Replicamos aqui a opinião do Prof. Galopim de Carvalho, que subscrevemos na íntegra e que saiu ontem no Jornal Público.
António Marcos Galopim de Carvalho (Foto OM)
Pegadas de dinossáurio de Pego Longo ao abandono
Esta importante jazida, classificada como Monumento Natural, em 1997, é hoje um misto de lixeira e matagal com ervas, arbustos e árvores, tudo entretanto nascido e enraizado na própria laje que contém as pegadas.
A primeira batalha que travei com a Administração pela salvaguarda da jazida com pegadas de dinossáurio de Pego Longo (Sintra) na vizinhança imediata de Carenque (Amadora) durou três anos, entre 1990 e 1993, com larga participação da comunicação social. Saldou-se por uma feliz vitória, concretizada com a abertura dos dois túneis da CREL, sob a grande laje que contém as pegadas, o que custou cerca de oito milhões de euros à fazenda pública. À cautela, o Museu Nacional de História Natural, da Universidade de Lisboa, era eu, então, o director, procedeu à moldagem, em latex, da totalidade do trilho (132 m). De tudo isto dei pormenorizado relato no livro “Dinossáurios e a Batalha de Carenque”, Editorial Notícias, 1994.
É verdade que esta penosa batalha foi ganha, salvando-se as ditas pegadas, mas, de então para cá, deixadas ao abandono, assistimos, impotentes, à sua destruição, não obstante as múltiplas insistências que intentei ao longo destes 26 anos.
Em 2001, a Câmara Municipal de Sintra, ao tempo da presidência da Drª Edite Estrela, aprovou o projecto do “Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo” e, quando tudo se encaminhava no sentido da musealização do sítio, mudou a vereação do PS para o PSD e o projecto perdeu-se no fundo de uma qualquer gaveta.
Esta importante jazida, classificada como Monumento Natural, em 1997 (Decreto n.º 19/97 de 5 de Maio), é hoje um misto de lixeira e matagal com ervas, arbustos e árvores, tudo entretanto nascido e enraizado na própria laje que contém as pegadas. Uma vergonha para a Câmara Municipal de Sintra e uma vergonha ainda maior para o Instituto de Conservação da Natureza (e agora das Florestas, um enorme disparate como se as florestas não fizessem parte da natureza), a quem, por lei, compete fiscalizar e zelar por este valioso património.
Estamos a viver um período em que temos outras urgências bem mais gritantes, sendo de bom senso que, pelo menos, se tente travar a degradação em curso, protegendo eficazmente a jazida, na espera de melhores dias.
Se mesmo isto não for feito. que se possa, ao menos, assacar responsabilidades às duas supraditas instituições.
Os concelhos de Loulé, Silves e Albufeira estão a preparar candidatura a GeoParque Mundial da UNESCO com base nas descobertas paleontológicas no Triásico. Dia 7 de Dezembro (próximo sábado) vai haver a conferência Geoparque Algarvensis Desafios e Oportunidades, em Loulé sobre este assunto.
A descoberta até tem 227 milhões de anos, mas este é um projeto de futuro. O Metoposaurus Algarvensis, cujos fósseis foram encontrados na Jazida da Penina, é o ponto de partida para o projeto aspirante a Geoparque Mundial da UNESCO que junta Loulé, Silves, Albufeira e a Universidade do Algarve. As três autarquias e a academia assinaram esta segunda-feira, 2 de Dezembro, protocolos de colaboração para uma iniciativa que tem como grande objetivo contrariar o declínio do interior da região, envolvendo as pessoas.
O Salão Nobre dos Paços do Concelho de Loulé acolheu este momento que mais não foi do que a efetivação de dois anos de trabalho, em conjunto.
Dois anos que apenas marcaram o ponto de partida, mas que já foram «essenciais» para começar a preparar a candidatura à UNESCO que deverá ser feita em 2021 ou 2022.
É que este é um projeto bastante ambicioso. A ideia passa por juntar conhecimentos geológicos, históricos ou arqueológicos, tudo numa perspetiva holística, para desenvolver o território do interior dos concelhos de Loulé, Albufeira e Silves.
Promover o desenvolvimento sustentável do território a partir das comunidades e da sua qualidade e modo de vida, assim como da riqueza geológica, tornando a área dos três concelhos num destino sustentável e potencialmente turístico de interesse mundial, através do seu património geológico, é o principal objetivo desta candidatura.
Cristina Veiga-Pires
Cristina Veiga Pires, a coordenadora científica do Geoparque Algarvensis, explicou que a zona delimitada (que incorpora localidades como Paderne, Silves, Messines, Loulé ou Querença) tem «inúmeros geossítios já identificados», como a Jazida da Penina, onde foi encontrado o Metoposaurus Algarvensis, a Mina de Sal-Gema, em Loulé, o Grés de Silves ou os calcários no Escarpão, em Albufeira.
«Já temos uma lista de mais de 25 geossítios a serem documentados. Isto é muito longo, claro, temos de ir ao sítio, ver as acessibilidades. No futuro, haverá uma musealização a ser desenvolvida e daí a necessidade de um tempo largo para preparar tudo. Agora, temos de fazer esta listagem e homogeneizar a informação», disse aos jornalistas.
Será também a partir desses geossítios que se desenvolverá todo o projeto, no qual os percursos pedestres terão um papel importante.
«Os três municípios têm coisas feitas, no património, na cultura, nos percursos pedestres. Se os há, é porque passam em sítios bonitos e se os sítios são bonitos é porque há geologia envolvida», ilustrou.
No fundo, a grande ideia é dar a conhecer o património riquíssimo que há no interior do Algarve e que muitas vezes é esquecido. Com isso, atraem-se pessoas e promove-se a própria economia, como referiu Vítor Aleixo, presidente da Câmara de Loulé.
Vítor Aleixo
Lembrando o papel fulcral de Octávio Mateus, professor da Universidade de Lisboa que o desafiou a criar este Geoparque, o autarca disse que «rapidamente se apercebeu da oportunidade única que não podia deixar de agarrar».
«Entendi logo que tinha a oportunidade de levar para o interior do Algarve um projeto no qual acredito, que ajudará a contrariar o seu clima de declínio demográfico, económico e até natural», considerou.
Para Vítor Aleixo, este é um projeto «para gerações», com uma «forte matriz identitária» e onde os presidentes das Juntas de Freguesia são «uma peça chave para mobilizar e levar a iniciativa às pessoas».
De resto, os habitantes destes territórios são, no entender do autarca, o «mais importante» de todo o projeto.
«As pessoas vão ser absolutamente determinantes. O Geoparque é um projeto que só será bem sucedido se envolver as pessoas e tem de ser de baixo para cima. É preciso que todos vivam isto, que entendam o que está a acontecer», disse, sem rodeios.
Rosa Palma
Rosa Palma, presidente da Câmara de Silves, defendeu precisamente a mesma ideia.
«Queremos que o património que já lá está ganhe vida, mas, para que isso aconteça, tem de haver pessoas e essas também tem uma história para contar. Por isso, acho importante que não se percam os costumes e tradições e este é um projeto que engloba todos esses saberes», considerou.
A autarca deixou dois desejos bem vincados. «Queremos que as pessoas falem e que esta palavra Algarvensis ande na boca de toda a gente. E mais: queremos que as pessoas sejam contagiadas e reconheçam o seu território – que tenham o sentimento de pertença».
José Carlos Rolo, presidente da Câmara de Albufeira, considerou, por sua vez, que o Geoparque pode ser, para o seu concelho, uma «alternativa ao turismo de massas».
José Carlos Rolo
«Temos de caminhar para aí, para que haja a tal complementaridade ao sol e praia. Já se sabe como funciona a questão da sazonalidade e a formação do Geoparque, com o selo da UNESCO, poderá dar uma mais-valia ao tecido turístico de Albufeira», defendeu.
E com o desenvolvimento do turismo no interior, é a própria economia que floresce e é estimulada. Paulo Águas, reitor da Universidade do Algarve (UAlg), disse, neste sentido, que o projeto do Geoparque «olha para o território numa ótica de preservação e será assim que teremos capacidade para melhorar as condições de vida».
E para o futuro?
Para o próximo ano, está prevista a criação de uma Associação Aspirante Geoparque Algarvensis que junte todas estas entidades. Em paralelo, haverá ações no território, com a população, para dar a conhecer este projeto.
A primeira delas é já este sábado, 7 de Dezembro, a partir das 15h00, na Escola Secundária de Loulé, que irá receber uma conferência com os intervenientes neste projeto, bem como de especialistas nesta matéria – Octávio Mateus, da Universidade Nova de Lisboa e investigador que liderou equipa internacional que escavou a jazida da Penina, onde se descobriu o Metoposaurus Algarvensis, e Artur Sá, da Universidade do Minho.
Ambos irão falar sobre os desafios e oportunidades da candidatura que reúne os três municípios algarvios.
O novo edifício a construir da Câmara de Valongo representa uma trilobite, segundo o conteúdo patrocinado do Jornal de Notícias anunciado ontem, 4 de Novembro de 2019.
É fantástico ver a paleontologia a inspirar a arquitectura e a contribuir para a sociedade desta forma.
“Dinossauros Saem à Rua”, iniciativa organizada em parceria entre o GEAL – Museu da Lourinhã, a Câmara Municipal da Lourinhã e a União de Freguesias da Lourinhã e Atalaia, é um evento de âmbito cultural e turístico que visa a divulgação da ciência e do conhecimento, designadamente no domínio da Paleontologia, tendo fins pedagógicos e de entretenimento e lazer.
Estão previstas, para os dias 11, 12 e 13 de Agosto, diversas actividades destinadas ao público de todas as idades: ateliers, exposições, jogos e experiências cientificas, animação de rua, street food, conferências e cinema 360º, para citar algumas.
Decorrerá este ano, entre 31 de Março e 2 de Abril, na Lourinhã (Portugal) o I Congresso sobre o Planalto das Cesaredas.
De organização conjunta entre a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e a Associação dos Amigos do Planalto das Cesaredas, o congresso visa promover o conhecimento científico, nas suas diversas vertentes - Geologia, Geomorfologia, Arqueologia, Espeleologia, Fauna, Flora, Património e Cultura - desta região que abrange os municípios da Lourinhã, Peniche, Bombarral e Óbidos.
Vertebrados Fósseis dos Distritos de Leiria e Santarém (Norte) serão tema de conversa amanhã no III Fórum sobre Património Natural, Etnográfico e Arqueológico “Na rota dos Mosteiros Património da Humanidade - Alcobaça, Batalha e Tomar: outros patrimónios a salvaguardar”, que se realizará no dia 27 de maio de 2016, no Auditório do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, Batalha.
A nossa apresentação será sobre "Vertebrados Fósseis dos Distritos de Leiria e Santarém (Norte)". Uma selecção de um vertebrado fóssil mais interessante ou icónico de cada concelho dos distritos de Leiria e Santarém (norte) permite uma visão geral da riqueza paleontológica da região e do país.
Dos 16 municípios do distrito de Leiria, conhecem-se vertebrados fósseis em doze: Alcobaça, Avaiázere, Batalha, Caldas da Rainha, Leiria, Marinha Grande, Nazaré, Óbidos, Peniche, Pombal e Porto de Mós. No norte do distrito de Santarém (acima da latitude 39.4ºN) conhecem-se vertebrados nos concelhos de Ourém, Tomar, Alcanena, Ferreira do Zêzere, Torres Novas.
Contributo do património geológico e geomorfológico na candidatura da Arrábida (Portugal) a Património Mundial Misto
Geologia da Arrábida (fonte: Powerpoint da apresentação por Kullberg et al 2012)
Por Kullberg et al. (2012): Adaptando os conceitos originais de Paul Choffat - geólogo - e Orlando Ribeiro - geógrafo -a Arrábida pode ser definida como uma pequena cordilheira situado na parte meridional da Península de Setúbal (uma faixa de 6 km com 35 km de extensão), em Portugal, onde afloram em continuidade rochas predominantemente carbonatadas de praticamente todo o Mesozóico. É também local de extrema relevância relativamente à flora e a ecossistemas únicos no Planeta. Para além dos valores naturais, os culturais testemunham uma ocupação desde o Paleolítico Inferior até aos primórdios da nacionalidade, no conturbado início do 2º milénio d.C. com as reconquistas aos muçulmanos. A História e a ocupação do território estão indissociável e harmoniosamente associadas com o meio natural, através das tradições no uso e ocupação das terras e dos próprios credos, lendas e poesia. A Geologia - rochas e processos - e as formas que ela condicionou, estão também na origem de muitos destes valores culturais. Por esta diversidade e quantidade de valores excepcionais, únicos a nível mundial, a Arrábida encontra-se actualmente em processo de pré-candidatura à UNESCO a Património Mundial (Misto) da Humanidade, com base nos critérios culturais (4, 6) e naturais (7, 8, 9 e 10), reunidos através de um suporte de SIG's. A Arrábida está localizada na área mais meridional da Bacia Lusitaniana, a única bacia do Atlântico Norte que expõe à superfície toda a sequência de rifting anterior à oceanização e consequente separação entre as placas da América do Norte a da Eurásia. Mas é na Arrábida que se encontra praticamente toda a sucessão mesozóica em contínuo, devido à inversão tectónica resultante da colisão entre a África e a sub-placa ibérica durante o Cenozóico de que resultou a própria cordilheira actual. Por isso apresenta uma variedade notável de estruturas e litologias únicas ou extremamente raras resultantes dum conjunto de processos geológicos que testemunham, sucessivamente: 1º) a evolução, desde o Triásico até ao Cretácico inferior, do rift intracontinental relacionado com as primeiras fases de fragmentação da Pangeia; 2º) vulcanismo em margem passiva, durante o Cretácico terminal; 3º) diapirismo associado àquele vulcanismo; 4º) inversão tectónica relacionada com a proximidade do limite convergente entre as placas Africana e Euroasiática, principalmente durante o Cenozóico; 5º) a consequente formação de relevos na Meseta Ibérica e estruturação de grandes redes de drenagem intracontinentais; 6º) o modelado recente das formas do terreno, em parte controlado por movimentos de neo-tectónica, e também por variações eustáticas quaternárias, pelo menos nas regiões litorais da MOI. Através de ocorrências únicas de que se realçam apenas três, a Geologia está intimamente relacionada com aspectos culturais da região, nomeadamente: 1- o conjunto de pegadas de dinossauros de Pedra da Mua com a lenda de Nª Senhora do Cabo Espichel; 2- a Brecha da Arrábida com um dos desenvolvimentos do estilo Manuelino e 3- a cordilheira da Arrábida no seu todo, mas em particular a Serra do Risco, "a onda da Arrábida" eternizada pela poesia de Sebastião da Gama.
Kullberg, J. C., Pais J., Almeida J. A., & Mateus O. (2012). Contributo do património geológico e geomorfológico na candidatura da Arrábida (Portugal) a Património Mundial Misto. 46º Cong. Brasileiro Geologia / 1º Cong. Geologia Países Língua Portuguesa. , Set-Oct 2012, Santos (Brasil)
Aproveito o 25º aniversário do Museu da Lourinhã para replicar o meu resumo apresentado na Conferência de Geocolecções, e publicado no Journal of Paleontological Techniques:
O Museu da Lourinhã, situado na Vila da Lourinhã (Portugal), é gerido por uma associação sem fins lucrativos de utilidade pública, o GEAL-Grupo de Etnologia e Arqueologia da Lourinhã. Possui uma rica colecção de paleontologia, sobretudo de dinossauros do Jurássico superior da Formação da Lourinhã (Kimmeridgiano-Titoniano). A colecção de paleontologia começou a formar-se em 1979-80, mesmo antes do início legal da associação GEAL. Destacam-se os seguintes espécimes: ML433, parte anterior de um esqueleto, incluindo parte do crânio, que corresponde ao holótipo do estegossauroMiragaia longicollumMateus, Maidment e Christiansen 2009; ML370, esqueleto parcial (membros posteriores e vértebras) que corresponde ao holótipo do terópodeLourinhanosaurus antunesiMateus 1998; ML414, vértebras e costelas cervicais e dorsais do saurópodeDinheirosaurus lourinhanensisBonaparte e Mateus 1999 (holótipo); ML357, (holótipo) dentes, vértebras, partes de membros anteriores e posteriores de ornitópode camptossaurídeoDraconyx loureiroiMateus e Antunes 2003; ML415, crânio (holótipo) deAllosaurus europaeusMateus, Antunes e Walen 2007; ML368, membro anterior de saurópodeTuriasaurus riodevensisRoyo-Torres, Cobos e Alcalá 2006; ML351, perónio, sacro e cauda de cf.Lourinhasaurus alenquerensis(Lapparent e Zbyszewski, 1957); ML565, ninho como ovos e embriões deLourinhanosaurus; ML1100, maxilar esquerdo de terópodeTorvosaurus tanneri;eML1357, hemimandíbula (holótipo) mamíferoKuehneodon hahniAntunes, 1998.
A destacar, a colecção engloba ainda: i) um conjunto de pegadas de dinossauros terópodes, saurópodes, ornitópodes e estegossauros, ii) colecção de referência de bivalves e outros invertebrados; dentes e material ósseo de seláceos, osteiíctios, albanerptontídeos, anuros, crocodilomorfos, lagartos, plesiossauros, pterossauros e mamíferos do Jurássico Superior de Portugal, iii) fósseis de outras idades e proveniências.
Referência: Mateus, O. (2009). COLECÇÕES PALEONTOLÓGICAS DO MUSEU DA LOURINHÃ (PORTUGAL). Journal of Paleontological Techniques, 6: 18-19.
Se há coisa que não gosto particularmente de fazer é andar a ler leis, decretos e despachos... mas são estes os moldes em que a nossa sociedade foi erguida e como tal há que usá-los para nosso benifício. A minha ideia foi averiguar o que se tinha legislado na arqueologia sobre a questão de venda e alienação de património arqueológico e verificar de que maneira a ponte se pode estabelecer com a paleontologia. Isto porque o lobby da arqueologia é claramente superior ao punhado de paleontólogos desgostosos que existe. Devo desde já dizer que fiquei surpreendido pelo número de coisas que consegui apanhar e com a facilidade com que as obtive: daqui a legislação sobre a defesa do património geológico e daqui a legislação sobre a defesa do património arqueológico. Daquilo que fui lendo, há claramente uma conclusão que me deixou estupefacto: a lei é omissa em relação à venda de património quer arqueológico quer paleontológico. Por outro lado, o património paleontológico está abrangido pela mesma esfera que o património arqueológico, se bem que se vê claramente que as leis foram escritas por influência de arqueólogos e não de paleontólogos uma vez que a adequação e a profundidade das matérias aboradadas reclinam claramente sobre a arqueologia.
Fotografia: Octávio Mateus, dente dental de Tenontosaurus dossi.
Conferência Internacional sobre Colecções e museus de Geociências: missão e gestão de 5 e 6 de Junho de 2009 no Auditório do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra.
Conferência Internacional
Colecções e museus de Geociências:
missãoe gestão
5 e 6 de Junho de 2009
Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência
Museu Mineralógico e Geológico da Universidade de Coimbra
Local: Auditório do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra.
As colecções geológicas são uma ferramenta essencial em investigação e divulgação do conhecimento em História da Terra e da Vida. Documentam os processos e fenómenos que decorrem na parte mais superficial do planeta e a evolução da vida e são parte integrante da herança cultural e científica da civilização contemporânea. Servem, também, como meio para um melhor conhecimento da infra-estrutura geológica e da base de recursos geológicos, tendo em vista a sua gestão sustentada. Todavia, muitas delas estão sujeitas a ameaças que decorrem tanto da falta de recursos para o seu estudo, conservação e valorização, como da menor vocação das instituições de tutela para a sua preservação.
Com esta conferência pretende-se caracterizar o “estado da arte” no que respeita à gestão deste tipo de colecções, identificar as suas principais oportunidades e ameaças, bem como criar um fórum permanente de discussão e troca de experiências entre os profissionais envolvidos, tendo em vista, a prazo, o estabelecimento de linhas orientadoras de políticas de gestão a nível nacional.
Formato
Palestras por especialistas convidados, comunicações pelos participantes, mesa-redonda final.
Temáticas
1 - Museus e colecções geológicas universitárias
2 - Colecções na esfera da Administração Central e Regional do Estado
3 – Museus e colecções de conteúdo geológico na Administração Local
4 – Documentação e conservação de materiais geológicos
5 – Museus, Centros de Ciência/Interpretação e divulgação das Geociências
6 – História das colecções
Línguas admitidas
Português, espanhol, francês, inglês
Apresentações
As comunicações poderão ser apresentadas oralmente ou sob a forma de poster (formato A0, vertical). Os textos, das intervenções, com um máximo de 10 p. A4, Times corpo 12, deverão ter palavras-chave e um resumo, em português e noutra língua oficial.
Submissão de resumos: até 30 de Março
Os resumos terão uma dimensão máxima de 1 página A4, a TNR 12, 1,5 espaços, sem imagens ou bibliografia.
Os textos aprovados pela Comissão Científica serão reunidos em edição especial.
As normas para a formatação dos documentos serão editadas na página electrónica da Conferência.
Inscrições
O valor da inscrição garante a participação nas sessões de trabalho, a documentação produzida e a participação em todos os actos sociais.
Inscrição:
Normal ……………………………………………..……..… … € 60,00
Membros das instituições apoiantes …….……....€ 50.00
Estudantes de licenciatura………………………….…. € 20.00
[Depois de 30 de Março a taxa de inscrição sofre um agravamento de 25%]
Os boletins de inscrição acompanhados por comprovativos por via electrónica para o endereço geocoleccoes@gmail.com, ou pelo correio para:
Conferência Internacional sobre Colecções Geológicas
a/c de Madalena Freire
Universidade de Évora – Colégio António Verney
Rua Romão Ramalho, 59 7002-554 Évora
Os pagamentos serão feitos por cheque ou transferência bancária à ordem da Universidade de Évora, para a conta a indicar.
Os fósseis são propriedade de todos, e não só de alguns. Será que não ficaríamos indignados com a morte do último panda só porque estava no terreno de um agricultor chinês? Eu ficava! Só pelo facto um panda pisar uma determinada porção de terreno na China, não dá legitimidade a um homem de aniquilar o último exemplar de uma espécie. Da mesma forma que, só porque uma determinada pessoa encontrou afortunadamente um saurópode enquanto arava o terreno, não lhe dá legitimidade para fazer o que quiser desses fósseis! Esses fósseis podem encerrar em si informação única da história natural do nosso planeta, da mesma forma que o último panda.
2)O que distingue um achado arqueológico de um paleontológico?
Há coisas que realmente me deixam estupefacto. O património urbanístico é protegido, o património industrial é protegido, o património etnográfico é protegido, o património natural é protegido, o património cultural é protegido, o património arqueológico é protegido, o património vinícola (!) é protegido… mas, afinal de contas, porque carga de água é que o património paleontológico não o há-de ser??
3)A venda de fósseis será mesmo um crime?
Não tenho valências para averiguar com rigor a validade jurídica do termo: CRIME. Mas olhando para este termo em sentido lato, sob a lógica da sobreposição do direito privado ao direito público então é isso mesmo que acontece. Vender fósseis é um crime! Só é pena que à luz da lei actual vender fósseis não é crime, porque… a lei é omissa… Por outro lado, não é omissa em relação aos bens arqueológicos, aliás, é bem clara: é CRIME vender achados arqueológicos! Ainda está para nascer a primeira pessoa que me consiga explicar a diferença qualitativa – em termos de importância científica – entre uma ponta trabalhada de sílex e um dente de terópode…
Ideias e possíveis soluções:
Primeiro – é necessária uma tomada de consciência generalizada do problema e do que daí resulta. Nomeadamente, a alienação de património natural de valor incalculável. Para uma tomada de consciência é necessário transmitir ao maior número de pessoas a dimensão do problema, para isso existem inúmeros veículos de informação, entre os quais os blogues podem desempenhar um papel cívico muito importante!
Segundo – A denúncia! Não somos os maus da fita, mas se não forem encontrados exemplos concretos um qualquer movimento de indignação perde a sua força. É preciso apontar o dedo, é preciso esfregar na ferida para que todos saibamos do que estamos a falar: a venda de fósseis tem de ser proibida! Não se pode tolerar que com a maior das veleidades qualquer pessoa decida, por livre vontade, anunciar num site da internet a venda de algo que é de todos... e passe incólume.
Terceiro – Dar o exemplo. A indignação só faz sentido se não se for hipócrita e se se for coerente! Isto é, não posso ficar zangado com uma cauda de saurópode estar à venda na internet, e depois andar a comprar dentes de tubarão de Marrocos numa qualquer feira de fósseis.
Quinto – quando um movimento de cidadania estiver formado e realmente consciente para as reais dimensões do problema, é preciso passar à acção. É preciso dar corpo e substância a esta realidade e que, a meu ver – fazendo uso das armas que a sociedade nos proporciona – só se pode efectivar com uma lei escrita no papel.
Sexto – de leis escritas estamos nós fartos! Por isso mesmo a lei não pode ser meramente perfunctória e nominal. Tem de se rever no comportamento real dos cidadãos, adequando-se à nossa realidade. Ou seja, terão de haver mecanismos reguladores atentos, pró-activos – possivelmente constituídos por paleontólogos – que aferem a legalidade de práticas danosas para o bem comum.
Sétimo – Será que todas as espécies de fósseis merecem o mesmo estatuto de interdição à venda? Eu diria que sim, isto porque o património paleontológico é finito no espaço a uma dada formação ou afloramento. Ou seja, não é como as galinhas que se podem reproduzir ad eternum num aviário. E é por isso que as galinhas têm um estatuto diferente do lince ibérico… Mas, da mesma forma, também um Natica da Boca do Chapim não está ao mesmo nível que um crânio de Baryonyx encontrado na mesma região! É por isso que a actividade dos paleontólogos é tão importante a este nível… porque só um estudo aprofundado e sistemático pode substanciar uma hierarquização dos diferentes táxones por importância.
Oitavo – Seria uma medida extrema proibir o coleccionismo. Eu não advogo isso. Contudo, parece-me importante haver um recenseamento e registo dos coleccionadores de fósseis. Para que sempre que hajam descobertas importantes para a ciência estes possam ser reportados aos paleontólogos, para que assim o seu estudo possa ser efectuado. Isto acontece na Holanda por exemplo; a jazida de Winterswijk tem imensos coleccionadores amadores… e é muito por sua culpa que esta jazida tem sido bem estudada. Não se pode desperdiçar o precioso contributo que coleccionadores particulares possam dar, antes pelo contrário, deve ser estimulado. O que não se pode permitir é dar-lhes plenos poderes, colocando em risco informação científica que é de todos! O que não se pode permitir é que esse património seja alienado sem qualquer pejo! Mais uma vez, aqui o papel dos paleontólogos profissionais é central. Uma vez que só estes poderão ter a isenção necessária para considerar uma determinada descoberta possuidora de interesse científico. Portanto, resumindo, uma estreita colaboração entre coleccionadores particulares e museus, parece ser uma solução de compromisso válida.
A 10 de Outubro eu fiz uma carta aberta, aqui no Lusodinos (ver post), após ter sido alertado pelo Rui Castanhinha sobre a venda de uma cauda de dinossauro. Esta história que acabou por receber uma notícia no Correio da Manhã (ver replicação aqui) tem agora repercussão internacional pois apareceu numa série de jornais internacionais (incluindo The Windsor Star e Telegraph) e blogs (como o Everything Dinosaur) após a France Press ter feito uma cobertura da história. Por cá, o blog Ciência ao Natural fez um post sobre o assunto.
Com um património tão rico de paleontologia de Portugal, só é pena que seja desta forma que os dinossauros portugueses tenham visibilidade internacional.
Dinosaur tail sale sparks controversy
November 23 2008 at 10:01AM
Lisbon - A Portuguese bulldozer driver has sparked controversy in his country by putting up a dinosaur fossil he found 10 years ago for sale on the Internet.
Gonsalo Ribeiro, who discovered the bones in western Portugal but would not reveal where exactly, decided it was time to earn some money from his treasure.
"For sale, dinosaur spine 90 percent intact," reads his advertisement, posted in the antiquities section of a website.
"I own an excavation business, and one day when we were out digging, we came across some stones. But when I took a closer look, I noticed they were not stones," said Ribeiro.
Ribeiro says that what he thought were stones are a "3,60-metre-long sauropod's tail".
The archaeological find was between 146 and 152-million years old and of "huge scientific value" according to paleontologist Octavio Mateus.
But Ribeiro has always refused to hand over his find to a museum, claiming "the figures they offer are far off the mark." He has already turned down an offer of €100 000.
An outraged Mateus, who works at a museum specialising in the Jurassic period in central-west Portugal, published a note on the website denouncing the: "sale of our heritage as if it were a car or a pair of shoes."
Mateus is calling for his government to introduce a law, like those of Argentina, China and Mongolia, making it illegal to sell on "public heritage".
Dinossauros e outros vertebrados mesozóicos de Portugal
Integrada na comunicação “O Museu da Lourinhã, os dinossauros e o novo Museu do Jurássico” por Octávio Mateus e Hernâni Mergulhão, proferida no V Seminário do Património do Oeste a 25 de Outubro de 2008
Por Octávio MATEUS Museu da Lourinhã e Univ. Nova de Lisboa omateus@museulourinha.org
A riqueza de dinossauros em Portugal
Tendo em consideração a sua dimensão, Portugal é um dos países mais ricos em vertebrados fósseis mesozóicos.
Se olharmos para o número de géneros de dinossauros, com 25 dinossauros, Portugal aparece em sétimo lugar no ranking mundial, apenas precedido dos Estados Unidos (com 140 géneros), China (131), Argentina (64), Mongólia (62), Canadá (44) e Reino Unido (40) e seguido por França (23), Brasil (18) e África do Sul (16). Contudo, para a área do país, Portugal é destacadamente o mais rico destes países no que respeita a dinossauros. Os dinossauros e outros vertebrados ocorrem na chamada Bacia Lusitânica e na Bacia Algarvia, sendo a maioria do Jurássico superior da região Oeste, sobretudo do Concelho da Lourinhã e Mina da Guimarota. Na Lourinhã, as recolhas têm sido feitas, essencialmente ao longo da costa devido à disponibilidade de afloramentos.
Os dinossauros viveram durante a era Mesozóica (de há 65 até 220 milhões de anos), que se divide em Triásico, Jurássico e Cretácico. Alguns dos dinossauros mais famosos são do Cretácico, mas em Portugal o Jurássico superior (de há 159 a 144 milhões de anos) é, de longe, o período mais rico. Deste período são 21 das 25 espécies de dinossauros do nosso país, que representam os principais grupos de dinossauros: os terópodes (que significa pés de besta) são carnívoros bípedes, os saurópodes (pés de réptil) são gigantes de pescoço comprido, os ornitópodes (pés de ave) são herbívoros bípedes e os tireóforos (portadores de placas) são quadrúpedes couraçados.
Por serem do Jurássico Superior (com aproximadamente 150 milhões de anos) os dinossauros como oLourinhanosaurus,Draconyxou Lusotitansão 85 milhões de anos mais antigos que alguns dos famosos dinossauros do Cretácico terminal (65 M.a.) como oTyrannosaurus rex. Ou seja, quando oT. rexapareceu já estes dinossauros eram fósseis há cerca de 85 milhões de anos.
O mundo do Jurássico Superior
Mas nem só dinossauros povoaram a Bacia Lusitânica durante o Jurássico superior e ocorrem vestígios de outro vertebrados como os anfíbios, tartarugas, lagartos, plesiossauros, coristodiras, crocodilomorfos e pterossauros.
O mundo jurássico também era muito diferente do que conhecemos hoje: a Índia, Austrália e Antártica estavam juntas num único continente no pólo sul. Os continentes de África e América do Sul estava junto e não havia Atlântico Sul. A Europa era um arquipélago, do qual fazia parte uma ilha, o “bloco Ibérico”, que hoje corresponde a Portugal e Espanha. Como o Atlântico Norte tinha sido formado há pouco tempo, a América do Norte não estava muito afastada da Ibéria, o que explica a presença dos mesmos géneros de dinossauros nas duas áreas. Além disso a linha de costa de Portugal era igualmente distinta da de hoje pois um mar interior entrava no que é hoje a área de Setúbal a Lisboa e percorria até Aveiro, bordeado por uma cordilheira a oeste, do qual as Berlengas são o último vestígio visível. Ou seja, na Região Oeste, a área da Lourinhã tinha o plano de costa invertido relativamente ao actual: mar a leste e montanhas a oeste.
Os dinossauros de Portugal
Não cabe aqui abordar exaustivamente todas as espécies de dinossauros de Portugal, pelo que se chama a atenção a algumas mais emblemáticas e com maior importância regional.
Dacentrurus armatus é um dinossauro herbívoro quadrúpede semelhante ao Stegosaurus. Embora esta espécie ocorra também em Inglaterra, França e Espanha, em Miragaia, perto da Lourinhã, foi recolhido o mais completo exemplar que compreende a metade anterior do animal, incluindo parte do crânio, o primeiro na Europa para este grupo de animais. Os crânios são muito raros e difíceis de encontrar pois desagregam-se com facilidade e não fossilizam tão facilmente. A reconstituição do esqueleto completo está em exposição no Museu da Lourinhã.
Draconyx loureiroi é um dinossauro herbívoro bípede apenas conhecido em Portugal. Quando foi descrito, em 2003, reconheceu-se que era uma nova espécie para a Ciência, pelo que pode receber um novo nome: Draco significa dragão, e onyx significa garra, porque as garras deste dinossauro foram dos primeiros ossos a serem recolhidos; loureiroi honra o primeiro paleontólogo, João de Loureiro. Como o fóssil do Museu da Lourinhã foi o primeiro a ser reconhecido desta espécie ele é um exemplar de referência, a que os paleontólogos apelidam de holótipo. Os holótipos são de grande importância entre os cientistas pois são os exemplares de referência mundial para esta espécie.
Dinheirosaurus lourinhanensis é um saurópode descoberto na Praia de Porto Dinheiro, na Lourinhã, o que lhe deu o nome. Trata-se do dinossauro português mais comprido e estima-se que teria 25 metros. Tal como todos os outros dinossauros de Portugal, não se conhece o esqueleto completo, mas uma série de vértebras e costelas do pescoço e dorso. Também este é uma espécie única no mundo e o holótipo está exposto no museu lourinhanense.
Lusotitan atalaiensis deve o seu nome por ser o titã lusitano, vindo de Atalaia, uma aldeia costeira do concelho da Lourinhã. Foi descoberto na década de 1940 e julgava-se ser um dinossauro muito semelhante chamado Brachiosaurus, mas estudos ulteriores confirmaram tratar-se de um novo género. Apesar de não ser o mais longo, este devia ser o mais alto e mais pesado dinossauro de Portugal. Tinha, possivelmente, 12 metros de altura e cerca de 20 de comprimento.
Torvosaurus tanneri foi o maior predador terrestre do Jurássico tendo sido descoberto nos Estados Unidos e Portugal. O exemplar português inclui parte do crânio, com quase um metro e meio de comprimento, e dentes de 15 cm semelhantes a facas. O crânio deste carnívoro é a mais recente incorporação na exposição permanente do Museu da Lourinhã.
Lourinhanosaurus antunesi é, possivelmente, o dinossauro mais emblemático da Lourinhã. É um dinossauro carnívoro de médio porte, isto é, cerca de 4,5 metros de comprimento, que recebeu o nome em dedicação à vila da Lourinhã e ao paleontólogo português [Miguel Telles] Antunes, colaborador do Museu da Lourinhã, onde se encontra o exemplar de referência, o holótipo. Além do esqueleto ser o mais completo dinossauro carnívoro de Portugal, também se encontraram ovos e embriões o que é uma descoberta de importância global. São os segundos mais antigos embriões de dinossauro conhecidos e permitiram aos paleontólogos conhecer mais sobre a reprodução, crescimento e nidificação dos dinossauros carnívoros.
Pegadas
Além dos ossos fósseis, Portugal é muito rico em pegadas de dinossauros, com mais de de uma trintena de jazidas, o que permite conhecer outras vertentes destes animais, tal como partes do seu comportamento e velocidade de deslocação. Além disso as pegadas dão a ocorrência da presença de dinossauros em áreas e idades geológicas nas quais não se conhecem ossos.