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sexta-feira, maio 10, 2019

Caracteristicas chave dos dinossauros

O que é um dinossauro? É um animal do grupo dos Dinosauria Owen, 1842. Por definição é o último ancestral comum do Triceratops horridus, do Passer domesticus, do Diplodocus carnegii e de todos os seus descendentes (Baron et al, 2017).

Já as características anatómicas que os distinguem dos outros répteis são:

  1. Fossa supratemporal em frente à fenestra supratemporal; 
  2. Epipófises presentes; 
  3. Rádio menor que 80% do comprimento do úmero; 
  4. Dígito manual semi-oposição I; 
  5. Dígitos manuais reduzidos IV & V; 
  6. Acetábulo aberto (perfurado).


Características distintivas dos dinossauros.



E estas são as características chave os principais grupos de dinossauros:



Clado
Características chave
Archosauria
Pescoço com curva em forma de S; Tíbias e metatarsos longos;
Fenestra antorbital e mandibular;
Dinosauria
Fossa supratemporal em frente à fenestra supratemporal;
Epipófises presentes; Rádio menor que 80% do comprimento do úmero;
Dígito manual semioposição I;
Dígitos manuais reduzidos IV & V; Acetábulo aberto (perfurado)
Ornithischia
Pelvis opistopúbica; Osso predental; Osso palpebral;
Fenestras antorbitais reduzidas ou mesmo fechadas;
Articulações da mandíbula abaixo do nível dos dentes;
Dentes largos em forma de folha com grandes dentículos; 5 ou mais vértebras sacras
Thyreophora
Osteodermes parasagitais com quilha na face dorsal do tronco
Stegosauria
Espigões na cauda e osteoderme axiais como placas largas
Dacentrurinae
Pescoço longo; Placas em pares; Costelas e vértebras cervicais fundidas
Ankylosauria
Membros curtos; Osteodermos abundantes, inclusive no crânio e na mandíbula;
Suturas cranianas obliteradas e anquilosadas
Neornithischia
Camada mais espessa de esmalte assimétrico no interior dos dentes inferiores
Ornithopoda
Púbis longo que se estende além do ílio; Bico córneo; Sem fenestra mandibular
Iguanodontia
Sem dentes pré-maxilares; Coroas dentárias Losangulares; 6 ou mais vértebras sacrais
Ankylopollexia
Polegar suporta espigão cónico
Saurischia
Articulações adicionais (hyposfeno-hipantro) nas vértebras dorsais
Sauropodomorpha
Aumento do tamanho corporal; Diminuição do tamanho do crânio; Pescoço longo
Sauropoda
Narina na superfície dorsal do crânio; Vértebras pré-sacrais com extensos pleurocoels;
12 ou mais cervicais; Redução no número de falanges da mão;
Manus apenas com garra (falange ungeal) no digito I
Eusauropoda
Pescoço alongado: cervicalização da vértebra dorsal e a adição de duas vértebras cervicais
Neosauropoda
Fenestra pré-antorbital; dentes sem dentículos; dois ou menos carpais;
extremidade tibial subcircular; Dentes na frente do focinho;
Narinas colocados dorsalmente; Metacarpo colunar
Diplodocidae
Cauda longa e em chicote; Narina retraída que se uniram acima da órbita;
Crânios longos; Membros anteriores curtos
Macronaria

Narinas grandes; Corpo distais isquiais quase coplanares.
Titanosauriformes
Facetas de desgaste dentário acentuadamente inclinadas em relação ao eixo labio-lingual;
Costelas dorsais anteriores, largas e tabulares;
Vértebras dorsais com lâmina centroparapofisárias posterior
Ornithoscelida
Forame pré-maxilar anterior; Diastema; Crista aguçada na maxila;
Jugal excluído da fenestra antorbital; Quadrado orientado anteroventralmente;
Processos paroccipitais alongados; Forâme na superfície lateral do dentário;
Trocânter anterior expandido e parcialmente separado da diáfise femoral
Theropoda
Mandíbula cinética e flexível; 5 ou mais vértebras sacras; mão:
Dígito V ausente (mão de 4 dedos); Falanges do dígito V do pé ausente;
Pé: Dígito I reduzido e sem contato com a articulação do tornozelo; Clavículas fundidas
Neotheropoda
Fenestra no lacrimal; Dentes pré-maxilares simétricos; Parte anterior expandida do ílio;
Número reduzido de dentes maxilares
Ceratosauria
Púbis e ísquios fundidos ao ílio em adultos
Tetanurae
Dentes posteriores em posição anterior (antes do lacrimal)
Megalosauroidea
Presença de pós-orbital: Processo jugal em forma de U
Coelurosauria
Carpal hemi-circular; Mãos longas e esguias; Protopenas; Esterno ósseo sólido
Maniraptora
Cauda rígida distalmente;
Membros anteriores pelo menos ¾ comprimento da coluna vertebral pré-sacral;
Parte frontal da expansão púbica ausente; comportamento de chocar;
Longas penas nos braços
Aves
Vôo activo; Membro anterior mais longo do que o membro posterior

Baron, Matthew G.; Norman, David B.; Barrett, Paul M. (22 March 2017). "A new hypothesis of dinosaur relationships and early dinosaur evolution". Nature. 543 (7646): 501–506. Bibcode:2017Natur.543..501B. doi:10.1038/nature21700
.

quinta-feira, novembro 24, 2016

Apelo à manutenção dos espécimes-tipo


Um conjunto de 500 cientistas / taxonomistas fazem um apelo a favor do procedimento taxonómico na manutenção de espécimes-tipo, num artigo que agora é apresentado na Zootaxa. O artigo é liderado pelo português Luís Ceríaco (Villanova University), Eliéger Gutiérrez (Universidade de Brasília), Alain Dubois (Museu de História Natural de França) e conta com muitos outros investigadores, nos quais nos incluímos.

Colecções museológicas de paleontologia.
Exemplo de Brigham Young University, Provo, EUA. Foto por OM
Quando se descreve uma nova espécie, ela é baseada num exemplar de referência, o espécime-tipo, ou holótipo. A questão de saber se as descrições taxonómicas que designam novas espécies animais sem espécime-tipo depositado em colecções devem ser aceitas para publicação em revistas científicas e permitidas pelo Código têm sido discutidas e postas em causa. Esta questão foi novamente levantada numa carta apoiada por 35 signatários publicada na revista Nature (Pape et al., 2016) em 15 de Setembro de 2016. Em 25 de Setembro de 2016, a seguinte refutação (estritamente limitada a 300 palavras de acordo com as regras editoriais da Nature ) Foi entregue à Nature, que em 18 de outubro de 2016 se recusou a publicá-la. Como pensamos que este problema é muito importante para a taxonomia zoológica, este texto é publicado aqui exactamente como submetido à Nature, seguido pela lista dos 493 taxonomistas e pesquisadores que estudam coleções, e que assinaram no curto espaço de tempo de 20 de Setembro a 6 de Outubro de 2016.

Correspondência

Em defesa de uma descrição de espécies sem espécimes preservados, alguns colegas deram recentemente argumentos que poderiam levar ao uso generalizado da taxonomia baseada em fotografia (TBF) (Pape et al., 2016). Nós 493 pesquisadores baseados na colecções refutamos esses argumentos.

O objetivo principal do Artigo 73.1.4 do Código - que tolera a nomeação de espécies descritas com base em ilustrações - é permitir a disponibilidade nomenclatural de nomes de espécies estabelecidos sem espécimes de referência antes da maturidade da taxonomia. No entanto, as descrições modernas não devem ser feitas sem provas materiais através de pelo menos um espécime de tipo "museu", que preserva muitos caracteres que não podem ser vistos em fotografias e permitir objetividade, reprodutibilidade e refutabilidade.
A delimitação de espécies é uma questão de taxonomia, não de nomenclatura, mas o trabalho taxonómico exige que esse espécime estabeleça uma ligação objetiva entre um nome e uma população natural, sem a qual a alocação do nome permanece incerta.
As espécies alegadas conhecidas apenas de fotografias podem ser referidas por nomes não científicos até que a recolha de um espécime permita descrições taxonómicas aceitáveis.
A revisão por pares, que não é exigida pelo Código, pode de facto ser útil para trabalhos taxonómicos, se realizada por árbitros competentes, mas tem-se mostrado repetidamente insuficiente para evitar descrições erróneas. O TBF promoverá a divulgação rápida de descrições mal revistas com base em "provas" não verificáveis.
O TBF é prejudicial para os campos da biologia que dependem da taxonomia: impedindo a aprovação de permissões para recolher- um grande incómodo para a taxonomia; Prejudicando a credibilidade e obstruindo os avanços na taxonomia, como pessoas sem treino / sem escrúpulos podem facilmente inundar "catálogos" de vida com táxones duvidosos; Aumentando a instabilidade e a imprecisão, uma vez que o escrutínio é dificultado pela falta de espécimes.
O Código deve ser reformado para evitar que artigos concebidos para lidar com contribuições desde as primeiras idades da taxonomia sejam usados ​​para justificar práticas desactualizadas que possam prejudicar a conservação da ciência e da biodiversidade.




Ceríaco et al.. 2016. Photography-based taxonomy is inadequate, unnecessary, and potentially harmful for biological sciences. Zootaxa. 4196, No 3 http://www.mapress.com/j/zt/article/view/zootaxa.4196.3.9/9439  PDF

terça-feira, abril 12, 2016

Diplodocus revalidado com D. carnegii como espécie-tipo

O saurópode Diplodocus é um dos dinossauros mais famosos e populares, sendo alegadamente muito conhecido também do ponto de vista científico. Contudo, o espécime original, o holótipo, no qual se baseou a primeira espécie deste género Diplodocus longus, é um exemplar muito incompleto e pouco distintivo, de tal forma que não se consegue distinguir de outros diplodocídeos. Isto oferece um problema porque significa que a espécie não pode ser considerada válida, e como esta é a espécie-guia para o género Diplodocus, este corre o risco de também não ser válido, e perderíamos assim um dos géneros mais carismáticos e conhecidos de dinossauros.
Esta situação pode ser resolvida sugerindo que a espécie-tipo seja outra espécie Diplodocus que não o D. longus. É precisamente isso que é proposto pelos paleontólogos Emanuel Tschopp e Octávio Mateus à Comissão de Nomenclatura Zoológica e à comunidade científica. A escolha alternativa recai sobre o Diplodocus carnegii, um exemplar quase completo e com réplicas em vários museus do mundo.
O propósito da aplicação, nos termos dos artigos 78.1 e 81.1 do código de nomenclatura zoológica, é substituir Diplodocus longus Marsh 1878 como a espécie-tipo do género de dinossauro saurópode Diplodocus pela espécie D. carnegii Hatcher, 1901 que é muito mais completo e conhecido. O estado pouco diagnosticável do holótipo de D. longus (YPM 1920, uma cauda parcial e uma hemapófise) contrasta com o holótipo de D. carnegii CM 84, um exemplar bem conservado e principalmente articulado. Réplicas deste espécime estão em exposição em vários museus pelo mundo (incluindo Paris, Madrid, Londres e Milão), e a espécie já tem sido usado como a principal referência em estudos de anatomia comparada ou filogenia.

Réplica de holótipo de Diplodocus carnegii no MNHN Paris (Photo OM2016) 

Ambas as espécies são do Jurássico Superior das Formação de Morrison nos Estados Unidos. O género Diplodocus é a base para os taxa superiores Diplodocidae Marsh, 1884, Diplodocomorpha Marsh, 1884 (Calvo & Salgado, 1995) e Diplodocoidea Marsh, 1884 (Upchurch, 1995). É também um especificador de pelo menos 10 clados filogenéticos. Com a substituição de D. longus por D. carnegii como espécie-tipo, Diplodocus poderia ser preservado como um nome taxonómico com o conteúdo geralmente aceite. A estabilidade taxonômica do clado  Diplodocoidea e as definições propostas para diversos clados de saurópodes podem ser mantida.


Tschopp, E., Mateus O. (2016).  Diplodocus Marsh, 1878 (Dinosauria, Sauropoda): proposed designation of D. carnegii Hatcher, 1901 as the type species. Bulletin of Zoological Nomenclature. 73(1), 17-24.

Abstract. The purpose of this application, under Articles 78.1 and 81.1 of the Code, is to replace Diplodocus longus Marsh, 1878 as the type species of the sauropod dinosaur genus Diplodocus by the much better represented D. carnegii Hatcher, 1901, due to the undiagnosable state of the holotype of D. longus (YPM 1920, a partial tail and a chevron). The holotype of D. carnegii, CM 84, is a well-preserved and mostly articulated specimen. Casts of it are on display in various museums around the world, and the species has generally been used as the main reference for studies of comparative anatomy or phylogeny of the genus. Both species are known from the Upper Jurassic Morrison Formation of the western United States. The genus Diplodocus is the basis for the family-level taxa diplodocinae Marsh, 1884, diplodocidae Marsh, 1884, dip- lodocimorpha Marsh, 1884 (Calvo & Salgado, 1995) and diplodocoidea Marsh, 1884 (Upchurch, 1995). It is also a specifier of at least 10 phylogenetic clades. With the replace
ment of D. longus by D. carnegii as type species, Diplodocuscould be preserved as a taxonomic name with generally accepted content. Taxonomic stability of the entire clade diplodocoidea, and the proposed definitions of several clades within Sauropoda, could be maintained.


Holótipo de Diplodocus longus YPM: vértebra caudal
Holótipo de Diplodocus longus YPM: vértebra caudal

Espécimes-tipos: holótipos, parátipos e sintipos na taxonomia

Na sistemática e taxonomia, uma espécie ou um género são conceitos abstractos. Não existe algo tangível e palpável que seja "a espécie". Por outro lado, esse conceito tem como base animais ou plantas individuais que podem ficar conservados em museus ou universidades como espécimes e amostras reais e palpáveis. Os espécimes usados para fins taxonómicos, como a designação de uma nova espécie, são denominados de espécimes-tipo. Todos tipos devem estar num repositório de acesso científico (museu ou universidade) e disponível para estudo por outros investigadores. Existem vários espécimes tipo:

Holótipo: Amostra ou espécime único que serve como referência base da primeira descrição e nomeação de uma espécie de organismo vivo.
Por exemplo, o holótipo do  saurópode diplodocídeo Kaatedocus siberi Tschopp & Mateus 2013 é o espécime SMA 0004 que inclui parte de crânio e vértebras cervicais de um único indivíduo, exposto no Saurier Museum Aathal, na Suíça .
Holótipo de Kaatedocus siberi SMA 0004 por Oliver Demuth, Suíça.

Parátipo: Amostras ou espécimes adicionais (que não o holótipo) que servem como apoio na primeira descrição e nomeação de uma espécie de organismo vivo.
Exemplo: O parátipo do terópode Torvosaurus gurneyi Hendrickx & Mateus 2014 inclui o fémur esquerdo ML632, exposto no Museu da Lourinhã.


Neótipo: Amostra ou espécime de referência para a espécie, mas designado após a descrição original, devido ao holótipo original nunca ter sido designado ou ter sido perdido ou destruído.


Sintipo: Qualquer um dos vários espécimes que está listado numa descrição da espécie onde vários espécimes mas nenhum holótipo foi designado.


Lectótipo: Espécime escolhido para servir como espécime-tipo único selecionado a posteriori a partir de um conjunto de síntipos, quando o holótipo não foi designado.



Emanuel Tschopp & Octávio Mateus (2013) The skull and neck of a new flagellicaudatan sauropod from the Morrison Formation and its implication for the evolution and ontogeny of diplodocid dinosaurs, Journal of Systematic Palaeontology, 11:7, 853-888, DOI: 10.1080/14772019.2012.746589

terça-feira, abril 07, 2015

O Brontosaurus está de volta! Paleontólogos da FCT-UNL recuperam um dos nomes mais famosos de dinossauros

O Brontosaurus está de volta!


Paleontólogos de Portugal anunciam que o famoso dinossauro de pescoço longo afinal não era o Apatosaurus


Paleontólogos da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade de Oxford do Reino Unido refizeram a árvore da vida de uma família de grandes dinossauros herbívoros, os diplodocídeos, e obtiveram revelações surpreendentes: um dos nomes mais icónicos de dinossauro, o Brontosaurus, está de volta, baptizam um novo género de dinossauro Galeamopus e reclassificam uma espécie portuguesa como Supersaurus.
Brontosaurus, Credit: Davide Bonadonna, Milan, Italy. Creative commons license CC- BY NC SA.


Embora sendo conhecido como um dos dinossauros mais emblemáticos, o Brontosaurus (o "lagarto trovão") tem sido classificado de forma errada. Desde 1903, que a comunidade científica acreditava que afinal o género Brontosaurus era de facto o Apatosaurus. Agora, um novo estudo exaustivo levado a cabo por paleontólogos Emanuel Tschopp e Octávio Mateus da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e Roger Benson de Oxford, no Reino Unido, fornece evidências conclusivas de que Brontosaurus é distinto do Apatosaurus e, como tal, pode agora ser reintegrado como um próprio e único género.


O Brontosaurus é um dos mais carismáticos dinossauros de todos os tempos e que tem inspirado gerações de crianças, graças ao seu tamanho e nome sugestivos. No entanto, como todos os paleontólogos sabem, o Brontosaurus era de facto um equívoco devendo ser correctamente referido como Apatosaurus. Pelo menos, isso é o que os cientistas acreditavam desde 1903, quando foi decidido que as diferenças entre o Brontosaurus excelsus e o Apatosaurus eram tão pequenas que era melhor colocar os dois no mesmo género. Como o Apatosaurus foi classificado primeiro, foi o único que foi usado sob as regras da nomenclatura científica.


Brontosaurus em mural em Nova York desenhado por Neave Parker (foto por Octávio Mateus)
Na verdade, é claro, o Brontosaurus nunca desapareceu realmente - ele era simplesmente tratado como uma espécie do género Apatosaurus: Apatosaurus excelsus. Assim, enquanto os cientistas pensavam que o género Brontosaurus era o mesmo que o do Apatosaurus, eles sempre concordaram que as espécies excelsus eram diferentes das outras espécies de Apatosaurus. Agora, os paleontólogos Emanuel Tschopp, Octávio Mateus, e Roger Benson vêm dizer que o Brontosaurus sempre foi um género único. Mas vamos começar do princípio.


A história do Brontosaurus é complexa, e é uma das histórias mais intrigantes da ciência. Na década de 1870, no oeste dos Estados Unidos foram descobertas dezenas de novas espécies fósseis, principalmente dinossauros. Equipas de campo escavaram inúmeros novos esqueletos principalmente para os famosos e influentes paleontólogos Marsh e Cope. Durante esse período, a equipa de Marsh descobriu dois enormes esqueletos parciais de dinossauros de pescoço comprido e enviaram-nos para o Peabody Museum de Yale, em New Haven, onde Marsh trabalhava. Marsh descreveu o primeiro desses esqueletos como sendo o Apatosaurus ajax, o "lagarto enganador", segundo o herói grego Ajax. Dois anos depois, ele deu o nome de Brontosaurus excelsus ao segundo esqueleto, o "lagarto trovão nobre". No entanto, como em nenhum dos esqueletos foram encontrados com um crânio, Marsh reconstrui um para Brontosaurus excelsus. O Brontosaurus era um animal enorme, como o Apatosaurus, e como outro dinossauro de pescoço comprido do oeste dos Estados Unidos, o Camarasaurus. Devido a essa semelhança, parecia lógico nessa altura que o Brontosaurus, tivesse um crânio em forma de caixa semelhante ao do Camarasaurus. No entanto, esta reconstrução foi mais tarde considerada errada.


Pouco depois da morte de Marsh, uma equipa do Museu Field de Chicago encontrou um outro esqueleto semelhante ao Apatosaurus ajax e ao Brontosaurus excelsus. Na verdade, este esqueleto era intermédio quanto à sua forma em muitos aspectos. Desta forma, os paleontólogos pensaram que o Brontosaurus excelsus era realmente tão semelhante ao Apatosaurus ajax que seria mais correto tratá-los como duas espécies diferentes do mesmo género. Esta foi a segunda extinção do Brontosaurus - uma extinção científica: a partir dessa altura, o Brontosaurus excelsus ficou conhecido como Apatosaurus excelsus e o nome Brontosaurus não foi mais considerado cientificamente válido.


O golpe final para o Brontosaurus aconteceu na década de 1970, quando investigadores mostraram que o Apatosaurus não estava relacionado com o Camarasaurus, mas sim com Diplodocus. Como o Diplodocus tinha um crânio delgado, semelhante ao crânio de um cavalo, o Apatosaurus e também o  Brontosaurus deviam de ter tido um crânio mais parecido com o Diplodocus em vez de com o Camarasaurus - e por isso nasceu o mito popular, mas falso, sobre o Brontosaurus ser um Apatosaurus com uma cabeça errada.


Agora, neste novo estudo publicado na revista científica PeerJ, contendo mais de 300 páginas, os cientistas de Portugal e do Reino Unido relatam três conclusões principais: um novo género semelhante ao Diplodocus, que eles chamam de Galeamopus; o género Supersaurus, originário  da América, inclui agora também o género português Dinheirosaurus, proveniente da Lourinhã e em exposição no Museu da Lourinhã; e, mais notavelmente, os cientistas mostraram que o  Brontosaurus era distinto do Apatosaurus e depois de tudo isto - o lagarto trovão está de volta!


Como pode um único estudo derrubar mais de um século de pesquisas? "A nossa pesquisa não teria sido possível com este nível de detalhe há 15 ou mais anos atrás", explica Emanuel Tschopp, um suíço que liderou o estudo, durante o seu doutoramento na Universidade Nova de Lisboa, em Portugal, “na verdade, até muito recentemente, a alegação de que o Brontosaurus era o mesmo que o Apatosaurus com base no conhecimento que tínhamos, era tida como completamente razoável.” Somente com as inúmeras novas descobertas de dinossauros semelhantes ao Apatosaurus e ao Brontosaurus ocorridas nos últimos anos, tornou-se possível realizar uma nova investigação detalhada de quão diferente eles realmente eram.


Em ciência, a distinção entre espécies e géneros não tem regras claras. Será que isso significa que a decisão de ressuscitar o Brontosaurus é apenas uma questão de preferência pessoal? "Nem um pouco", explica Tschopp, "nós tentamos ser o mais objectivos possível sempre que tomamos uma decisão que possa diferenciar espécie de género". Os investigadores aplicaram métodos estatísticos para calcular as diferenças entre outras espécies e géneros de dinossauros diplodocídeos, e foram surpreendidos com o resultado. "As diferenças que encontramos entre o Brontosaurus e o Apatosaurus foram pelo menos tão numerosas como aquelas entre outros géneros intimamente relacionados, e muito mais do que as que normalmente se encontram entre as espécies", explicou Roger Benson, um co-autor da Universidade de Oxford.


Assim sendo, Tschopp e seus colegas concluíram que é agora possível ressuscitar o Brontosaurus como um género distinto do Apatosaurus. "É o exemplo clássico de como a ciência funciona", disse um dos autores, Professor Octávio Mateus, da Universidade Nova e colaborador do Museu da Lourinhã. "Especialmente quando as hipóteses se baseiam em fósseis parciais é possível que novas descobertas derrubem anos de pesquisa."


A ciência é um processo, sempre em movimento na direcção de uma visão mais clara do mundo que nos rodeia. Às vezes, isso também significa que nós temos que recuar um pouco, antes de continuar a avançar. Isso é o que faz com que a curiosidade continue. Por isso, é apropriado dizer-se que o Brontosaurus, que despertou a curiosidade de milhões de pessoas em todo o mundo, agora voltou a fazê-lo novamente.





Citação do artigo: Tschopp, E., Mateus, O. e Benson, R.  (2015), A specimen-level phylogenetic analysis and taxonomic revision of Diplodocidae (Dinosauria, Sauropoda). PeerJ 3:e857; DOI 10.7717/peerj.857








Infografia do estudo do Brontosaurus (PeerJ).
License: CC BY 4.0. Designers: StudioAM



Emanuel Tschopp e Octávio Mateus medindo um fémur de dinossauro saurópode no Museu da Lourinhã.

Emanuel Tschopp e Octávio Mateus junto do dinossauro saurópode Supersaurus lourinhanensis no Museu da Lourinhã



Additional images are available here: http://goo.gl/gPqfpi



Abstract (do artigo):
Os Diplodocidae encontram-se entre os dinossauros saurópodes mais conhecidos. Várias espécies foram descritas no final de 1800 ou no início de 1900 a partir da Formação Morrison da América do Norte. Desde então, numerosos espécimes adicionais foram recuperados nos EUA, Tanzânia, Portugal e Argentina, bem como, possivelmente, em Espanha, Inglaterra, Geórgia, Zimbabwe, e na Ásia. Até o momento, o clado inclui cerca de 12 a 15 espécies nominais, alguns deles com status taxonómico questionável (por exemplo, 'Diplodocus" hayi ou Dyslocosaurus polyonychius) e com idades que vão variando do Jurássico Cretáceo. No entanto, as relações intra-genéricas do icónico, géneros multi-espécies do Apatosaurus e do Diplodocus ainda são pouco conhecidas. A maneira de resolver este problema é através de uma análise filogenética baseada em amostras, o que foi previamente implementado para o Apatosaurus, mas que aqui é realizada pela primeira vez para todo o clado de Diplodocidae. A análise inclui 81 unidades taxonómicas operacionais, das quais 49 pertencem a Diplodocidae. O conjunto de todos os OTUs inclui todos os espécimes com nome anteriormente proposto para pertencerem ao Diplodocidae, ao lado de um conjunto relativamente completo de espécimes já referidos, o que aumenta a quantidade sobreposta de material anatómico.

Grupos não pertencentes ao Diplodocidae foram posteriormente selecionados para testar as afinidades dos potenciais espécimes diplodocídeos, em relação aos quais tinha sido subsequentemente sugerido que pertencessem fora do clado. Os espécimes foram classificados para 477 caracteres morfológicos, que representam uma das mais extensas análises filogenéticas de dinossauros saurópodes. Os estados de caracteres foram desenhados e as tabelas foram dadas, no caso de caracteres numéricos. O cladograma resultante recupera o arranjo clássico das relações dos diplodocídeos. Duas abordagens numéricas foram utilizadas ​​para aumentar a capacidade de reprodução na nossa delimitação taxonómica das espécies e dos géneros. Isso resultou na proposta de que algumas espécies anteriormente incluídas em géneros conhecidos, como Apatosaurus e Diplodocus, são genericamente distintas. É importante destacar que o famoso género Brontosaurus é considerado válido pela nossa abordagem quantitativa. Além disso, o Diplodocus hayi representa um género único, que será aqui designado por Galeamopus gen. nov. Por outro lado, estas abordagens numéricas implicam a sinonimização do Dinheirosaurus a partir do Jurássico Superior de Portugal com o género Supersaurus da Formação Morrison. A nossa utilização de uma abordagem por espécimes, ao invés de uma abordagem baseada em espécies, aumenta o conhecimento da variação intraespecífica e intragenérica em diplodocídeos, e o estudo demonstra como a análise filogenética baseada na espécie é uma ferramenta valiosa na taxonomia de saurópode e, potencialmente, na paleontologia e taxonomia como um todo.

Mais imagens: http://goo.gl/gPqfpi