sábado, fevereiro 28, 2004

Paimogo, um ninho de dinossauros

Octávio Mateus
Museu da Lourinhã
omateus@dinocasts.com
www.dinodata.net/lusodinos & www.dinocasts.com

texto publicado em: MATEUS, O. (2003). Paimogo, um ninho de dinossauros. Revista Cais, 79, Set, 2003.

ERA UMA VEZ…
Alguns dinossauros carnívoros fêmeas reuniam-se todos os anos para nidificarem nas areias perto de uma lagoa de águas calmas. Nesse ano, juntaram-se sete fêmeas. A mais jovem tinha seis metros de comprimento, enquanto a mais velha rondava uns possantes oito metros. Após escolherem um sítio perto do que já tinha sido utilizado no ano anterior, a primeira fêmea pôs uma vintena de ovos, muito juntos, cada um com cerca de 12 cm. Os outros dinossauros fêmeas imitaram-na durante o resto do dia, até o ninho ser uma gigantesca concentração de 180 ovos de dinossauro carnívoro.
Estes dinossauros protegiam o ninho contra os comedores de ovos como crocodilos, lagartos e mesmo outros dinossauros. Ainda assim, um crocodilo de médio porte aproxima-se sorrateiramente daquela preciosa pilha de ovos com o cuidado de não ser detectado pelos dinossauros. O seu intuito não era predar o ninho e, rapidamente, deposita os seus próprios ovos no meio dos de dinossauro. Este crocodilo fêmea retira-se assim que termina a sua tarefa, deixando a sua prole bem protegida por um grupo de dinossauros carnívoros.
O tempo passa e, além de um ou outro ovo roubado e comido, os pequenos dinossauros desenvolvem-se depressa no seu líquido amniótico protector. Naquela região eram frequentes fortes aguaceiros mas, naquela altura, chovia mais do que o habitual. A chuva não parava, o lago começou a encher e a transbordar, até que chegou ao precioso ninho dos dinossauros, cobrindo-o com aquela água lamacenta que acabou por asfixiar e matar os pequenos embriões prestes a eclodir.

150 MILHÕES DE ANOS DEPOIS…
Cerca de 150 milhões de anos depois, aquele local, agora conhecido como Paimogo (perto da Lourinhã), é muito diferente. Em 1993, era palco de actividades de prospecção paleontológica por Isabel Mateus, que já conhecia o aspecto das cascas de ovos de dinossauros. Isabel acabava de fazer a maior descoberta da sua vida: um ninho de ovos de dinossauro com ossos de embrião!

O cenário acima descrito é uma interpretação que a equipa de paleontólogos nacionais e estrangeiros sugere para o que aconteceu há cerca de 150 milhões de anos, em pleno Jurássico Superior, com base nos dados científicos obtidos pelo Museu da Lourinhã em colaboração com a Universidade Nova de Lisboa, Museu de História Natural de Paris, Universidade de Coimbra, Colégio de França e Instituto Geológico e Mineiro.

A IMPORTÂNCIA DA JAZIDA
A jazida de Paimogo é a mais importante jazida paleontológica do Jurássico português. Trata-se do maior ninho de dinossauro do mundo, o único com embriões na Europa e um dos mais antigos que se conhecem. A revista americana Discover considerou-a uma das 100 descobertas científicas mais importantes de 1997, ano em que foi divulgada. A revista Expresso elegeu o casal Isabel e Horácio Mateus como Figuras do Ano 1997.

A presença de embriões neste ninho, raríssima a nível mundial, permitiu identificar a espécie de dinossauro: um Lourinhanosaurus. Este era conhecido anteriormente a partir de parte de um esqueleto de um indivíduo sub-adulto que, caso estivesse completo, tinha cerca de 4,5 metros de comprimento.
Com mais de 200 ossos de embrião identificados, era possível, pela primeira vez, classificar a espécie de dinossauro a que pertenciam aqueles ovos jurássicos, além de responder a muitas perguntas que os cientistas colocavam sobre o crescimento, reprodução e comportamento de dinossauros.
Os pequenos Lourinhanosaurus atingiriam uma dimensão adulta (talvez com 8 metros) em menos de 10 anos, o que faz dos dinossauros os animais de crescimento mais rápido entre os vertebrados. Pode conhecer-se a idade dos dinossauros contando-se os anéis de crescimento lento dos ossos, num processo análogo àquele utilizado nos troncos de árvores.

Os três ovos de crocodilo depositados neste ninho são os mais antigos que se conhecem e os paleontólogos acreditam que foram aí colocados para beneficiarem da protecção dos dinossauros.

Quanto a esta jazida, há ainda muitas questões sem resposta e a investigação está longe de terminar. Ainda assim, a jazida de Paimogo já é uma referência mundial no que concerne à reprodução de dinossauros.

2 comentários:

Katia disse...

Sou professora de Paleontologia na Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Brasil. Gostaria de parabenizá-los pelo site e blogue. Contêm informações interessantíssimas e muito curiosas.
Sobre o trabalho do ninho de dinossauros, apliquei numa aula de paleoecologia, justamente por ser uma forma de comensalismo.
Os alunos adoraram e acessaram o site e o blogue com o intuito de obter mais informações.
Parabéns novamente.
Katia

Octavio Mateus disse...

Obrigado pelo comentário. Ainda bem que lhe foi útil.

Cumprimentos,
Octávio