quinta-feira, setembro 18, 2008

Intimidade

Existem coisas que realmente me deixam perplexo na natureza humana... Tenho estado a ler um livro sobre a conjectura de Poincaré. Poincaré foi um matemático francês bastante influente em vários campos incluindo a topologia e foi o predecessor da teoria do Caos. Ele criou um interessante problema que, desde essa altura os matemáticos se têm esforçado por resolver. Recentemente, um matemático meio obscuro Russo, vivendo com a sua mãe e perto do limiar da pobreza, conseguiu resolver a conjectura... após cerca de cem anos a esta ter sido formulada... Esta proeza seria bastante para Perelman - o seu nome - arranjar um emprego em qualquer grande universidade ou flutuar para onde quisesse na sociedade... na verdade ele foi galardoado com um dos mais desejados prémios da matemática, a Medalha Fields... mas ele recusou, ele recusou tudo... e isto fez-me pensar verdadeiramente... como conseguirá alguém, nos dias que correm, em que a meritocaracia é o rei e a ambição a rainha, recusar tal reconhecimento de um esforço? Provavelmente significa que o prazer que obteve ao resolver uma determinada questão matemática, não era mais do que a resolução ela própria... não os prémios, não o dinheiro, nem os aplausos públicos... apenas o problema per se! Isto fez-me pensar se eu próprio ou alguém que eu conheço reagiria da mesma maneira... e a resposta é um redondo: NÃO! O que talvez implique o quão dependentes estamos dos outros e quão desonestos seríamos ao dizer coisas como: "Eu estou em Medicina somente pelos outros". Talvez Perelman foi/é só um idealista ou um ser desaptado às regras do "jogo", mas não aceito um julgamento tão fácil... Talvez ele realmente viva apaixonadamente a matemática, porque o verdadeiro prémio ele afinal já o teve...

"Intimidade" originalmente escrita em inglês numa conversa com uma amiga:

"...there is stuff that astonishes me in human nature... I've been reading a book about Poincaré conjecture. Poincaré was a very influential French mathematician in various fields of maths including topology and the predecessor of chaos theory. And he created an interesting problem that many mathematicians have tried to resolve... Recently, an obscure Russian mathematician, living with his mum and almost in total misery, resolved the conjecture... after more than 100 years it was formulated... This achievement would be enough for Perelman - his name - to get a job at any great university and to get anywhere he wanted in society... indeed he was awarded with the most coveted prize in maths, the Fields prize... but he refused, he refused everything... This really made me wonder... how can someone, in our days, where meritocracy is the king and ambition the queen, refuse such great recognition of an effort? It probably meant that the pleasure he got by demonstrating a certain mathematical issue was no more than the problem itself... not the prizes, not the money, not public applause, no nothing... only the problem itself! This made me think unavoidably if I would react the same way, or even if anyone I know would react the same way... and the answer is definitely: NO! Which perhaps implies how dependent we all are of others and how dishonest it would be to claim stuff like: "I am in Medicine only for the passion about the subject." Maybe Perelman was/is just an idealist or someone inadapted to the rules of the "game", but I don't accept such an easy judgement... Maybe he truly loves maths, maybe he loves it so much that he can even reject the most important prizes, because the best prize he already got..."

2 comentários:

Alexandra disse...

olá "meu" guia favorito!
obrigado por compartilhares esta "intimidade"connosco.
agradeço-te, porque ando tão descrente da humanidade k o exemplo desse homem me fez pensar se não valeria a pena dar -lhe mais uma chance.
beijoka grande
xana..."olha uma amonite!"

Ricardo Araújo disse...

Olá Alexandra,

Concordo: faz mesmo pensar.
Não é estreia, contudo. Já houve muita gente que recusou prémios mais que merecidos... mas este foi mais um exemplo.

R