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sexta-feira, janeiro 01, 2021

Os lemingues fósseis que (não) existiram em Portugal

Esta é a bizarra história da descrição de lemingues fósseis em Portugal... que afinal não eram.

 Gerald Edwin Hamilton Barrett-Hamilton (n. 1871, m. 17 Janeiro 1914) foi um notável historiador natural britânico / irlandês, co-autor com de A History of British Mammals, que permaneceu "o mais completo, preciso e científico publicação "sobre mamíferos britânicos até os anos 1950. A sua participação na paleontologia portuguesa é acidental e acidentada. O alemão Hans Friedrich Gadow (1855-1928) forneceu-lhe restos de um lemingue mumificado de uma gruta entre a Atouguia das Cabras e a Ota, "Dr. H. Gadow gave an account of the caves which he had explored in the summer of 1886. They were situated in the province of Estremadura, in the low sierra between the villages of Athouguia and Otta, the nearest town being Santarem. The geological formation was hard white-blue limestone of the Rhaetic System. The cases lay only two or three hundred feet above the sea-level, and the particular one which yielded the bones was choked near the entrance the loose dry dust. About a foot below the surface of the dust was found an unpolished flint arrow-head. The cave was absolutely dry, and its horizontal bottom, extending for about 60 feet into the mountain, was covered with about two or three feet of the dust, which contained bows of small Ruminants and of Bear, besides those of the Lemmings. The Lemming-bones were found at the far end of the cave, almost on the top of the dust (Barrett-Hamilton, Proceedings of the Zoological Society of London, 1896, p.306). Nehring (p.293) escreve ainda “These objects were found by Dr. H. Gadow in 1886 at the back of a perfectly dry cave at Athouguia, not far from Santarem. The celebrated explorer wrote to me under the date of the 21st of February, 1899, as follows :--" The cave in question is situated on very hard Jurassic limestone, about 50 to 100 feet above the bottom of a valley watercourse, which is dry, except in winter and in the rainy season : it runs horizontally into the mountain.”


Ossos de lemingue alegadamente de Portugal


Lemingue

Barrett-Hamilton leu na Zoological Society of London (1896 Proceedings' of the Zoological Society of London 304-306) sobre estudou os lemmings mumificados recolhidos por H. Gadow. A espécie foi mais tarde baptizada pelo paleontólogo alemão Alfred Nehring  (1845-1904) como nova variedade Myodes lemmus crassidens.

  O naturalista irlandês Barrett-Hamilton (1871–1914)

Paleontólogo alemão Alfred Nehring  (1845-1904)


Contudo a ocorrência de lemming mumificados em Portugal seria altamente improvável, tanto do ponto de vista zoológico como invulgar no tipo de conservação de espécimes na região. Os lemmings não chegaram tão a sul e em Portugal continental não existem casos de vertebrados mumificados em grutas.


As dúvidas não se fazem chegar pela escrita de Édouard Harlé (1909: p.85; 1919: pp.52 e 81) que afirma que “a determinação não pode deixar dúvidas mas é bem diferente com a proveniência”. Hinton (1926, p. 201) também tece séria dúvidas da proveniência deste material como sendo de Portugal e sugere que tenha havido uma mistura de espécimes feita por Gadow.  One of the collectors of the Geological Survey of Portugal, Ramao de Souza, was sent to Athouguia with instructions to search the caves thoroughly for Lemming remains. No trace of a Lemming was found, and Harlé concludes that the " mummies " described by Barrett-Hamilton certainly did not come from Portugal. (Harlé, Bull. Soc. geol. France, 1909, p. 85, and Commun.  Comm. Serv. Geol. Portugal, 8, 1910-11, pp. 52, 81.)]


Em resumo, Barrett-Hamilton descreve a ocorrência de lemingue mumificado a partir de espécimes que Gadow forneceu e pensava serem de Portugal. Gadow recolheu restos fósseis possivelmente perto de Atouguia das Cabras mas deve ter trocado as amostras. Continua a não existir nenhum registro de lemingues em Portugal.



Cette image sous son passe-partout était dans un cadre de format 19x26cm. le lot de cadres était conservé dans la salle de préhistoire.inscription au dos du cadre : "Edouard HARLE 1850-1922

Paleontólogo Francês Edouard Harlé (1850-1922).

sexta-feira, maio 15, 2020

"Lanche Científicos": o que comiam os Neandertais ?

Todas as segundas-feiras a nossa equipa de paleontólogos da Universidade Nova de Lisboa e Museu da Lourinhã faz um lanche científico: pelas 17:00 descontraímos, pegamos numa bebida e falamos sobre ciência e paleontologia!

Na próxima temos mais um lanche científico, desta vez em forma de perguntas/respostas, com Prof. João Zilhão sobre a alimentação dos Neandertais baseado no seu recente artigo na Science https://science.sciencemag.org/content/367/6485/eaaz7943.

Através de sessão do Zoom, cujo endereço pode ser adquirido através de um pedido por email a omateus@fct.unl.pt

Mais informação em https://docentes.fct.unl.pt/omateus/pages/scientific-snacks




sexta-feira, março 27, 2020

Gruta na Arrábida mostra que os Neandertais também eram pescadores

Gruta na Arrábida mostra que os neandertais também eram pescadores. Além de alimentos de origem terrestre, os neandertais comiam peixes ósseos, tubarões, golfinhos, focas, tartarugas, imensos moluscos, e caranguejos conforme os registos da Gruta da Figueira Brava, na Arrábida, que datam de 86 a 106 mil anos atrás.
Sabia-se que os humanos neandertais eram exímios caçadores e comiam carne, mas este novo estudo em Portugal publicado na Science revela evidências de que os neandertais do Paleolítico Médio exploravam os recursos marinhos em escala semelhante à moderna Idade Média da Pedra associada à humanidade da África Austral.
O artigo “Last Interglacial Iberian Neandertals as fisher-hunter-gatherers” é assinado pelo famoso arqueólogo João Zilhão e seguido por D. E. Angelucci, M. Araújo Igreja, L. J. Arnold, E. Badal, Pedro Callapez, João Luis Cardoso, F. d’Errico, J. Daura, M. Demuro, M. Deschamps, C. Dupont, S. Gabriel, D. L. Hoffmann, Paulo Legoinha, H. Matias, A. M. Monge Soares, M. Nabais, P. Portela, A. Queffelec, F. Rodrigues, P. Souto. Vale a pena ler o artigo ver o material complementar de 171 páginas.
A familiaridade com o mar e seus recursos pode ter sido generalizada para os residentes no Paleolítico Médio. Essas descobertas acrescentam dimensões mais amplas à nossa compreensão do papel dos recursos aquáticos na subsistência dos seres humanos paleolíticos.

Gruta da Figueira Brava, na Arrábida (foto em Zilhão et al., 2020).
O curioso é que falta um registro da exploração regular de alimentos aquáticos na Europa neandertal embora os recursos marinhos aparecem com destaque ao lado de ornamentos pessoais, pintura corporal e desenhos geométricos lineares - na arqueologia no último interglacial africano.
A margem atlântica da Europa possui águas costeiras ricas em recursos. Da Escandinávia à França, no entanto, qualquer evidência para a última exploração interglacial de recursos marinhos teria sido perdida pelos subsequentes avanços da calota de gelo e pela submersão pós-glacial da ampla plataforma continental. Por outro lado, a plataforma muito íngreme da Arrábida, uma cadeia montanhosa do litoral 30 km ao sul de Lisboa, Portugal, permitiu que linhas costeiras existentes e submersas fossem preservadas a distâncias curtas. A Gruta da Figueira Brava, um dos locais de cavernas costeiras protegidas contra a erosão da Arrábida, oferece uma oportunidade singular para investigar se alguma acumulação considerável de restos de alimentos marinhos na Última Interglacial já existiu na Europa.
Figueira Brava fornece o primeiro registro de consumo significativo de recursos marinhos entre os neandertais da Europa. Os vieses tafonómicos e de preservação do local explicam por que esse tipo de registro não foi encontrado anteriormente na Europa na escala observada entre as populações africanas. Consistentes com evidências rapidamente acumuladas de que os neandertais possuíam uma cultura material totalmente simbólica, as evidências de subsistência relatadas aqui questionam ainda mais a lacuna comportamental que se pensava separá-los dos humanos modernos.

Veja nas notícias:
https://www.altmetric.com/details/78403527/news
https://science.sciencemag.org/content/367/6485/eaaz7943



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quarta-feira, maio 02, 2018

O Lince-Ibérico no registo fóssil português

O Lince-Ibérico Lynx pardinus, é o mais ameaçado dos felinos em todo o mundo. Já chegou a ser anunciado como extinto em Portugal mas felizmente voltaram a aparecer.
No registo fóssil ou subfóssil português há algumas ocorrências, sobretudo em depósitos de grutas, em várias localidades entre as quais Casa da Moura, Fontainhas, Caldeirão, Escoural, Algar de Cascais, Gruta das Salemas, Lapa da Rainha e Furninha.

Lince-Ibérico Lynx pardinus. Fonte: Programa de Conservación Ex-situ del Lince Ibérico www.lynxexsitu.es CC SA BY
Um novo estudo dá a conhecer uma nova ocorrência, um úmero direito, para Casais Robusto, concelho de Alcanena num trabalho que se enquadra na tese de mestrado em Paleontologia de Darío Estraviz.

Lynx pardinus, parte distal de úmero direito de Casais Robustos (FCTUNL-VP-713) (Estraviz & Mateus, 2018)

Estraviz, D, Mateus O.  2018.  The quaternary mammals from the caves of Casais Robustos and Cabeço de Morto, Alcanena (Portugal): the case of Lynx pardinus Temminck, 1827. EJIP Life finds a way: 159-162., Gasteiz, Spain