991 - Agregação (Estratigrafia e Paleontologia), Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa

Segundo o seu CV no Degois:
João Pais, Miguel Ramalho, Moitinho de Almeida
e António Ribeiro. Foto por O.M. 2007
Publicou 96 artigos em revistas especializadas e 53 trabalhos em actas de eventos, possui 12 capítulos de livros e 9 livros publicados. Possui 478 itens de produção técnica. Participou em 45 eventos no estrangeiro e 46 em Portugal. Orientou 4 teses de doutoramento, orientou 3 dissertações de mestrado e co-orientou 2 nas áreas de Ciências da Terra e do Ambiente e História e Arqueologia. Recebeu 3 prémios e/ou homenagens. Actua na área de Ciências Naturais com ênfase em Ciências da Terra e do Ambiente. Nas suas actividades profissionais interagiu com 352 colaboradores em co-autorias de trabalhos científicos. No seu curriculum DeGóis os termos mais frequentes na contextualização da produção científica, tecnológica e artístico-cultural são: Geologia, Estratigrafia, Engenharia Geológica, Paleobotânica, Cartografia geológica, Paleoecologia, Paleontologia, Arqueobotânica, Arqueozoologia e Educação.

Descreveu as seguintes espécies de plantas fósseis:
Annonxylon teixeirae sp. nov.
Brachyphyllum lusitanicum n. sp.
Frenelopsis teixeirae sp. nov. (colaboração K. L. Alvin)
Ischyosporites teixeirae n. sp. (colaboração Y. Reyre)
Pinus fluvimajoricus n. sp.
Pterophyllum mondeguensis n. sp.
Todites falciformis n. sp.
Erdtmanispermum juncalense n. sp. (colaboração M. Mendes & E. Friis)
Raunsgaardispermum lusitanicum n. gen. n. sp. (colaboração M. Mendes & E. Friis)
Erdtmanitheca portucalensis n. sp. (colaboração com M. Mendes, E. Friis & R. Pedersen)


E foram-lhe dedicadas duas espécies:
Xestoleberis paisi Nascimento, 1989 - Ostracodo do Aquitaniano da Bacia do Baixo Tejo 
Microparamys paisi Estravís, 1994 - Roedor, Ischyromyidae do Eocénico de Silveirinha 

Selecção de obras:

2013
Mendes, M. M., Dinis, J., Pais, J., & Friis, E. M. (2013). Vegetational composition of the Early Cretaceous Chicalhão flora (Lusitanian Basin, western Portugal) based on palynological and mesofossil assemblages. Review of Palaeobotany and Palynology.
2012
Pais, J. (ed., autor), Cunha, P.P., Pereira, D., Legoinha, P., Dias, R., Moura, D., Silveira, A.B., Kullberg, J.C. & González-Delgado, J.A. (2012) - The Paleogene and Neogene of Western Iberia (Portugal) A Cenozoic record in the European Atlantic domain. Springer. 158p. DOI: 10.1007/978-3-642-22401-0
Kullberg, J. C., Pais J., Almeida J. A., & Mateus O. (2012). Contributo do património geológico e geomorfológico na candidatura da Arrábida (Portugal) a Património Mundial Misto. 46º Cong. Brasileiro Geologia / 1º Cong. Geologia Países Língua Portuguesa. , Set-Oct 2012, Santos (Brazil)
2011
Mendes, M. M., Dinis, J., Pais, J.; Friis, E. M. (2011) - Early Cretaceous flora from Vale Painho (Lusitanian Basin, western Portugal): An integrated palynological and mesofossil study. Review of Palaeobotany and Palynology. doi: 10.1016/j.revpalbo.2011.04.003

Vieira, M., Poças, E., Pais, J.,  Pereira, P.(2011) - Pliocene flora from S. Pedro da Torre deposits (Minho, NW Portugal). Geodiversitas, 13(1): 71-85. DOI:10.5252/g2011n1a5

2010
Barrón, E., Rivas-Carballo, R., Postigo-Mijarra, J.M., Alcalde-Olivares, C., Vieira, M., Castro, L., PAIS, J., Valle-Hernández, M. (2010) – The Cenozoic vegetation of the Iberian Peninsula. A synthesis. Rev. Palaeob. Palynology, 162: 382-402 . doi: 10.1016/j.revpalbo.2009.11.007.

2009
Cunha, P. P.; PAIS, J.; Legoinha, P. (2009) - Evolução geológica de Portugal continental durante o Cenozóico – sedimentação aluvial e marinha numa margem continental passiva (Ibéria ocidental). Proc. 6th Symposium on the Atlantic Iberian Margin, December, 1-5, Univ. Oviedo, pp. xi- xx.

Dias, R. &; PAIS, J. (2009) – Homogeneização da cartografia geológica do Cenozóico da Área Metropolitana de Lisboa. Com. Geol., Lisboa, 96: 39-50. ISSN 1647-581X

2008
Manuppella, G.; Zbyszewski, G.; Choffat, P.; Almeida, F.M. (levantamentos). Rey, J.; Dias, R.P.; Rebelo, L.; PAIS, J.; Ornelas, F.; Moniz, C.; Cabral, J. (novos levantamentos). Ramalho, M.; Dinis, J.; Ribeiro, L.; Clavijo, E.; Cunha, T. A. & Caldeira, R. (colaboração). Moniz, C.; Dias, R. P. & PAIS, J. (adaptação e revisões). Baptista, R.; Moniz, C. (corte geológico). Baptista, R. (interpretação sísmica). Moniz, C. (colunas litostratigráficas). PAIS, J & Dinis, J. (revisão coluna litostratigráfica) (2008) – Carta geológica de Portugal na escala 1:50 000. Folha 34-B Loures. 3ª edição. INETI, Departamento de Geologia.



Links:

sábado, setembro 17, 2011

As plantas e o clima do Jurássico Superior de Portugal

A flora do Jurássico Superior era obviamente diferente da actual. Constituída essencialmente por coníferas, cicas e fetos. O Prof. João Pais (1998), da Universidade Nova de Lisboa, dá-nos a lista das plantas conhecidas a partir de macro-restos:

CONIFEROPHYTA
Sphenolepis choffati, Pagiophyllum lusitanicum, Pagiophyllum sp., Elatides falcifolia,  Cupressinocladus micromerum, Brachyphyllum lusitanicum
GINKGOPHYTA
Baiera viannae
CYCADOPHYTA
Ptilophyllum cf. Acutifolium, Pterophyllum mondeguensis, Pterophyllum sp., Otozamites mundae, Otozamites sp.
PTERIDOSPERMOPHYTA
Scleropteris sinuata
PTERIDOPHYTA
Scleropteris sinuata, Adiatum sp., Todites falciformis, Laccopteris sp., Coniopteris cf. murrayana, Pecopteris browniana, Sphenopteris sinuata, Sphenopteris minuta, Equisetites lusitanicum
HEPATOPHYTA
Marchantites archantiaeformis

As principais áreas são o Cabo Mondego, Guimarota e Lourinhã.

Tronco de árvore fóssil no Jurássico superior da Lourinhã (cerca de 149 milhoes de anos)

O clima era sub-tropical, árido com grandes chuvadas, ou seja, com monções sazonais que, segundo Martinius e Gowland, 2010, eram no verão.


Referências:
Pais, J. 1998. Jurassic plant macroremains from Portugal. Memórias da Academia de Ciências de Lisboa. 37: 25-47


Martinius, AW. & Gowland, S., 2010 Tide-influenced fluvial bedforms and tidal bore deposits (Late Jurassic Lourinha Formation, Lusitanian Basin, Western Portugal). Sedimentology (2010)





sexta-feira, abril 24, 2009

Ginkgo biloba, uma árvore jurássica?

O Ginkgo biloba é uma árvore que ornamenta tantas alamedas e jardins em todo o mundo e também em Portugal, e originária do Norte da China. É uma árvore de grande porte de folhas caducas com dois lóbulos que lhe conferem o epíteto específico.

É considerada um fóssil vivo por ser uma espécie relíquia que representa um grupo de plantas já extintas e outrora foram abundantes. Podemos dizer que o Ginkgo biloba é uma árvore jurássica? Bem… a espécie G. biloba é mais recente e ainda não tinha surgido no jurássico, mas o género Ginkgo é o mesmo, sob a forma de uma espécie distinta no Jurássico, o Ginkgo yimaensis, com folha multi-lobadas, e com cachos com mais, mas menores, frutos. Portanto podemos dizer que o Ginkgo é uma árvore jurássica, mas já não o podemos dizer da espécie actual G. biloba. O Ginkgo é tão único que tem o seu grupo próprio, as Ginkgophyta. O representante deste grupo do Jurássico superior de Portugal é Baiera viannae (ver Pais, 1998, sobre a vegetação do deste período em Portugal).

O facto de ser dióica faz com que exista separação sexual por indivíduos, ou seja, há árvores masculinas e árvores femininas. À porta do Departamento de Paleontologia do Museu Nacional de História Natural de Paris existe um esplendoroso Ginkgo que possui os dois sexos no mesmo indivíduo através de enxertos artificiais. Foi uma semente dessa mesma árvore que coloquei num vaso, brotou, que plantei à porta de minha casa e agora é uma bela árvore com uma altura considerável.

Foi também um Ginkgo biloba que os paleontólogos Miguel Telles Antunes e Philip Currie plantaram nas ruas da Lourinhã.

  

Pais, J. 1998. Jurassic plant macroremains from Portugal. Memórias da Academia de Ciências de Lisboa. 37: 25-47

Mateus, O. 2008  Fósseis de transição, elos perdidos, fósseis vivos e espécies estáveis   In: Evolução: História e Argumentos Edited by:Levy et al.. 77-96 Lisboa: Esfera do Caos, ISBN: 978-989-8025-55-5. 

Zheng and Z. Zhou, 2004. A new Mesozoic Ginkgo from western Liaoning, China and its evolutionary significance. Review of Palaeobotany and Palynology,  131(1-2): 91-103.

 


Evolução do “fóssil vivo” Ginkgo: embora apenas a nível específico ocorre evolução do género Ginkgo desde o Jurássico (de Mateus, 2008, modificado, com permissão, a partir de Zhou & Zheng, 2004).

 


As folhas de Ginkgo biloba no Outono adquirem uma cor amarela antes de caírem.



quarta-feira, setembro 06, 2006

PALINOLOGIA

PALINOLOGIA

por Isabel Mateus
Membro-fundador do Museu da Lourinhã
Texto publicado na Revista Cais em 2003


O que é a palinologia
A Palinologia é o estudo dos pólenes e esporos. É, também, o estudo de todo o conteúdo de origem orgânica observável ao microscópio após tratamento químico. A este conteúdo dá-se o nome de palinomorfos (restos de animais e plantas microscópicos como fragmentos de tecido animal e vegetal, algas planctónicas, esporos e pólenes).
É uma ciência biológica, do ramo da botânica, descritiva, de aplicações interdisciplinares como a Agronomia, Entomologia, Arqueologia, Biogeografia, Climatologia, Botânica, Geologia, Paleontologia, Medicina e Estudos forenses.
É uma ciência jovem que aparece com a invenção das lentes de aumento e do microscópio. Em 1702, Wilson, um construtor de microscópios, descreve a Farinha de Flores de Plantas observada ao microscópio.
E é com o desenvolvimento das explorações petrolíferas que a palinologia atinge o seu auge sendo essencial no conhecimento da génese dos hidrocarbonatos.
Vamos apenas referir alguns exemplos da interdisciplinaridade que se estabeleceu entre a palinologia e outras ciências.

A palinologia na arqueologia
Na arqueologia, a palinologia começou por ser utilizada, antes do uso do rádio-carbono, na datação dos sítios arqueológicos e reconstituição do meio ambiente. É um auxiliar precioso para conhecimento dos hábitos agrícolas, comerciais, alimentares e religiosos, principalmente quando não há dados escritos.
Em 1975, Leroi-Gourhan estudava a gruta de Shanidar, no Iraque. O resultado da análise polínica dos sedimentos que cobriam directamente o túmulo de homens de Neanderthal, demonstraram que foram utilizadas flores durante o enterramento. Estas flores eram provenientes das terras altas não existindo no restante contexto. Quererá isto dizer que o Homem de Neanderthal tinha um ritual religioso em que depositava flores no túmulo dos seus mortos, tal como se faz ainda hoje?

A palinologia na medicina forense
O primeiro uso da palinologia como ferramenta forense ocorreu em 1959, na descoberta de um crime praticado na Áustria. Não se conseguia encontrar o corpo de um homem desaparecido em Viena, supostamente assassinado. Um par de sapatos enlameados pertencentes a um suspeito, foram examinados pelo palinólogo Wilhelm Klauss que encontrou, na lama, pólenes de várias plantas e, entre eles, os de uma nogueira fóssil que se extinguiu há cerca de 20 milhões de anos. Com estas características apenas se encontrava um terreno bem circunscrito a cerca de 20 km a norte de Viena. Confrontado com estes resultados e pressionado pela polícia, o suspeito confessou o crime e levou os investigadores ao local onde tinha escondido o corpo.
Actualmente, a palinologia é um instrumento utilizado em diversos países para a resolução de crimes de morte, de droga e de falsificação de obras de arte.

A palinologia na paleontologia
A palinologia permite-nos definir o meio ambiente ou o período geológico em que foi feita a sedimentação. Reforça o conhecimento da evolução das espécies botânicas, permite-nos a reconstituição da flora, deduzir qual o clima e a paisagem do sítio estudado e, assim, saber o que comiam os dinossauros.
A palinologia é usada para definição do meio e paleoambiente. Uma microflora unicamente composta por palinomorfos de origem marinha informa-nos que os sedimentos foram depositados no mar. No caso oposto, em que apenas se observam detritos vegetais, pólenes e esporos, pode-se afirmar que a sedimentação se fez em meio continental, lacustre, ou seja, de água doce. Se a associação palinológica é mista isso quer dizer que os microfósseis são de origens diferentes e a sedimentação foi feita em águas salobras ou águas marinhas costeiras, sob influência continental, como se dá em casos de entrada de água dos rios no mar.
A identificação de palinomorfos, a sua contagem estatística e repartição por grupos, permitem a reconstituição da flora e deduzir qual podia ser o clima e a paisagem do sítio.
Certos palinomorfos cuja existência foi curta, são marcadores estratigráficos. A sua presença nos sedimentos permite datá-los e traçar correlações com outras bacias sedimentares mesmo que distantes umas das outras.
Exemplifiquemos a utilização da palinologia como ferramenta da paleontologia, no corte geológico de Paimogo, o sítio onde foram descobertos os ovos de dinossauro de terópode.
Os palinomorfos formam um conjunto relativamente homogéneo não havendo grande diversidade de plantas. A ausência de organismos de origem marinha, como os quistos de dinoflagelados, indica-nos que o meio sedimentar era lacustre (de água doce) ao abrigo de qualquer influência marinha.
A ausência de pólenes de angiospérmicas permite-nos afirmar que os sedimentos foram depositados antes do Cretácico. Os dados estatísticos e identificação dos palinomorfos são compatíveis com outros dados geológicos e paleontológicos, confirmando-se a deposição dos sedimentos que continham estes palinomorfos como tendo sido feita no Jurássico Superior.
Os esporos de fetos arbóreos dominam todo o conjunto, traduzindo um clima quente e abundância de água.
O número de pólenes é relativamente baixo. Entre estes destaca-se uma grande percentagem de pólenes Corollina pertencentes a uma conífera arcaica, indicativa de clima quente.
O coberto vegetal era feito principalmente por fetos arbóreos (Cyatheaceae, Gleicheniaceae, Lycopodiacea, Matoniaceae, Osmundaceae, Schizaeaceae) acompanhado pelo coberto rasteiro de licopódio semelhante à actual selaginela. A menor abundância de pólenes traduz uma maior escassez das gimnospérmicas, que eram representadas principalmente por coníferas semelhantes às actuais araucárias, pinheiros e cedros, sendo, em alguns níveis, notória a abundância de Brachyphyllum). Os ginkgos e as cicas eram pouco frequentes sendo estas representadas, principalmente, pela Cyca williamsonia.
Era esta a vegetação que os dinossauros herbívoros comiam no Jurássico Superior da Lourinhã. Não comiam maçãs nem amoras silvestres porque não havia angiospérmicas, as plantas que encerram as sementes em frutos carnudos.