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quarta-feira, julho 04, 2018

Ictiossauros, placodontes e geologia do Algarve em teses de Paleontologia

Dia 2 de Junho ocorreram duas defesas de tese do Mestrado de Paleontologia, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa:


Provas de Mestrado em Paleontologia:

Hugo Miguel Catarino Campos
Dissertação: "Triassic vertebrates of Algarve: geological settings and the first occurrence of placodonts"
Constituição do Júri:
Doutor Paulo Alexandre Rodrigues Roque Legoinha, Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, Doutor Paulo Manuel Carvalho Fernandes, Professor Auxiliar da Universidade do Algarve e Doutor Octávio João Madeira Mateus, Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa
Aprovado por unanimidade com 19 valores.



João Resende Pratas e Sousa
Dissertação: "A review of Ichthyosauria from Portugal"
Constituição do Júri:
Doutor Paulo Alexandre Rodrigues Roque Legoinha, Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, Doutora Judith Mariana Pardo Pérez, Post-doc Researcher Staatliches Museum -für Naturkunde Stuttgart e Doutor Octávio João Madeira Mateus, Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.
Aprovado por unanimidade com 17 valores.


Parabéns a ambos!



quarta-feira, maio 30, 2018

Escavações paleontológicas no Algarve em destaque num novo livro

O novo livro de Steve Brusatte "The Rise and Fall of the Dinosaurs: A New History of a Lost World"  publicado pela William Morrow (New York, 2018) ISBN: 978-0-062490-421 relata a curiosa situação da descoberta do Metoposaurus algarvensis, com concelho de Loulé, em 2009.

O livro foi revisto por Michael Benton aqui.

Frontispício do livro "The Rise and Fall of the Dinosaurs: A New History of a Lost World"
Excerto do livro "The Rise and Fall of the Dinosaurs: A New History of a Lost World" com a fotografia da jazida da Penina, no Algarve

segunda-feira, março 12, 2018

Apresentação do catálogo: Loulé. Territórios, Memórias, Identidades.

O Museu Nacional de Arqueologia, a Câmara Municipal de Loulé e a Imprensa Nacional - Casa da Moeda, S. A. apresentam no próximo dia 15, em Lisboa, o Catálogo da exposição “Loulé. Territórios, Memórias, Identidades”, uma obra que se constitui como um "Estado da Arte sobre a Arqueologia, a Paleontologia e a História do concelho".



O catálogo é resultado de toda a investigação científica criada a partir das colecções em exposição e resulta na compilação de 29 textos de 31 autores e na apresentação de fichas dos objectos realizadas por 25 autores. A exposição, que já ultrapassou os 100.000 visitantes, vai ficar patente no Museu Nacional de Arqueologia até ao final de 2018, integrando o programa comemorativo dos 125 anos da instituição, aniversário que coincide com a celebração do Ano Europeu do Património Cultural.

segunda-feira, fevereiro 12, 2018

Os vertebrados fósseis do Algarve triásico

Novo estudo sobre os vertebrados triásicos do Algarve dá duas novas revelações: 1) apresentam-se os primeiros fósseis de placodontes em Portugal e 2) quase todo o Grés de Silves é de idade Carniana (227 a 237 Ma).
A investigação resulta das campanhas de campo da Universidade Nova de Lisboa e dos trabalhos de Mestrado em Paleontologia de Hugo Campos sobre os vertebrados do Triásico algarvio, com apoio da Câmara Municipal de Loulé. O texto foi publicado no livro Loulé: Territórios. Memórias. Identidades lançado a semana passada.

Referência:
Mateus, O., & Campos H. (2018).  Loulé há mais de 220 Milhões de anos: os vertebrados fósseis do Algarve triásico. Loulé: Territórios. Memórias. Identidades. 378-385.: Museu Nacional de Arqueologia | Imprensa Nacional PDF

E aqui replica-se o texto integral do artigo:


Loulé há mais de 220 Milhões de anos: os vertebrados fósseis do Algarve triásico

Octávio Mateus e Hugo Campos
  1. OS TESOUROS ESCONDIDOS NO GRÉS DE SILVES

O famoso Grés de Silves é um tipo peculiar de arenito e argilito avermelhados com o qual o Castelo de Silves e muitas outras construções históricas do barrocal algarvio foram construídas. O termo Grés provém do francês grès, um sinónimo de arenito, uma rocha sedimentar composta por areia consolidada, compactada e naturalmente cimentada. Este arenito é mais resistente que os arenitos Miocénicos amarelados típicos das arribas figuradas em todos os postais turísticos do Algarve, e mais fácil de escavar e construir do que os xistos das serras do Caldeirão e Espinhaço de Cão. O Grés de Silves foi por isso o material de eleição do Castelo de Silves construído ao longo de vários séculos.
O termo Grés de Silves é criado em 1887 pelo geólogo suíço Paul Choffat para uma formação geológica do Triásico de Portugal, composta sobretudo por estes argilitos e arenitos avermelhados. Pela sua composição de fósseis e posição relativa a outras camadas, desde cedo se propôs que o Grés de Silves seria de idade triásica. São os fósseis recolhidos neste Grés de Silves que são alvo deste texto.

1.1 Triásico

O Triásico é um período da história da Terra que começou há cerca de 252 milhões de anos e terminou há 201. Este é o primeiro período da Era Mesozóica, conhecida por ser aquela durante a qual os dinossauros surgiram e se espalharam pelo globo, seguindo o período Pérmico e sendo seguido pelo Jurássico.
Foi no período Triásico que vários grupos de animais vertebrados bem-sucedidos surgiram e se diversificaram, alguns deles sobrevivendo até aos dias actuais. Entre eles estavam não só os dinossauros, como pterossauros (répteis voadores aparentados com os dinossauros), ictiossauros (répteis marinhos com corpos semelhantes aos dos golfinhos), lepidossauros (grupo que inclui cobras, lagartos e anfisbenas), tartarugas, os antepassados dos crocodilos e mamíferos.
A Terra era muito diferente do que é actualmente. Os continentes estavam juntos num único supercontinente chamado Pangeia rodeado pelo grande oceano Pantalassa. O clima global era quente e árido sobretudo na parte central desta massa continental. Estas condições favoreceram a oxidação de ferro que dá a cor avermelhada típica do Grés de Silves.
O Triásico começa aos 252 M.a. após a maior extinção em massa da história da Terra, que marcou o final da Era Paleozóica, e termina com outro grande evento de extinção na passagem para o período Jurássico, aos 201 M.a.. Esta extinção teve um grande impacto na vida marinha e continental, extinguindo vários grupos de organismos, alguns dos quais subsistiam desde o Paleozóico.
Em Portugal, os únicos fósseis de vertebrados que se conhecem deste período foram achados nos concelhos de Loulé e de Silves.

1.2 Os primeiros passos na história da paleontologia no Algarve
A história da paleontologia do Algarve data desde os trabalhos do naturalista Charles Bonnet (1816-1867), fundador da Comissão Geológica e que viveu em Loulé. Em 1846 e 1847, Bonnet percorre o Algarve, procedendo a numerosas observações de caráter topográfico, geográfico e geológico e recolhendo fósseis e amostras de minerais. Bonnet refere a existência de amonites e belemnites na Serra de Alfeição, Nexe, perto de Loulé, e conchas miocénicas em Lagos, Vila Nova de Portimão, Ferragudo, Mexilhoeirinha e Albufeira. Cita ainda a existência de fósseis “Cardium edule” e Mytilus em Albufeira e entre Lagos e Porto de Mós (Bonnet, 1850: p. 142).
O primeiro trabalho de fundo sobre a paleontologia do Algarve chega de Jorge Cotter (1845-1919) que em 1877 estudou a fauna miocénica.
O primeiro trabalho de paleontologia de vertebrados do Algarve vem pelo punho de um dos grandes nomes da geologia portuguesa, o geólogo suíço Paul Choffat, que numa memória de 1885 relatou a ocorrência de alguns géneros de peixes e uma tartaruga fóssil da Mexilhoeira e parte do rostro de um Machimosaurus hugii de Malhão, uma espécie de crocodilomorfo marinho de grandes dimensões que viveu durante o Jurássico (Choffat, 1885). Choffat também trata a geologia do Grés de Silves.
A partir dos anos 60, Miguel Telles Antunes descreve uma série de fósseis miocénicos, como dentes de Tomistoma cf. lusitanica (género do falso gavial) de Cerro das Mós, Lagos, em 1961; em 1979, vários vertebrados, incluindo um sirénio (possivelmente um dugongo) e baleias de Olhos de Água; em 1981, peixes e mais dentes de Tomistoma cf. lusitanica na Praia Grande (Albufeira); e em 1986, descreveu vários mamíferos plistocénicos de Goldra (Loulé), Algoz (Silves) e Morgadinho (Tavira), entre os quais se incluem um javali, um equídeo, um hipopótamo, cervos, lagomorfos (grupo das lebres e coelhos), soricídeos (grupo dos musaranhos), talpídeos (grupo das toupeiras) e vários roedores  (Antunes, 1961; Antunes, 1979; Antunes et al., 1986a; Antunes et al., 1986b; Antunes et al., 1986c). Os dentes de tubarões, peixes ósseos e crocodilos do Miocénico (15 a 20 M.a.) das Praias de Sesmarias, Praia Grande e Arrifão indicam águas mais quentes que as actuais.
Ainda em matéria de paleontologia de vertebrados é de destacar a ocorrência de pegadas e raros ossos de dinossauros do Cretácico Inferior de Porto de Mós (Lagos), Praia da Salema e Praia Santa (Santos et al., 2013).

1.3 Estudo dos vertebrados do Triásico do Concelho de Loulé
Desde os trabalhos dos paleontólogos franceses Denise Russell e Donald Russell em 1977, por indicação do paleontólogo Miguel Telles Antunes, e da tese de M. Christian Palain em 1975 que se conhece a existência de material de anfíbios no Triásico do Algarve, sobretudo em São Bartolomeu de Messines, que foi atribuído a anfíbios estegocéfalos, sem nenhuma atribuição a nível genérico ou específico.
Em 1979 e 1980 o alemão Thomas Schröter fez estudos de geologia da Rocha da Pena no centro do Algarve, no concelho de Loulé, e recolheu alguns ossos que permitiu Florian Witzmann e Thomas Gassner da Universidade de Humboldt de Berlim publicar em 2008 a ocorrência de metopossaurídeos e mastodonssaurídeos, os primeiros em Portugal. As nossas visitas e trabalho de campo da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa ocorreram em Dezembro de 2008, Setembro de 2009, Junho de 2010, Junho de 2011, Junho de 2016 e Maio e Junho de 2017.

1.4 As jazidas
A jazida principal de vertebrados do Triásico Superior de Portugal encontra-se perto da aldeia de Penina, no sopé da Rocha da Pena, concelho de Loulé, e no centro geográfico do Algarve. Daí provêm numerosos fósseis numa jazida quase monoespecífica, dominada por Metoposaurus algarvensis. A concentração de ossos é muito elevada, cerca de dois crânios por cada metro quadrado, e já foram identificados pelo menos dez indivíduos distintos, embora se reconheça que o número poderá facilmente ascender a duas dezenas, fazendo desta jazida a única bonebed em Portugal, anglicismo usado para referir uma camada repleta de ossos fósseis. Além do Metoposaurus, ocorrem raros bivalves e escamas de peixe ganóides, e uns metros acima, ossos de fitossauros e placodontes  (figura 1).
Além da jazida da Penina, a mais relevante cientificamente, reportamos ainda a ocorrência de vertebrados fósseis do Triásico em São Bartolomeu de Messines, Vale Vinagre, Berbeleja e Barragem de Fuzeiros.

Figura 1. Aspecto da escavação da jazida da Penina em 2010.


 2. OS VERTEBRADOS DO TRIÁSICO DO ALGARVE

2.1 O Metoposaurus algarvensis

O Metoposaurus algarvensis é um anfíbio do grupo dos temnospôndilos, predadores extintos com aparência semelhante à de uma salamandra, mas com comprimentos que podiam atingir mais de dois metros. Os temnospôndilos, que teriam um estilo de vida semelhante ao dos crocodilos e eram comuns em ambientes aquáticos, surgiram ainda antes do período Triásico, na Era Paleozóica,  e extinguiram-se quase todos no final deste período, excepto um pequeno grupo que conseguiu sobreviver até finalmente desaparecer no Cretácico Inferior, mais de cem milhões de anos mais tarde.
Os fósseis da Penina são claramente do género Metoposaurus, mas distintos dos conhecidos na Polónia, Marrocos, França e Alemanha, o que permitiu erigir uma nova espécie para a ciência, em 2015. Recebeu o nome Metoposaurus algarvensis, encontrada apenas no concelho de Loulé e nomeada em homenagem ao Algarve (figura 2). Esta espécie de crânio achatado vivia em corpos de água como charcos e lagos, os quais eram amiúde severamente afectados por grandes períodos de seca que os reduziam gradualmente, confinando os Metoposaurus que se concentravam e onde acabavam por morrer em massa. Esta situação resultou numa grande e excepcional concentração de ossos, com mais de dez indivíduos, que foi encontrada na Penina.
Sendo anfíbios, os Metoposaurus eram muito dependentes de corpos de água e porventura não teriam uma musculatura devidamente preparada para deambular e procurar alternativas de sobrevivência durante as épocas de seca, o que poderá explicar as concentrações de animais que morreram nas jazidas da Penina mas também da Polónia, Estados Unidos e Marrocos.

Figura 2. Reconstrução artística do anfíbio do Triásico do Algarve, Metoposaurus algarvensis, por Joana Bruno

2.2 O fitossauro

Os fitossauros eram répteis semi-aquáticos, dos maiores predadores do Triásico, e que possivelmente se alimentavam de animais como o Metoposaurus algarvensis. Com crânios e rostros alongados e corpo couraçado, os fitossauros eram fisicamente muito semelhantes a crocodilos e teriam estilos de vida parecidos. No entanto, os fitossauros não são aparentados aos crocodilos, sendo que a diferença mais notável é a posição retraída das narinas: os crocodilos têm as narinas na parte anterior do rostro enquanto que os fitossauros tinham-nas numa posição recuada, quase acima dos olhos, o que lhes permitia respirar com quase todo o corpo submerso (figura 3).
Os fitossauros viveram apenas durante o Triásico, em várias regiões do globo, mas na Península Ibérica o único fóssil de fitossauro que se conhece é uma mandíbula e um conjunto de dentes encontrados no concelho de Loulé, perto da concentração de Metoposaurus. Até à data não se sabe a espécie de fitossauro deste exemplar, mas parece próxima de Nicrosaurus.
O nome fitossauro significa “lagarto planta”, pois inicialmente pensava-se que seriam animais herbívoros, o que rapidamente se provou errado pois seriam carnívoros e piscívoros. O exemplar de Loulé possui inclusivé alguns dentes serrilhados semelhantes aos de dinossauros predadores.
O fóssil foi descoberto durante as escavações em 2010 e publicado na revista científica de paleontologia de vertebrados, Journal of Vertebrate Paleontology (Mateus et al., 2012).

Figura 3. Reconstrução artística de fitossauro do Algarve. Ilustração por Joana Bruno.

2.3 O placodonte

Os placodontes são um grupo de répteis aquáticos extintos, pertencentes ao grupo Sauropterygia, que viveram durante o Triásico. A maioria dos placodontes viviam no mar, em águas pouco profundas, alimentando-se de moluscos que esmagavam com seus grandes dentes planos. Estes animais são tipicamente divididos entre placodontes sem carapaça e com carapaça. Esta era constituída por placas ósseas, ou osteodermes, que lhes dava uma aparência semelhante à das tartarugas mas com as quais não são aparentados, embora seja um caso curioso de evolução convergente. Ao contrário das tartarugas, as carapaças dos placodontes tinham osteodermes muito mais numerosas, na ordem das centenas, de menor tamanho, em múltiplas fiadas (e apenas 3 nas tartarugas), não estando fundidas às costelas.
Nos concelhos de Loulé e de Silves foi recolhido um grande número destas osteodermes. A sua configuração é única, pensando-se que pertençam ao género Henodus devido à forma hexagonal, plana, alongada e sem ornamentação. Além disso, o Henodus não tinha os enormes dentes típicos dos demais placodontes e, de facto, não foram descobertos nenhuns dentes, o que seria de esperar caso se tratasse de outra espécie de placodonte. O Henodus é o único placodonte que vivia em águas salobras, ao invés de viver no mar, e que se alimentava por filtragem de pequenos organismos que se encontram na água e substrato lodoso, tal como fazem os flamingos hoje.

2.4 Implicações para a determinação da idade geológica

A idade geológica do Grés de Silves tem sido debatida desde os tempos de Paul Choffat, assumindo-se uma idade triásica, por contexto geológico e ocorrência de fósseis do Jurássico Inferior estratigraficamente acima.
Os fósseis de vertebrados são porventura os que poderão indicar a idade de forma mais precisa. O género Metoposaurus está restrito ao Carniano e Noriano (237 a 208 M.a.). A transição do Carniano superior e Noriano inferior está aos 227 M.a. Outra ocorrência útil para datação é a do réptil sauropterígio Henodus que tem uma distribuição cronológica restrita ao Carniano inferior, 235 a 228.4 milhões de anos.  Os fósseis de Henodus ocorrem na maioria do Grés de Silves, indicando que a maioria da deposição desta formação é relativamente restrita no tempo e possivelmente Carniana.

3. DO ESTUDO À EXPOSIÇÃO
A equipa de paleontólogos que estudam os vertebrados do Triásico do Algarve é internacional, liderada por um de nós (OM), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-UNL) e colaborador do Museu da Lourinhã, Stephen Brusatte da Universidade de Edinburgh (Reino Unido) que liderou o estudo do Metoposaurus, Richard Butler, da Universidade de Birmingham (Reino Unido), Sebastien Steyer do Museu de História Natural de Paris, Hugo Campos, estudante de Mestrado em Paleontologia da Universidade Nova de Lisboa e em associação com a Universidade de Évora, Miguel Moreno-Azanza da Universidade Nova de Lisboa, e Jessica Whiteside da Universidade de Southampton.
O estudo foram financiados pela National Science Foundation, Fundação Alemã de Investigação, Jurassic Foundation, CNRS, Columbia University Climate Center e Chevron Student Initiative Fund e com grande apoio da Câmara Municipal de Loulé. Apoio adicional foi fornecido pela Câmara Municipal de Silves e Junta de Freguesia de Salir. A escavação decorreu com estudantes de paleontologia da Universidade Nova de Lisboa.
A excelente conservação e articulação dos espécimes, a novidade científica com descrição de uma espécie única, o elevado potencial para a recolha de novos vestígios, a quantidade dos achados, e a sua idade triásica faz desta jazida uma das mais importantes na paleontologia de vertebrados de Portugal. Os estudos paleontológicos prosseguem com a coordenação científica da Universidade Nova de Lisboa e o entusiástico apoio pelo executivo e equipa da Câmara Municipal de Loulé.


Figura 4. Processo de preparação do crânio de Metoposaurus algarvensis (fotografia por Nury Lopez).

Após a preparação laboratorial no Museu da Lourinhã (figura 4) e na FCT-UNL, o Metoposaurus algarvensis e o fitossauro estão em exposição no Museu Nacional de Arqueologia, patente desde o passado dia 21 de Junho de 2017 na galeria poente do Museu Nacional de Arqueologia, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, como parte da exposição monográfica "Loulé. Territórios, Memórias e Identidades" (figura 5). O ponto de partida da exposição é dedicado ao apontamento "Loulé há mais de 220 milhões de anos" onde se destacam os achados paleontológicos. Acompanhados por ilustrações de Joana Bruno, apresentam-se alguns dos resultados de seis anos de escavações paleontológicas: dois crânios (27 e 45 cm de comprimento, sendo um deles o espécime holótipo, isto é, o exemplar com o qual se estabeleceu uma nova espécie e que recebeu o código FCT-UNL 600) e uma mandíbula (52,5 cm) de Metoposaurus algarvensis e uma mandíbula (45 cm) e dentes de fitossauro.

Figura 5. Núcleo expositivo dedicado aos achados paleontológicos da região de Loulé. Fotografia por Nathaly Rodrigues.


4. BIBLIOGRAFIA
ANTUNES, M. T. (1961) - «Tomistoma lusitanica, Crocodilien du Miocéne du Portugal». Revista da Faculdade de Ciências de Lisboa. 9:5-88.
ANTUNES, M. T. (1979) - «Vertebrados miocénicos de Olhos de Água (Algarve), interesse estratigráfico». Boletim do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico da Faculdade de Ciências, 16(1): 343-352.
ANTUNES, M. T., JONET, S., & NASCIMENTO, A. (1981) - «Vertébrés (crocodiliens, poissons) du Miocène marin de l'Algarve occidentale». Ciências da Terra, 6:9-38.
ANTUNES, M. T., MEIN, P., NASCIMENTO, A., & PAIS, J. (1986a) - «Le gisement pleistocene de Morgadinho, en Algarve». Ciências da Terra, 8:9-22.
ANTUNES, M. T., MANUPPELLA, G., MEIN, P., & ZBYSZEWSKI, G. (1986b) - «Goldra: premier gisement karstique en Algarve, faune et industries». Ciências da Terra, 8:31-42
ANTUNES, M. T., AZZAROLI, A., FAURA, M., GUERIN, C., & MEIN, P. (1986c) - «Mammiferes pleistocenes de Algoz, en Algarve: une revision». Ciências da Terra, 8:73-86.
BRUSATTE, S.L., BUTLER, R.J., MATEUS, O. & D STEYER, J.S., (2015) - «A new species of Metoposaurus from the Late Triassic of Portugal and comments on the systematics and biogeography of metoposaurid temnospondyls». Journal of Vertebrate Paleontology, 35(3):e912988.
CHOFFAT, P. (1885) - «Recueil de monographies stratigraphiques sur le système crétacique du Portugal». Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal.
DELGADO, J. F. N. (1908) - «Système silurique du Portugal: étude de stratigraphie paléontologique». Serviços Geológicos de Portugal, 1-275.
MATEUS, O., BUTLER, R.J., BRUSATTE, S.L., WHITESIDE, J.H. AND STEYER, J. S. (2014) - «The first phytosaur (Diapsida, Archosauriformes) from the Late Triassic of the Iberian Peninsula». Journal of Vertebrate Paleontology, 34(4):970-975.
PAIS, J., LEGOINHA, P., ELDERFIELD, H., SOUSA, L., & ESTEVENS, M. (2000) - «The Neogene of Algarve (Portugal)». Ciências da Terra, 14:277-288.
SANTOS, V. F., CALLAPEZ, P. M., & RODRIGUES, N. P. (2013) - «Dinosaur footprints from the Lower Cretaceous of the Algarve Basin (Portugal): New data on the ornithopod palaeoecology and palaeobiogeography of the Iberian Peninsula». Cretaceous Research, 40:158-169.
WITZMANN, F. & GASSNER, T. (2008) - «Metoposaurid and mastodonsaurid stereospondyls from the Triassic-Jurassic boundary of Portugal». Alcheringa 32:37–51.




segunda-feira, julho 03, 2017

Anfíbio e réptil do Triásico expostos no Museu Nacional de Arqueologia

Está patente, desde o passado dia 21 de Junho, na galeria poente do Museu Nacional de Arqueologia, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, a exposição monográfica "Loulé. Territórios, Memórias e Identidades".

Fachada da entrada da exposição. Fotografia por Nathaly Rodrigues.

A exposição é uma iniciativa conjunta dos Museus Nacional de Arqueologia e Municipal de Loulé e reúne um acervo com mais de 500 bens culturais que testemunham os últimos sete milénios de história do maior e mais povoado concelho do Algarve, Loulé. Os bens culturais provêm de 13 instituições distintas, entre as quais se destacam o Museu Municipal de Loulé e o Museu Monográfico do Cerro da Villa, o Museu Nacional de Arqueologia, o Arquivo Municipal de Loulé, a UNIARQ – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, os Museus Municipais de Faro, da Figueira da Foz, de Arqueologia de Albufeira e de Silves, a Universidade do Algarve, a Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa, o Museu da Lourinhã e a Imprensa Nacional Casa da Moeda.
A mostra divide-se em vários núcleos que revelam os achados paleontológicos e arqueológicos que melhor testemunham a história do concelho de Loulé. 
O ponto de partida da exposição é dedicado ao apontamento "Loulé há mais de 220 milhões de anos" onde se destacam os achados paleontológicos, com 227 milhões de anos, realizados por uma equipa internacional de investigadores, liderada pelo paleontólogo e investigador da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e do Museu da Lourinhã, Octávio Mateus. 
Acompanhados por ilustrações de Joana Bruno, alguns dos resultados de seis anos de escavações paleontológicas, um crânio e uma mandíbula de Metopossaurus algarvensis e uma mandíbula e dentes de fitossauro, anfíbio e réptil do Triásico respectivamente, compõem este primeiro momento expositivo.
Núcleo expositivo dedicado aos achados paleontológicos da região de Loulé. Fotografia por Nathaly Rodrigues.

Metopossaurus algarvensis. Ilustração por Joana Bruno. Fotografia por Nathaly Rodrigues.

Crânio e mandíbula de Metopossaurus algarvensis. Fotografia por Nathaly Rodrigues.

Fitossauro. Ilustração por Joana Bruno. Fotografia por Nathaly Rodrigues.

Mandíbula e dentes de fitossauro. Fotografia por Nathaly Rodrigues.

Seguem-se outros testemunhos importantes para o concelho, divididos em três secções: a secção Territórios, que apresenta o concelho na sua diversidade geomorfológica - o litoral, a serra e o barrocal, a secção Memórias, que expõe, por ordem cronológica, sete núcleos arqueológicos onde figuram, a título exemplificativo, a escrita do sudoeste e as mais antigas actas conhecidas em Portugal , e a secção Identidades, onde são revelados os rostos de achadores, cuidadores e doadores de bens culturais de Loulé. 
A exposição, comissariada por Victor S. Gonçalves, Catarina Viegas e Amílcar Guerra, da Universidade de Lisboa, Helena Catarino, da Universidade de Coimbra e Luís Filipe Oliveira, da Universidade do Algarve, estará aberta ao público até 30 de Dezembro de 2018.

segunda-feira, março 28, 2016

200 anos sobre a vida de Charles Bonnet (1816-1867), fundador da Comissão Geológica

Mapa geográfico do Alentejo e Algarve
por Charles Jonnet 1850
Faz hoje exactamente 200 anos sobre o nascimento de um dos fundadores da geologia Portuguesa, Charles Bonnet (1816-1867).
Charles Jean Baptiste Bonnet (n. Vesoul , França, a 28 de Março de 1816, - m. Loulé, a 8 de Abril de 1867) era filho do sapateiro François Bonnet e de Jeanne Françoise Zominy, doméstica, ambos de origem humilde. Fez os seus estudos em engenharia civil na especialidade de geologia e mineralogia em França. Emigrou para Portugal entre 1844 e 1846.  Membro da Academia das Ciências de Lisboa desde 1849.

Foi casado com Octávia Henriqueta Isaura Pernot, e teve um filho, Carlos Octávio Bonnet,
Frontspício de Bonnet, C. 1950. Algarve (Portugal). Description géographique et géologique de cette Province
Viveu na rua de S. Francisco, n. 40-12, em Lisboa, e, depois em Loulé.  Em 1846, Bonnet estava a estudar uma mina de cobre no Algarve. Nessa altura deparou-se com a necessidade de corrigir e melhorar a cartografia geológica da região.  Em 1847, fez a sua segunda viagem ao Algarve, desta vez para percorrer toda a região, procedendo a numerosas observações de carácter topográfico, geográfico e geológico. A partir de 1849 Bonnet dirige a Comissão Geológica do reino, criada no ano anterior, em 1848, por parecer da Academia das Ciências. Essa comissão foi criada para dar “princípio à exploração geológica e mineralógica do Reino” (segundo a Acta da Câmara dos Deputados, de 16 de Abril de 1849), precursora da Comissão organizada na Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos em 1857. Recebeu o grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo em 8 de Novembro de 1847. Charles Bonnet fez recolhas de espécimens e dados orográficos, corográficos, botânicos, e geológicos. Recolheu fósseis e amostras de minerais no Algarve. Ofereceu uma colecção de 140 rochas e minerais ao Museu de História Natural da Academia Real das Ciências de Lisboa.
Relativamente à paleontologia, Bonnet teve um papel secundário, sendo o principal trabalho a cartografia geológica e geográfica. Contudo, refere a existência de amonites e belemnites na Serra de Alfeição, Nexe, perto de Loulé, e conchas miocénicas em Lagos, Vila Nova de Portimão, Ferragudo, Mexilhoeirinha e Albufeira. Cita mesmo a existência de fósseis “Cardium edule” e Mytilus em Albufeira e entre Lagos e Porto de Moz (Bonnet, 1850: p. 142).
Residência de Charles Bonnet, em Loulé.

Jaz em Loulé. Não se conheçem imagens de Charles Bonnet.


Publicou:
Mappa Geographico da Provincia do Alentejo e do Reino do Algarve(ca. 1:800 000, 1851) disponível em http://purl.pt/1968
Bonnet, C. 1850. Mémoire sur le Royaume de l’Algarve (Province du Portugal), contenent la description des montagnes, des sources, des cours d’eau, des villes, etc., du climat, de la végétation, des animaux, de l’industrie, du commerce, etc., ainsi qu’une esquisse historique de cette contrée. Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, 2ª série, tomo II.
Bonnet, C. 1950. Algarve (Portugal). Description géographique et géologique de cette Province. Acad. Roy. Scienc. Lisbonne, 186 p.






Fontes e Biografias:
Dias, M.H., Charles Bonnet (1816-1867). Em http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p67.html
Mesquita, J.C.V., 1985. Charles Bonnet, a reedição de uma obra e a urgência dum Jardim Botânico em Loulé. Al-Gharbe-Estudos Regionais, 2, pp.33-61.

Não confundir com o homónimo naturalista e filósofo suíço Charles Bonnet (1720-1793).