sexta-feira, outubro 10, 2008

Carta aberta ao site de anúncios “Ocasião” sobre venda de dinossauros

Há certos momentos na vida em que nos deparamos com dilemas éticos clássicos. A uma venda de ossos originais de uma cauda de dinossauro na edição online do Jornal Ocasião, remete precisamente para um desses dilemas. Será legitimo vendermos o nosso património paleontológico como se de um carro, um par de sapatos ou de um quadro se tratasse? O sistema capitalista será aplicável a tudo, mesmo a património de importância científica nacional? Este património é de todos nós ou do actual detentor?

 

Portugal é rico em dinossauros em comparação com outros países, mas ainda assim estes fósseis são raros e não são tão abundantes para que nos possamos dar ao luxo de os vender como se fosse uma mercadoria vulgar.

Eu tive a oportunidade de observar pessoalmente o espécime em causa, há já alguns anos. Conforme me foi relatado, a cauda e perónio deste dinossauro foram obtidos durante as terraplanagens realizadas pelos actuais detentores destes fósseis. Como paleontólogo, tinha aspiração de estudar aqueles ossos para melhor compreender o tipo de dinossauro e contribuir para o conhecimento da evolução e biologia destes animais. Contudo, o seu detentor sempre procurou o lucro a partir da venda a quem mais pagasse e estudar aquele dinossauro só iria aumentar o valor comercial do mesmo. Optei, deliberadamente, por me afastar.

Os fósseis como estes são raros e são testemunhos do passado do nosso planeta. É de minha opinião que não devem ser tratados de forma comercial e indiscriminada como de um objecto vulgar se tratasse. Devem estar num museu ou numa universidade, de forma a enriquecerem o conhecimento comum e público.

Neste sentido, apelo à empresa Ocasião - Edições Periódicas, Lda. (detentora do site www.ocasiao.pt) que retire imediatamente este item do seu catálogo e instaure a regra de boas práticas de não comercializar material paleontológico, arqueológico e biológico de importância científica e relevância nacional no seu site.

Octávio Mateus

Paleontólogo


2 comentários:

Ricardo Araújo disse...

Isto é da deontologia e ética, e nós temos culpas no cartório se pactuamos com este ataque descarado ao património natural!
Pena que não temos ainda ao nosso dispor os instrumentos legais para evitar este tipo de práticas.

R

Alexandra disse...

apoiado! não à venda de fosseis. são património de todos...mas como alguém cantava "money makes the world goes round..." é assim k este planeta funciona.
e como não há cartilha dos direitos do património...é à portuga: kem der mais...leva para casa...
lex.continuo anti-humanidade